Por thiago.antunes

Rio - Depois da morte de quatro policiais em serviço nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) dos complexos da Penha e do Alemão em pouco mais de um mês, o policiamento nas duas regiões recebeu o reforço de 300 homens de outras unidades, ontem à tarde. Eles assumiram o patrulhamento nas favelas às 17h, substituindo os 200 PMs que estavam na região desde sexta-feira.

Outros 100 policiais que não participaram do patrulhamento estão sendo treinados por 30 agentes do Comando de Operações Especiais (COE) do Batalhão de Operações Especiais (Bope) para formar uma espécie de tropa de elite das UPPs.

A tropa de policiais%2C reunindo PMs de diversas UPPs e agentes do Bope%2C sobe o Morro do Alemão. Uma resposta à ação do tráfico Severino Silva / Agência O Dia

Vinte áreas críticas e mais violentas foram ocupadas nos dois complexos pelos policiais, divididos em grupos para ocupar pontos estratégicos. “O Bope vai ficar no local por tempo indeterminado. Todos os cerca de 9,3 mil policiais das 38 UPPs vão passar pelo mesmo treinamento, que envolve procedimentos táticos para aumentar a segurança dos PMs em suas ações e da própria população”, afirmou o subcomandante do Bope, tenente-coronel Renê Alonso.

Ele estava à frente da operação porque o comandante da tropa de elite da PM, tenente-coronel Fábio Souza, foi exonerado do cargo. Segundo reportagem do ‘RJTV’, ele deixou o Bope porque fez críticas em redes sociais ao coronel José Luís Castro Menezes, comandante da PM. Em nota, a corporação citou a saída como “estratégia do comando da PM”.

Além de receber instruções da tropa de elite, os cem PMs, junto com os 30 agentes do Bope e com apoio de um helicóptero da corporação, fizeram uma operação na Pedra do Sapo, no ponto mais alto do Morro do Alemão, no início da tarde. A polícia filmou a movimentação de um grupo de traficantes com radiotransmissores.Não houve confronto, mas a entrada da tropa deixou moradores apreensivos. “Meu Deus, será que o pesadelo que vivíamos antes da ocupação, com troca de tiros constantes, vai voltar?”, indagou a secretária Marilene Sandoval, de 43 anos, que mora na Pedra do Sapo.

Helicóptero da corporação dá apoio à ocupação de pontos críticos das comunidades da Penha e do AlemãoSeverino Silva / Agência O Dia

O coordenador-geral das UPPs, coronel Frederico Caldas, disse que a presença e o treinamento aplicado aos PMs das UPPs não caracterizam um retrocesso no processo de pacificação, apesar de o Bope ser considerado uma polícia de confronto e não de proximidade: “Vejo isso mais como uma reciclagem de conhecimentos, principalmente em um momento de dificuldades de enfrentamento dos criminosos. O Bope nos dará apoio operacional e psicológico.”

Na Rocinha, policiais da UPP local também começaram a receber treinamento do Bope ontem. De manhã, bandidos dispararam contras PMs, mas não houve feridos. O barulho, segundo moradores, indicava que as armas eram de calibre pesado.

No alto do Morro do Alemão%2C o Bope vai montar uma base permanenteSeverino Silva / Agência O Dia

Cabral vê ação orquestrada e diz que governo não vai se intimidar

Diante da escalada de violência, que deixou quatro policiais das UPPs do Alemão mortos em pouco mais de um mês, o governador Sérgio Cabral acredita que exista um plano orquestrado pelo tráfico. “Não tenho dúvidas de que há uma ação de criminosos querendo cruelmente assassinar policiais do Rio”, disse ontem, durante inauguração da Estação Uruguai do metrô. Cabral afirmou que o estado vai continuar avançando com a política das UPPs, mesmo com o revide do tráfico: “Isso é terrorismo de gangues acostumadas a dominar territórios durante décadas.”

Segundo Cabral, não é a primeira vez que o tráfico intensifica a violência em épocas de transição governamental. “Quando assumi o governo em 2007, houve uma ação do tráfico um mês antes, matando dezenas de inocentes. Quando nos reelegemos, em 2010, eles agiram novamente. Essa é mais uma tentativa covarde do tráfico. Mas nossa política vai avançar, continuar”, prometeu.

O governador também repudiou as críticas feitas à política de pacificação promovida pelo estado. Segundo ele, casos como o desaparecimento do pedreiro Amarildo, que foi torturado e morreu nas mãos de policiais da UPP da Rocinha, foram usados como bandeira contra a estratégia implantada em seu governo. “Claro que não temos a ilusão de que todos os problemas das comunidades foram resolvidos, mas não vão nos intimidar”, afirmou Cabral.

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