Cidade das Artes tem verba de R$ 28 milhões por ano, mas precisa de muito mais

Verba não dá conta do funcionamento de monumento, que está com a arrecadação no vermelho

Por O Dia

Rio - O investimento milionário na construção da Cidade das Artes (antiga Cidade da Música) dificilmente vai retornar aos cofres públicos. Aberto no ano passado para a população, o monumento que custou R$ 500 milhões está com a arrecadação no vermelho. O dinheiro que veio da bilheteria e dos patrocínios, em 2013, cerca de R$ 2,3 milhões, está muito aquém do que a luxuosa casa de espetáculos precisa para pagar suas despesas.

“Isso aqui nunca vai dar lucro”, sentencia o ex-Secretário Municipal de Cultura e responsável pelo megacentro, Emílio Kalil. Mas este não é o único problema que bate à porta do complexo cultural. A estrutura não foi planejada para ficar próxima ao mar, e a maresia se tornou um inimigo diário. Assim como os detalhes da arquitetura. Alguns vidros são tão altos que se tornam impossíveis de serem limpos. Um trabalho que dependeria da contratação de alpinistas.

“Tenho aqui espelhos d’água que, em dois segundos, podem virar o maior criador de dengue da cidade. Há um jardim imenso, que, se eu deixar crescer, vira um deserto. Tenho um prédio que fica exposto à maresia, porque foi planejado para uma outra realidade de país, e vidros tão grandes que são impensáveis de alcançar. Se não tiver manutenção, a maresia vai destruir a casa”, advertiu Kalil, que citou os batentes e as portas de metal como os equipamentos que mais sofrem com a corrosão.

Com prédio exposto à maresia e vidros altos%2C que precisariam ser limpos por alpinistas%2C centro tem ganho de bilheteria bem abaixo do necessárioAlexandre Brum / Agência O Dia

O dinheiro da bilheteria e dos patrocinadores é gasto para pagar o cachê de artistas, de produção e de pequenos consertos internos da casa de espetáculos, como torneiras. Em 2013, a Cidade das Artes atraiu um público de 230 mil pessoas. Foram 117 atrações.

Segundo o ex-secretário, o orçamento anual repassado pela prefeitura é de R$ 28 milhões. Mas o valor não é suficiente para a manutenção da megaestrutura. Para piorar, no ano passado, o município, de acordo com Kalil, repassou apenas R$ 17 milhões, porque as atividades só se intensificaram depois de abril.

“Esta casa, para poder reagir e ter uma programação compatível com o nível do Rio de Janeiro, que é a capital mais visada do país, precisaria de mais 50% do orçamento (R$ 14 milhões). Essa é uma missão que tenho junto ao prefeito e aos patrocinadores”, afirmou o gestor, sem saber que aumentar as verbas destinadas ao espaço não faz parte dos planos do município. Por meio da sua assessoria, o prefeito Eduardo Paes informou que não vai aumentar a verba repassada e disse ainda que a obrigação do município de manter o espaço está sendo cumprida.

‘Tenho que tentar me virar’

Quarta maior sala de música do mundo, a Cidade das Artes já sente os efeitos da Copa do Mundo. Segundo Emílio Kalil, os patrocinadores “abandonaram a área da cultura” este ano por causa do mundial. “Então, tenho que tentar me virar. Não posso ficar o dia inteiro chorando”, afirma o gestor da casa. O alento vem do fato de que sobreviver apenas com a bilheteria e o dinheiro que vem da iniciativa privada não é uma realidade apenas do complexo carioca.

Kalil citou a Ópera de Paris como exemplo, que apesar do orçamento “trilhardário”, segundo ele, e lotação esgotada o ano todo, tem apenas 16% do orçamento vindo da venda de ingressos. O ex-secretário municipal de Cultura é enfático ao admitir que, sem a verba do governo, a Cidade das Artes pode fechar as portas. Para ele, é impossível que o prédio de dez andares consiga se sustentar. “Se a casa não tiver o aporte do governo, está falida e pode fechar”, afirmou o gestor do complexo.

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