Por bianca.lobianco

Rio - Formados para salvar vidas, os mais de 100 profissionais da saúde que atuam em um posto de saúde de Imbariê, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, estão correndo risco de morte. Recentes casos de violência aterrorizam médicos, enfermeiros e pessoal de apoio da Unidade Pré-Hospitalar (UPH) Dr. Jorge Rodrigues Pereira. Apavorados com assaltos e tiroteios em confrontos entre traficantes e milicianos, vários estão pedindo demissão de seus cargos. Só no último dia 9, por exemplo, três pediatras pediram suas contas da UPH, que atende mais de 500 pessoas por dia.

No dia 7, nas imediações do pronto-socorro, na Rua Santa Catarina, uma técnica em enfermagem teve celular, dinheiro e outros percentes roubados por bandidos armados. “Comigo, já são quatro funcionários assaltados aqui somente este mês. Muitos, traumatizados, não estão vindo nem trabalhar”, lamentou a técnica de enfermagem Y., de 32 anos. “Fui assaltada também há 15 dias por dois homens armados de pistola num Gol prata. Levaram meu celular, dinheiro e até meu uniforme”, lamentou outra funcionária.

Na Unidade Pré-Hospitalar (UPH)%2C que atende 500 pessoas por dia%2C funcionários e pacientes sofrem com constantes assaltos e ameaçasFernando Souza / Agência O Dia

No dia 2, domingo, uma médica teve o carro roubado e, há cerca de dois meses, um psiquiatra foi baleado de raspão ao sair do trabalho. Ele foi vítima de suposto arrastão na Rio-Teresópolis, que passa na entrada do bairro.

Nem os pacientes escapam. “Assaltam fora e dentro da unidade, a qualquer hora do dia ou da noite. Não sei se é melhor enfrentar isso ou ficar doente em casa”, comentou o mecânico R., 43. “Uma cozinheira da UPH também foi assaltada na porta do posto há algumas semanas, assim como dezenas de pacientes vêm sendo atacados. Além disso, somos obrigados a interromper, sob ameaça de morte, qualquer procedimento médico para atender bandidos que chegam baleados de dia ou à noite. Nos tornamos reféns do medo”, desabafou um funcionário.

Segundo testemunhas, parte dos plantonistas abandonou a UPH no dia 9, devido ao terror imposto por criminosos que estariam fugindo da comunidade Mangueirinha, também em Caxias, para Imbariê, por causa das ações de repressão da polícia. O posto teria chegado a fechar as portas temporariamente. Quem precisava de socorro médico era orientado a procurar o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Saracuruna.

Segurança particular para outras unidades médicas

A Secretaria Municipal de Saúde negou que a UPH tenha interrompido o atendimento, mas admitiu que dois médicos faltaram ao plantão e que outros três pediram demissão “alegando a distância e por motivos particulares”. Segundo o órgão, outra unidade, do Programa Saúde da Família (PSF), na Rua Venceslau Brás, “conta com seguranças privados” para garantir o atendimento à população. A secretaria informou que solicitará reforço policial para os postos.

O comando do 15º BPM (Duque de Caxias) informou que já determinou o reforço do policiamento. Já a Polícia Civil afirmou que agentes da 62ª DP (Imbariê) estão “fazendo levantamento junto a comerciantes e moradores, assim como nos entornos dos postos”, para verificar a real situação de violência na área.

Sindicato faz denúncias

O Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SinMed RJ) criticou a falta de segurança para os profissionais de saúde em Imbariê. “Há muito tempo denunciamos essa situação, mas não percebemos efeito positivo nenhum. Se até as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras) vêm sendo fuziladas, imagina postos de saúde? Só nos resta implorar: Deus, nos acuda!”, desabafou o diretor Eraldo Bulhões.

Desde o ano passado mostra os altos índices de violência enfrentados por profissionais da saúde. Levantamento do SinMed e do Conselho Regional de Enfermagem (Coren-RJ) mostrou que pelo menos dez médicos e 20 enfermeiros foram assassinados em trabalho ou ao sair de seus postos de serviço nas últimas décadas. A maioria, depois de ter sofrido ameaças de pacientes, parentes de doentes ou de bandidos.

O estudo mostrou também que entre um e cinco médicos e enfermeiros sofrem agressões físicas ou verbais, ameaças de morte e xingamentos diariamente, só no município do Rio. No estado, dois profissionais de enfermagem abandonam a profissão por semana.


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