Por thiago.antunes

Rio - O ex-marido da juíza Patrícia Acioli, Wilson Júnior, deu uma declaração inflamada no julgamento do tenente-coronel da Polícia Militar, Cláudio Luiz Silva Oliveira, que está sendo julgado desde a manhã desta quinta-feira, no 3º Tribunal do Júri de Niterói, na Região Metropolitana, pelo assassinato da magistrada em agosto de 2011.

"Espero que o coronel Cláudio pegue a pena maxima de 36 anos para que sirva de exemplo e mostre que a justiça também se aplica a ricos e poderosos. Condenar soldado e cabo é muito mais fácil do que levar coronel ao banco dos réus, porque quem dá a ordem nunca suja as mãos", disse Wilson, pai dos três filhos que teve com Acioli. 

Tenente-coronel Cláudio Luiz chegou visivelmente abatido ao julgamentoSeverino Silva / Agência O Dia

A advogada Ana Cláudia revelou que também estava na lista de Cláudio. "O seu cliente já mandou me matar. Não vou revelar os nomes dos policiais que falavam que os PM's iam matar a juíza. Já tenho problemas demais. Se eu morrer, minha morte será direcionada para ele" , disse ela para o defensor do coronel. Ana Cláudia pediu ainda que o PM fosse retirado do local durante seu depoimento, o que foi aceito pelo tribunal. "O seu cliente mandou matar a júiza, por isso ele está preso e não pelas ameaças que fez a mim. A atitude insana deu a ele a cadeia", afirmou Ana Cláudia.

Um policial civil arrolado pela acusação e que escoltou o PM Jefferson de Araújo Miranda depois que ele voltou atrás na delação premiada afirmou que, no caminho, Jefferson revelou ter sido ameaçado pelo coronel Cláudio e por isso mudou o depoimento. Ana Cláudia revelou que Jefferson confessou a ela que o tenente-coronel mandou executar a juíza.

A esposa de Cláudio Luiz (centro) está presente ao julgamento desta quinta-feiraSeverino Silva / Agência O Dia

O chefe da investigação na 72ª DP (Fonseca) à época, Ricardo Henriques também depôs e afirmou que também era alvo dos PMs do 7º BPM (São Gonçalo). Ele investigava os autos de resistência forjados pelos policiais. Ricardo disse ainda que os números de crimes passaram a cair quando a juíza Patrícia Acioli pediu que os casos fossem averiguados. "O auto de resistência de Diego Beline foi o motivo do assassinato da juíza. O coronel nutria um ódio pela juíza porque ela mandou prender o Bezerra, que era chefe do serviço reservado do 7º BPM", afirmou Henriques.

"Se a DH não tivesse investigado e prendido os acusados eu não estaria aqui para prestar depoimento", encerrou Ricardo.

Tenente-coronel Cláudio Luiz é acusado de mandar matar magistradaAlexandre Vieira / Agência O Dia / Arquivo

O ex-comandante da PM e atual secretário de Segurança de Caxias, Mauro Sérgio, foi o próximo. A assistência da acusação considerou Sérgio 'suspeito de parcialidade', e disse que Mauro Sérgio alegou que nunca soube das ameças de morte sofridas pela magistrada. "Ha inúmeros Disque-Denúncia que foram mandados pra todos os órgãos de segurança, inclusive para a PM. É um testemunho falso", disse Técio, que pediu a impugnação da testemunha , o que foi negado pela juíza. A magistrada, no entanto, advertiu o oficial sobre falso testemunho.

"Coloquei o Cláudio no 7º BPM porque ele tem um perfil de enfrentamento, mas eu não sou amigo dele", disse Mauro Sérgio. Ele alegou que retirou a escolta da juíza porq era uma proteção informal e nao passava pelo convênio entre o TJ e a PM. O oficial explicou que a retirada da escolta pela diretoria geral de pessoal da PM e isentou o coronel Cláudio da.responsabilidade da retirada da escolta. "O coronel Cláudio só soube disso depois. O 7º BPM nao tem poder pra retirar escolta", afirmou.

Os PMs Sérgio da Costa Júnior e Jefferson Miranda, ambos já condenados pela morte da juíza, entraram no júri às 20h40. Sérgio se reservou ao direito de permanecer calado. Jefferson respondeu apenas as perguntas da defesa e ficou em silêncio quando indagado pela acusação.

Comissário: 'Tenho certeza que ele deu a ordem'

Durante seu depoimento, o comissário José Carlos Guimarães, chefe de investigação da Divisão de Homicídios na época, disse não ter dúvidas de que o oficial foi realmente o mandante do crime. "Tenho certeza de que foi o coronel (Cláudio Luiz) quem deu a ordem para matar a doutora Patrícia. Sem o consentimento dele, os policiais não a teriam executado", disse Guimarães.

Ainda de acordo com o comissário, nos três meses que antecederam o crime, foram feitas 237 ligações entre Cláudio e o tenente Benitez, que atirou em Patrícia e foi condenado a 36 anos de prisão no final do ano passado. Ainda segundo as investigações, Cláudio falou apenas 30 vezes com outro tenente que comandava outro Grupamento de Ações Táticas (GAT).

Juíza foi morta a tiros quando chegava em casaReprodução Internet

Durante o depoimento seu depoimento, o delegado Felipe Ettore, titular da DH na época, classificou o crime como uma "trama diabólica". Durante o interrogatório do promotor de justiça Paulo Roberto Melo Cunha, o assistente da acusação, o advogado Técio Lins e Silva, apresentou dados de auto de resistência da época em que Cláudio Luiz comandava o 7º BPM (São Gonçalo). Segundo o levantamento, o oficial assumiu o batalhão na metade de 2010, e durante esse ano foram 21 casos. No ano seguinte, até o mês de setembro, mês que o coronel foi preso, foram 18. Em outubro e novembro nada ocorreu e somente um caso foi registrado em dezembro.

"Não estou imputando nenhuma culpa ao coronel. Mas isso é um fato estranho porque demonstra um comportamento peculiar", disse o promotor.

Além do coronel, dez policiais militares do Batalhão de São Gonçalo foram denunciados pelo Ministério Público (MP) pelo homicídio. Segundo o MP, os policiais queriam se vingar da juíza porque ela costumava condenar policiais por desvios de conduta.

Seis policiais já foram condenados pelo assassinato: Carlos Adílio Maciel dos Santos, Jefferson de Araújo Miranda, Júnior Cezar de Medeiros, Sergio Costa Júnior e Daniel dos Santos Benitez Lopes. Mais quatro réus serão julgados em 3 de abril.

Você pode gostar