Por thiago.antunes

Rio - O governador Sérgio Cabral se posicionou em sua conta oficial no Twitter, na manhã desta quinta-feira, sobre o pedido do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin ao governo federal para bombear água potável do Rio Paraíba do Sul e levá-la para abastecer São Paulo. A medida pode esvaziar o Rio de Janeiro e uma parte de Minas Gerais, caso seja aprovado pela Agência Nacional de Águas (ANA). 

"Jamais permitirei que se retire água que abastece o povo do estado do Rio de Janeiro. O governador Alckmin, com quem tenho excelente relação, me envou a proposta. Disse a ele que formalizasse a proposta e que eu enviaria aos órgãos técnicos. Mas já adianto: nada que prejudique o abastecimento das residências e das empresas do estado do RJ será autorizado", escreveu Cabral.

Pelo Twitter oficial%2C governador garantiu que cidade não será afetadaReprodução Internet

Ambientalistas alertam para riscos

Ambientalistas apostam que, além de não resolver o desabastecimento paulista, o projeto vai reduzir o volume de água que chega às torneiras dos cariocas. Bem mais: pode influenciar no desenvolvimento econômico do Vale do Paraíba, onde o rio serve não só para captar água, mas também para gerar energia e alimentar as indústrias instaladas na região.

São Paulo vive hoje a maior crise de abastecimento. O sistema Cantareira — que leva água a 15 milhões de pessoas — está com reservatórios praticamente secos. Com medo de ser obrigado a racionar o fornecimento, Alckmin apresentou à presidenta Dilma Rousseff o projeto de construir túneis e tubulações para captar a água no Paraíba do Sul e levá-la até o Cantareira. Obra de R$ 300 milhões salvaria São Paulo da seca. A promessa é de usar as bombas apenas quando o rio estiver com reservas suficientes para não prejudicar o Rio e Minas.

Rio Paraíba do Sul já abastece de água empresas como Cedae%2C Light e Furnas. Segundo ambientalista%2C a possibilidade de captação para São Paulo é risco para o Rio João Marcos Coelho / Diário do Vale / Agência O Dia

Para o ambientalista Hélio Vanderlei, da ONG Onda Verde, que há quatro anos faz análise e monitoramento dos mananciais do Rio de Janeiro, não há como sangrar a cabeceira do Rio Paraíba do Sul sem comprometer o já precário sistema de água do Guandu. “Ao longo dos anos todos foram pegar água lá: Cedae, Furnas, Ligth. Se São Paulo pegar também, de imediato, em época de alta demanda, vai matar a foz, o mar vai invadir o rio por Atafona (em Campos de Goytacazes)”, alerta Hélio Vanderlei, para quem São Paulo e Rio deveriam se unir e reduzir o volume de esgoto e ampliar o reflorestamento nos mananciais que servem ao abastecimento das cidades.

O sistema Guandu — abastece 80% dos domicílios no Rio — é feito com a captação do Rio Paraíba, que nasce perto da divisa com São Paulo, alimenta rios de Minas Gerais e avança pelas regiões Sul e Norte Fluminense, até desaguar no oceano. Outra grande captação de água no rio é feito pela Ligth. São 160 metros cúbicos por segundos. Especialistas acreditam que o Paraíba não suportaria mais uma transposição e entraria em colapso — com o crescimento das indústrias e empreendimentos imobiliários no Rio.

Projeto estava engavetado desde 2009

A proposta do governador Geraldo Alckmin pegou de surpresa os 39 municípios do Vale do Paraíba. Nem o lado paulista da região apoiou a ideia da transposição. O governador do Rio, Sérgio Cabral, encaminhou o pedido para um parecer técnico do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e garantiu que, apesar de ter conversado com o governador de São Paulo, não concordou com a proposta. Geraldo Alckmin chegou a dizer que tanto Cabral, quando Antônio Anastasia, governador de Minas Gerais, tinham apoiado o projeto.

Líderes da região do Vale do Paraíba admitiram receio com a proposta de Alckmin e lembraram que o projeto é uma ideia antiga do governador para ampliar a rede de captação do sistema Cantareira, que está engavetada desde 2009. Eles estranharam, inclusive, que ele apareça agora com a solução para a atual crise no abastecimento, já que as obras levem pelo menos 18 meses até serem concluídas.

O Consórcio de Desenvolvimento Integrado do Vale do Paraíba (Codivap) explicou que a transposição fere um pacto federativo assinado na década de 1950 e que os reservatórios do rio já estão cerca de 10% abaixo do normal. Lembra, também, que o melhor seria a união de Rio de Janeiro e São Paulo para captar água no Vale da Ribeira, capaz de garantir o abastecimento das cidades por mais cem anos.

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