Por bianca.lobianco

Rio - O pai do adolescente Willian Posidônio, 16, chegou na 29ª DP (Madureira), nesta quinta-feira, acusando os policiais de terem executado seu filho durante tiroteio no último domingo no Morro da Congonha, que resultou na morte de Cláudia Ferreira da Silva, de 38 anos. De acordo com o pai, Willian era morador da comunidade e voltava de um baile funk após deixar sua namorada em casa. Ao chegar na localidade e ver o tumulto, o adolescente fez menção em correr quando foi alvejado pelos policiais.

Segundo o pai, o jovem foi enterrado como um bandido, como consta no registro da delegacia. No documento, a polícia relata que o estudante estava portando duas armas e drogas, quando na verdade, ainda de acordo com o pai, moradores afirmaram que o material foi plantado pela polícia para modificar a cena do crime.

"Meu filho foi baleado na perna e em seguida executado com um tiro no peito. Os moradores falaram que os PMs retiraram da mochila de um policial duas armas e drogas e colocaram ao lado dele", relata Wellington, que acrescenta ainda que um PM usou uma luva e colocou a arma na mão do cadáver e deu dois tiros para o alto, indicando que Willian teria participado do confronto entre traficantes e policiais na comunidade.

"Eu vou processar o estado, eles mataram o meu filho e sujaram o nome dele! Meu filho não era bandido, era estudante. Vim aqui para limpar sua imagem".

O pai também afirmou que o filho não foi socorrido de imediato, somente Cláudia foi levada pelos PMs. O corpo do jovem ficou estendido no alto do Morro da Congonha de 7h às 16h30 de domingo.

Willian%2C 16%2C foi assassinado no Morro da Congonha quando voltava de um baile funkCarlos Moraes / Agência O Dia

Policiais flagrados em imagens arrastando corpo de mulher devem sair ilesos

Os três policiais militares flagrados em imagens arrastando a auxiliar de serviços gerais Cláudia Ferreira da Silva, de 38 anos, por ruas da Zona Norte, domingo, devem sair ilesos do episódio. Ela foi jogada no porta-malas da viatura, que abriu, e ficou presa pela roupa.

Nesta quarta-feira, o promotor Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, do Ministério Público que atua junto à Auditoria de Justiça Militar, opinou favorável ao pedido de liberdade dos acusados feito pelos advogados. A juíza Ana Paula Figueiredo vai decidir sobre a expedição dos alvarás de soltura nesta quinta. Ontem, os militares prestaram depoimento na 29ª DP (Madureira).

Alex Sandro (à frente)%2C Adir e Rodney (à direita) chegam para depor na 29ª DP%2C ontem à tardeJoão Laet / Agência O Dia

De acordo com o promotor, os PMs foram presos em flagrante com base no artigo 324 Código Penal Militar, que fala apenas do descumprimento de regras que prejudiquem à administração militar. “Nesse caso, a denúncia tem que ser feita no prazo de cinco dias. Mas só poderia opinar pela prisão, se fosse denunciá-los. No entanto, para isso seria necessário que o crime estivesse especificado”, explicou o promotor Paulo Roberto.

Ele sustenta que a investigação precisa identificar ainda se Cláudia estava viva no momento em que foi colocada na caçamba na viatura. “Se estava com sinais vitais, houve transgressão disciplinar pela maneira como foi colocada. Se ela estava morta, não há crime, mas eles podem responder por fraude processual por não ter preservado o local”.

O promotor enfatiza ainda que é preciso apurar também se Claudia estava viva quando foi arrastada pelas ruas. “Se ela apresentava sinais vitais, há o crime de lesão corporal. Mas, se estava morta, eles não cometeram nenhum crime”, afirma. Isso porque a lei não prevê lesão corporal contra cadáver.

Para Paulo Roberto, outra questão importante é apontar o responsável pelo disparo que atingiu a vítima. Segundo laudo do Instituto Médico-Legal, ela morreu por causa de um tiro que perfurou o pulmão e o coração.

Ontem, os policiais repetiram na 29ª DP o mesmo depoimento prestado na 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM). Alegaram que colocaram a mulher no porta-mala porque os moradores cercaram a viatura e precisavam prestar socorro o mais rápido possível.

Entenda a opinião do promotor

No momento em que Cláudia foi colocada na caçamba, os policiais podem responder por transgressão disciplinar pela maneira como a vítima foi socorrida. Ou seja, a punição é apenas administrativa e imposta pela Polícia Militar. Mas não respondem a crime previsto em lei.

Por arrastá-la por ruas da cidade, os policiais podem responder pelo crime de lesão corporal. No Código Penal Militar, o artigo 209 prevê pena de três meses a um ano, para lesão corporal leve, e de até oito anos para casos graves.

O governador Sérgio Cabral conversou por cerca de uma hora com os familiares de Cláudia Ferreira da SilvaSeverino Silva / Agência O Dia

Para esclarecer se ela estava viva, o Ministério Público que atua junto à Auditoria de Justiça Militar, além de analisar o laudo cadavérico, deve ouvir o perito responsável.

Versão de advogado de PMs diverge da investigação

Segundo o advogado José Ricardo Brito, os PMs Rodrigo Medeiros Boaventura e Zaqueu de Jesus Bueno, que participavam da ação no Morro da Congonha, disseram que não tinha como os tiros dados por ele atingirem Cláudia, porque ela estava em uma curva e, da posição deles, não tinha visão da posição dela.

No entanto, investigadores disseram já saber, com base no ferimento, que a vítima foi baleada por tiro de fuzil 7.62. Eles ainda informaram ontem que, pelo ângulo onde os policiais militares estavam posicionados na operação, os militares poderiam ter atirado em Cláudia. Todas as armas dos PMs foram periciadas.

Às vésperas da reserva

A ação que matou Cláudia seria a última operação do subtenente Rodney Miguel Archanjo. Segundo o defensor dele, Jorge Carneiro, o militar pediria passagem para a reserva (aposentadoria) no dia seguinte. “Ele estava preparando um churrasco em comemoração”, disse Jorge.

Hoje, outros três militares que participaram da ação serão ouvidos na 29ª DP: o cabo Gustavo Meirelles, e os sargentos Ricardo Morgado e Paulo Henrique. Parentes da vítima prestarão depoimento.

Segundo a Polícia Civil, Rodney responde por três autos de resistência; Adir Serrano Machado, por 13; e Alex Sandro da Silva Alves não tem esse tipo de anotação. Outro morto na ação — registrado como auto de resistência — foi identificado como Willian dos Santos Possidônio, 16 anos.


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