Jovens cariocas se dedicam a trabalhos voluntários em outros países

Eles procuram intercâmbio social e encaram dificuldades de milhares de pessoas de outras culturas

Por O Dia

Rio - De bairro nobre no Rio, o advogado Bruno Sterenberg, de 23 anos, ultrapassou fronteiras e deixou o conforto de sua casa para encarar as dificuldades vividas por milhares de pessoas em países pobres da África. “Na Tanzânia, dei aulas de Direitos Humanos em colégios. No Quênia, ensinei Inglês e Ciências Sociais.” Ele é mais um dos adeptos de um modelo de viagem que cresce entre jovens cariocas: o intercâmbio social ou voluntário. O programa permite unir experiência de vida, aprendizado de uma nova cultura e aprimoramento de um idioma estrangeiro. Tudo aliado a uma causa em que se acredita.

Bruno, que fala inglês e espanhol, traz na memória a marca da experiência que impactou sua vida. “Além da bagagem cultural e desenvolvimento, recebi uma pulseira das crianças da Childrock Initiative, que estavam há dias sem comer quando cheguei. Foi o maior presente da minha vida”, relata, após os quatro meses de viagem, que lhe custaram cerca de R$ 5 mil. Ele ainda fez uma campanha para levantar recursos e investir em melhorias na instituição em que foi voluntário.

Jovens buscam intercâmbio social e se dedicam a trabalhos voluntários em outros paísesArquivos pessoais

A experiência de Bruno foi viabilizada pela Aiesec, que promove o intercâmbio social há 14 anos. “Este programa é o de maior volume atualmente porque qualquer universitário pode participar e não demanda experiência prévia”, explica a diretora Rajnia Rodrigues. A instituição realizou mais de 120 viagens envolvendo o público do estado em 2013, um crescimento de 20% em relação a 2012.

Na Experimento Intercâmbio Cultural, quem deseja passar por essa experiência deve ter pelo menos 18 anos, inglês intermediário, ser pró-ativo e comprometido com o trabalho voluntário. Os participantes podem optar pelos programas que mais se identificarem, entre serviços sociais, educacionais, ambientais, culturais, de saúde e cuidados com animais. Estas atividades podem ser feitas em 18 países, entre os quais, África do Sul, Índia, Nepal e Nigéria.

O amor por animais fez a estudante de Turismo Liana Barcia, 19, sair de Niterói para enfrentar o trabalho duro no Lion Park, na África do Sul. “Cuidava da alimentação de animais, da limpeza das jaulas e recebia tíquetes na entrada do parque”, conta Liana. A família ajudou com as despesas, que passaram de R$ 3 mil por um mês de viagem. “Não queria voltar para o Brasil, chorei muito”, revela.

Experiência também ajuda na hora de buscar emprego, diz especialista

Para Rajnia Rodrigues, diretora da Aiesec, os benefícios do voluntariado no exterior podem fazer a diferença na hora de conseguir um emprego. “As empresas buscam formas de atrair pessoas com visão global, que trazem ideias inovadoras e sabem solucionar problemas com postura ativa. No programa, o voluntário encontra imprevistos que ajudam a desenvolver o olhar para criar soluções”, avalia.

Foi a capacidade de contornar situações adversas com criatividade que fez estudante de Filosofia Adamo da Veiga, 21, improvisar, com música, uma aula de inglês que deu em uma escola na Índia. “Tinha acabado a luz e não havia como continuar. Então, inventamos uma aula musical que deu certo”, relembra ele, que passou um mês em Palampur, perto do Himalaia.

Foi numa creche em Lima, no Peru, em 2012, que a engenheira Daniele Machado, 33, explorou uma realidade tão nova quanto comovente. “Apesar de já ter visitado comunidades carentes no Rio, nunca vira a carência que encontrei lá”, relembra. Em três semanas, ela ficou hospedada na casa de uma família, em um bairro de classe média.

O medo de não entender o espanhol das crianças foi superado. A experiência sacudiu a poeira de velhas ideias: “Cheguei diferente. Me tornei menos consumista. Comecei a ver meus problemas de outra maneira, bem pequenos.” Além das fotos, ela trouxe na bagagem novos amigos e o desejo de ajudar outras pessoas. Este ano, seu próximo destino é a África.

Prática é comum na Europa e EUA

Para Eliane Porto, gerente da agência de intercâmbio CI, esse modelo de viagem tende a crescer ainda mais. “O europeu e o norte-americano já têm em sua grade curricular passar algum tempo em outro país, participando de atividade voluntária. O brasileiro está descobrindo isso agora”, avalia. As atividades mais comuns são brincar com crianças e ajudar em tarefas escolares. África do Sul e Índia são os países mais procurados na CI, que iniciou o voluntariado no exterior em 2007, com crescimento superior a 100% todos os anos.

?Reportagem: Larissa D'Almeida

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