Por thiago.antunes

Rio - Não são nem 9h, mas o pedreiro Josinaldo Alves Lima, de 40 anos, já se precavê para a chuva que pode cair à tarde, em Guaratiba. Agachado, ele reforça o tampão artesanal feito na tubulação de esgoto que desemboca na sala da sua casa. “Herança maldita da Jornada Mundial da Juventude”, como define, a obra inacabada costuma causar alagamentos de até um metro de altura em dias de tempestades.

Josinaldo é um dos vizinhos do Campus Fidei, ou Campo da Fé, onde o Papa Francisco iria celebrar uma missa campal da JMJ, transferida para Copacabana por causa da chuva. Assim como ele, muitos moradores hoje sofrem com intervenções e obras que começaram mas não foram concluídas. Os esqueletos das obras trazem hoje, ao bairro, realidade ainda pior do que a vivida antes da Jornada. “Preferíamos o abandono. Hoje temos o descaso”, resume.

Os moradores atribuem os alagamentos a obras inacabadasSeverino Silva / Agência O Dia

A cada esquina de Guaratiba, podem-se ouvir lamentos que em nada lembram o sentimento de esperança que dominou os moradores, quando o terreno de 1,7 milhões de metros quadrados foi escolhido — sob a bênção do Papa Francisco — para receber a Santa Missa e a vigília de encerramento da JMJ.

A expectativa de público, que era superior a 2 milhões de pessoas, fez com que até incrédulos passassem a acreditar em milagres. “Pensamos que os problemas de saneamento, pavimentação e dragagem dos canais próximos seriam resolvidos. Acreditamos nos investimentos”, confessa a dona de casa Rosileide Vieira, 40, enquanto atendia a equipe do DIA, se contorcendo atrás da janela. Essa postura corporal tem uma razão: a pavimentação da rua onde ela mora elevou o nível da via em relação à janela da residência.

Segundo ela, os operários se despediram em junho do ano passado prometendo o aterro, mas nunca voltaram. Hoje, ela vive entre as dores nas costas e o medo da fúria da natureza. “Se chove, a água do Canal de Guaratiba invade a minha casa. Já saí daqui até de caiaque”, garante Rosileide. 

Josinaldo mostra o cano de esgoto instalado em plena sala de estar de sua casa%3A nos dias de chuva ele reforça o tampão do encanamentoSeverino Silva / Agência O Dia

A guerra contra os rios próximos é antiga e já custou caro aos bolsos dos contribuintes. Às vésperas da Jornada, foram gastos mais de R$ 6 milhões pela prefeitura em obras de dragagem dos canais que margeiam o Campo da Fé. Embora em dias de sol a pino o cenário dos córregos remeta as sertão nordestino, as tempestades os transformam em perigo real.

Expectativa e frustração

No Campo da fé, a vizinhança espera que seja criado um condomínio popular anunciado pelo prefeito Eduardo Paes, no ano passado, como alento à frustração pelo local não ter sediado a missa de encerramento. “Temos a certeza de que, um dia, olharão por nós e iremos para residências dignas. Não podemos perder a fé”, desabafa a doméstica Laís dos Santos, enquanto incinera sacolas de lixo dentro da sua casa, outra medida alternativa à precariedade do serviço de coleta pública: os caminhões da Comlurb só passam às segundas-feiras por lá.

Antes de se despedir, ela pede desculpas à equipe de reportagem por não poder oferecer um copo d’água. As obras no local tornaram irregular o abastecimento. A expectativa em relação às celebrações da Jornada não frustraram apenas quem esperava por melhorias no bairro.

Tubulações abandonadas servem de abrigo a moradores de ruaSeverino Silva / Agência O Dia

A empresária Rosiane Oliveira, 38, tenta até hoje recuperar os R$ 35 mil investidos em comidas e bebidas que, em sua expectativa, seriam rapidamente consumidos. Em sua loja, na Estrada do mato Alto, pilhas de macarrão instantâneo encalhados em sacos pretos lembram o insucesso. 

Antônio Ferreira, dono de uma revenda de água mineral também teve prejuízo. “Foram R$ 25 mil investidos, que pensei que venderia em três dias. Foram necessários três meses para me desfazer do estoque”, afirmou.

Promessa não cumprida

Na ocasião em que a construção de um condomínio popular do Campo da Fé — o que seria um legado da Jornada na região — foi anunciado, o prefeito Eduardo Paes disse em uma rede social: “Conversei com Dom Orani e com o Papa Francisco essa noite sobre a ideia de transformarmos o Campo da Fé, em Guaratiba, em um bairro popular. O fato é que a Igreja investiu muitos recursos ali, e isso não poderia ser desperdiçado. Só os donos da área se beneficiariam. A prefeitura vai desapropriar a área pela via judicial e vamos fazer um concurso público para ali fazer um bairro popular para os mais pobres. Vamos chamar de bairro Campo da Fé do Papa Francisco”.

Mas a Secretaria Municipal de Habitação informou que nunca recebeu qualquer solicitação de estudo para a construção do condomínio. A Secretaria Municipal de Obras informou que as obras e urbanização executadas pelo órgão em Guaratiba “não estão relacionadas ao Campo da Fé” e que, desde 2011, “realiza o Programa Bairro Maravilha Oeste na região”. Ainda segundo a secretaria, o investimento no projeto chega a R$ 66,6 milhões.

Já a Fundação Rio-Águas informa que realizou limpeza e “requalificação” de afluentes do Rio Cabuçu Piraquê, investindo R$ 4,8 milhões na intervenção no ano passado. Além disso, os canais 2 e 3, em Guaratiba, receberam serviço de desobstrução.

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