Por adriano.araujo
Jovem atingido no olho será operado nesta segunda-feiraReprodução Vídeo

Rio - O entregador de pizza Maycon Gonçalves Melo, 25 anos, ferido na desocupação do prédio da Oi será operado nesta segunda-feira no Hospital Souza Aguiar, onde está internado desde sexta-feira. Maycon ainda está com um projétil alojado no olho esquerdo, e o risco da perda do globo ocular é grande.

“Ele está muito abalado. Chorou muito. O médico foi muito claro: algum fragmento estourou o globo ocular dele. Estamos pedindo aos médicos que guardem tudo que for retirado para compararmos com os metais que encontramos (no terreno da Oi)”, afirmou a mãe de Maycon, Marcia Gonçalves.

O jovem foi um dos 19 feridos durante a reintegração de posse. Em um depoimento gravado no hospital sábado e cedido ao DIA, Maycon contou que não sabe direito como foi atingido. Com os olhos enfaixados, revelou que já tinha deixado o prédio com medo da violência e que quando já estava na rua precisou sair do bairro.

Nesse momento, foi barrado por PMs que fechavam os acessos à comunidade. “Peguei a minha moto e, quando cheguei no beco 18 de Janeiro, o (Batalhão de) Choque já estava ali dizendo que não ia entrar ninguém. Ficamos parados para ver qual seria a atitude deles para a gente poder sair da comunidade”, contou.

Maycon disse que pouco depois sentiu que tinha sido atingido. “Senti um projétil bater na minha vista e saí gritando pela minha mãe. Fomos para a UPA. Ontem, falaram que iam fazer a cirurgia, mas não fizeram e estou com o projétil até agora na minha vista”, desabafou ele.

Estado vai mandar conta da desocupação para a Oi

O governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito Eduardo Paes disseram ontem, em Santa Teresa, que vão apresentar à Oi os custos da desocupação do imóvel da operara de telefonia invadido no Engenho Novo, mas recuperado sexta-feira passada por ordem judicial, com apoio da PM. Para advogados ouvidos pelo DIA, no entanto, a cobrança não tem fundamento jurídico, porque cabe ao Estado garantir segurança para imóveis privados.

Segundo o governador, a conta ainda está sendo feita. “Estamos levantando tudo o que gastamos ali em segurança. O nosso chefe da Casa Civil, na sexta-feira, já estava calculando quantos homens foram empenhados e tudo o que o estado usou: ônibus, equipamentos. Vamos apresentar a conta à Oi”, afirmou Pezão, durante a cerimônia de lançamento de obras de construção da sede da UPP do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa.

A prefeitura também pretende apresentar os custos à empresa. “O governo municipal também está fazendo suas contas. A Oi terá que pagar tudo que foi destruído em equipamentos, entre outros danos”, completou Paes.

Famílias com crianças estão acampadas em frente à prefeitura: ela reivindicam um local para morarMaíra Coelho / Agência O Dia

Apesar do que dizem o governador e o prefeito, eles não têm direito de cobrar da Oi os custos da operação para retirar os ocupantes do terreno da empresa. A afirmação é do advogado e professor de Direito Administrativo da PUC-RJ, Manoel Messias Peixinho, que explica que “não há cabimento jurídico” para este tipo de demanda por parte dos governos: “O dever de segurança pública é do Estado e compete a ele proteger a propriedade privada. Se a casa de alguém for ocupada por outro, e a pessoa chamar a polícia, este cidadão não tem que pagar o agente público por isso. Este pagamento já é feito com os tributos”.

Peixinho disse ainda que um proprietário de imóvel não tem obrigação de contratar segurança particular no local. “As pessoas colocam porque querem. Se quiserem só passar um cadeado, não significa que, em caso de invasão, o dono tenha que arcar com as despesas do uso da polícia na operação. O Estado tem a responsabilidade de garantir a segurança pública”, afirmou.

Parecer semelhante tem o advogado Breno Melaragno. Segundo ele, essa cobrança terá que ser feita na Justiça, porque tanto o Estado quando a prefeitura não têm direito de receber pelo trabalho de desocupação do terreno da operadora. “É um prédio privado. O Estado deixou a ocupação ilegal acontecer.

Apesar de toda polêmica que envolve o caso, não vejo que eles têm direito de conseguir este custo (gasto com a operação de remoção)”, afirmou Melaragno.

Para fazer o pedido de ressarciamento do que foi gasto com segurança e serviços de assistência social, os governos terão que acionar suas procuradorias. Um dos argumentos que deve ser usado pelo Estado é que a operação de reintegração exigiu reforço da PM e de batalhões especiais.

Grupo em frente à prefeitura está crescendo

Na frente da prefeitura, na CIdade Nova, o grupo que ocupava o prédio permanece acampado desde sexta-feira, à espera de uma solução para a falta de moradia. O número de pessoas aumentou significativamente: ontem havia mais de mil pessoas, entre adultos e crianças.

Pela manhã, um grupo de coordenadores do movimento foi recebido na sede da prefeitura pelo secretário de Desenvolvimento Social e vice-prefeito, Adilson Pires; pelo secretário de Habitação, Pierre Batista; e pelo secretário de Governo, Davi Carlos. A proposta apresentada foi de levar os manifestantes em vans da secretaria para a sede da Guarda Municipal, na Avenida Avenida Pedro II, em São Cristóvão, onde seria feito um cadastro das famílias.

Número de pessoas acampandas em frente à prefeitura, na Cidade Nova, cresceu de sábado para domingo: famílias pedem moradia Maíra Coelho / Agência O Dia

“Estamos propondo e já disponibilizamos os ônibus para levarmos essas pessoas, junto com nossos assistentes sociais, para São Cristóvão. Lá, avaliaremos o cadastro de cada um, para podermos entender quem precisa de Minha Casa Minha Vida ou do Bolsa Família. Mas não podemos mentir. Não temos imóvel para entregar amanhã. Vamos priorizar quem precisa mais”, afirmou Pires.

Moisés Eliezer Batista, um dos coordenadores do movimento, disse que os acampados só aceitariam preencher o cadastro se o atendimento fosse na sede da prefeitura, na Cidade Nova: “Não arredaremos pé. Não vamos aceitar a proposta. Queremos uma solução definitiva, imediata. E que não seja abrigo. Aqui não tem nenhum bandido. São pessoas que precisam de casa”.

Por conta do impasse, uma nova reunião foi marcada para terça-feira. Enquanto aguardavam, o grupo organizou uma lista com o nome dos moradores que protestam na prefeitura. Durante a desocupação do prédio da Oi, sexta-feira, ocorreram diversos conflitos entre os ocupantes e policiais militares, que deixaram 19 feridos.

"Não me deixaram tirar nada. Perdi até minhas ferramentas"%2C reclamou KleisonMaíra Coelho/ Agência O DIA

Pedreiro sem ferramenta de trabalho

Cabisbaixo, o pedreiro Kleison Chaves Lima, 21 anos, passou ontem de bicicleta na frente do prédio da Oi. Ele era um dos oito mil que integravam a ocupação que ficou conhecida como Favela da Telerj, no Engenho Novo.

Desempregado, ele voltou com a mulher e os três filhos para a casa de amigos em uma comunidade próxima, mas as cenas vividas na sexta-feira ainda não saíram de sua cabeça.“Não me deixaram tirar nada. Perdi até minhas ferramentas. Não deu para pegar o meu carrinho de mão e o serrote. Estou na rua tentando trabalhar agora, mas sem as ferramentas é difícil conseguir algo”, afirmou Lima.

Parado em frente ao muro que foi construído pela Oi após a reintegração de posse, ele também disse que está sem os documentos. “Lá dentro também estão os meus documentos, a carteira de trabalho, identidade, CPF”, contou Lima.

Ele disse que pediu autorização para apenas buscar suas coisas, mas os seguranças quiseram cobrar R$ 50 para permitir a entrada. Lima então disse que não tinha como pagar.

O pedreiro diz que vivia de aluguel e não conseguia mais arcar com o valor. Poucos dias antes, a dona da casa onde morava pediu o imóvel de volta. Por isso, decidiu integrar a ocupação. “Pensei que a invasão ia vingar”, disse. Do lado de fora do prédio, era possível perceber diversos objetos deixados pelos antigos moradores: bicicletas, colchões, travesseiros e vários brinquedos.

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