Quase 800 indígenas vivem no Complexo da Maré, diz organização

ONG Mães da Maré desenvolve trabalho de resgate da autoestima e reconhecimento da identidade dos povos

Por O Dia

Butan Puri%2C Twry Pataxó e Papion Karipuna migraram para a cidade e hoje vivem na MaréMaíra Coelho / Agência O Dia

Rio - Eles chegaram à Maré de várias partes do Brasil e, aos poucos, foram construindo uma grande ‘aldeia’. Hoje, comemoram seu dia morando em casas no complexo de favelas, onde vivem mais de 130 mil pessoas. Várias etnias residem na comunidade e se queixam que enfrentam preconceitos em busca de aceitação e respeito na cidade.

“O que mais me atrai na Maré é o calor humano. Eu já morei em outros bairros, mas ando aqui e todos me chamam de tia, me respeitam”, diz Twry Pataxó, de 46 anos, moradora da área há 15. O que hoje para ela é mansidão, já foi maremoto entre os cerca de 500 a 800 índios que vivem na Maré, segundo suas estimativas. “Me jogavam pedras e me mandavam voltar pra mata. Diziam que meu lugar não era ali.”

Ao invés de sair correndo e desistir, Twry Pataxó resolveu ficar e mobilizar a comunidade. Em 2008, fundou a ONG Mães da Maré, que, por intermédio do artesanato, oferece às mulheres das comunidades da região a oportunidade de ter uma fonte de renda e sustento para suas famílias. Mais do que isso, a atividade contribui para que muitas delas consigam romper a dependência econômica de companheiros violentos. “Quando a mulher não tem como se manter, está fadada a ficar com um homem que abusa dela.”

Twry aprendeu a fazer colares e objetos de decoração em sua tribo, no interior da Bahia. Saiu de lá em busca de educação. Queria aprender mais, sem perder sua essência indígena. “Faço um trabalho de resgate da nossa cultura, de autoafirmação. Muitos têm problemas em se aceitar como índios”, conta ela.

Entre as medidas adotadas para alcançar esses objetivos, está o trabalho em escolas, faculdades e associações em que a ONG vai, levando cultura e artesanato. “Não estamos passando despercebidos”, afirma.

Apesar disso, não são poucos os relatos de vítimas de preconceito e agressão. Papion Karipuna, de 42 anos, nasceu no Amapá, veio para o Rio ainda criança e há seis anos trabalha na ONG Mães da Maré com gestão cultural e religião. “É difícil sermos respeitados por outras ideologias. Há algum tempo me feriram e levei 42 pontos porque eu estava andando pintada na rua”, lamenta.

“O Brasil não gosta de índios”, complementa Butan Puri, de 48 anos. “Talvez não gostem de nós porque, para muitos, representamos o passado, nos chamam de nômades”, continua Butan, que há dois anos ensina artesanato na ONG. “Só lembram de nós no Dia do Índio, como se fôssemos algo folclórico. Merecemos respeito todos os dias. Tem escolas que nem comemoram mais a nossa data. Simplesmente trocam por São Jorge que nem brasileiro é”, critica.

Nova aldeia em mata de Bom Jesus do Itabapoana

Embora com problemas, Butan comemora a criação de sua nova aldeia, em Bom Jesus do Itabapoana, Noroeste Fluminense. “Quarta-feira registramos a criação do Museu do Índio, agora estamos construindo as ocas, reflorestando a área.” Ainda não foi definida a data de inauguração da aldeia em construção. “É uma boa oportunidade para conseguirmos voltar para a mata. Estou cansada da cidade.”

A maior preocupação do grupo é com os índios que estão longe. “Podemos reclamar e somos ouvidos aqui. Mas muitos que estão em outros estados, têm suas cabeças colocadas a prêmio diariamente”, critica Twry.

Segundo Papion, justamente nesta semana em que se comemora o Dia do Índio, um amigo do Ceará teve que deixar sua aldeia por estar sendo ameaçado por madeireiros.

O grupo de indígenas avalia que foi vítima de preconceito recentemente. Contam que vários índios do Rio de Janeiro arrecadaram R$ 6 mil para a construção de uma oca na Aldeia Jacutinga, em Duque de Caxias. Mesmo localizada dentro de uma faculdade, vândalos invadiram o local e queimaram a construção que foi erguida há um mês.

“Construímos a oca com o dinheiro obtido da venda de artesanato. Guardávamos e pensávamos ‘esse aqui vai para a oca’. Ficamos muito tristes com o incêndio e ninguém fez nada”, lamenta Twry.

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