Por bianca.lobianco

Rio - O ruído de motores e buzinas deu lugar ao som de bombas e tiros no Túnel Sá Freire Alvim, em Copacabana. Em vez dos carros, havia apenas viaturas e policiais com armas em punho, preparados para o confronto. Às 18h30, uma mulher ignorou as orientações e entrou no túnel, pela passagem destinada a pedestres.

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Era a técnica em enfermagem Maria de Fátima da Silva Pereira, de 55, mãe do dançarino Douglas Rafael. Até então, ela pensava que o filho estava apenas ferido. A notícia da morte de DG foi dada pela ex-nora, a secretária Larissa de Lima Ignácio, de 20 anos. “Mataram o meu filho! Mataram um inocente!”, repetia Maria de Fátima, já deitada no chão.

Para familiares, DG foi espancado e morto por policiais da UPP Pavão-Pavãozinho por causa de antiga rixa. Há cerca de dois anos, quando ainda trabalhava como mototaxista, DG teve o veículo apreendido pelos PMs. “Os policiais encheram o tanque da moto dele de areia”, contou a mãe. Dias depois, a moto foi furtada. Um morador contou à família que foi levada numa picape pelos próprios policiais da UPP.

Maria de Fátima Pereira%2C mãe de Douglas%2C mostra foto do filhoAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Os familiares também afirmaram que DG estava sem os documentos e sem R$ 800 quando o corpo foi encontrado. A carteira de identidade e o passaporte só apareceram na 13ª DP. O dinheiro não foi encontrado. “Ele sempre saía com os documentos”, conta Larissa, ex-mulher de DG.

O dançarino iria atualizar o passaporte porque tinha show marcado para agosto, quando se apresentaria por duas semanas com um DJ francês em Paris. A morte do dançarino interrompeu uma carreira que se aproximava do auge, acreditam amigos e colegas de trabalho. O empresário do grupo de Douglas, o Bonde da Madrugada, Sandro Luziano, conta que o jovem era o líder, coreografava as apresentações e também era o principal compositor. Eles tinham cinco shows marcados, a partir do dia 25, na Região Metropolitana de Belo Horizonte e, no fim de maio, fariam apresentações em Angola. “Amanhã (hoje), iríamos para o estúdio gravar a nova música no grupo”. 

Regina Casé e Anitta aparecem em fotos do Facebook de DGReprodução Internet

De acordo com ele, o Bonde da Madrugada passou a integrar o elenco fixo do programa ‘Esquenta’, da Rede Globo, quando uma manicure da apresentadora Regina Casé falou dos dançarinos há dois anos. Regina chamou os jovens para um teste e aprovou o grupo na hora. Sandro conta, porém, que o grupo já existe há 10 anos. Em maio seria gravado DVD com a participação do cantor Péricles.

O empresário disse que a produção do programa está encarregada do funeral que será amanhã à tarde ou quinta-feira. “A Regina está arrasada, é a madrinha do grupo”.

Apresentadora lamenta a morte de Douglas 

A apresentadora do programa "Esquenta", Regina Casé, que está de férias, lamentou a morte do dançarino de seu programa. De férias, ela demorou a receber a notícia e disse que a família Esquenta está devastada.

“Eu estou arrasada e toda a família Esquenta está devastada com essa notícia terrível. Uma tristeza imensa me provoca a morte do DG, um garoto alegre, esforçado, com vontade imensa de crescer. O que dizer num momento desses? Lamentar claro essa violência toda que só produz tragédias assim. Que só leva insegurança às populações mais pobres do país. Agora, é impossível saber exatamente o que houve. Mas é preciso que a Polícia esclareça essa morte, ouvindo todos, buscando a verdade. A verdade, seja ela qual for, não porá fim à tristeza. Mas é o único consolo”, disse.

Para morador, tráfico ainda age e incitou a revolta

O desfile de fuzis do tráfico voltou ao Complexo do Pavão-Pavãozinho/Cantagalo — e não é de hoje que isso vem acontecendo. A declaração é de um morador da favela, que considera estranha a tranquilidade com que traficantes montam as bocas de fumo em determinados plantões de policiais que atuam no local. Segundo a fonte, os moradores já perceberam que a Unidade de Polícia Pacificadora não consegue impor a ordem na favela e que pouco a pouco a realidade anterior está voltando.

Revoltados%2C moradores do Morro Pavão-Pavãozinho fizeram protesto por conta da morte de DG%2C dançarino do 'Esquenta' e morador da comunidadeFotos%3A André Vieira / Agência O Dia

“A comunidade vê que alguma coisa não está funcionando”, contou ele ao DIA, no início da noite. “Você vê que está tendo ‘arrego’ (suborno) porque os caras (traficantes) não estão preocupados, mesmo tendo lugares em que podem ser pegos de surpresa. Mas em outros plantões ficam tensos”.

Segundo o morador, o tráfico está por trás do que aconteceu em Copacabana, após a morte do dançarino. Ele garante que o jovem é inocente, e a revolta começou porque a PM queria retirá-lo da favela sem que isso fosse percebido. Então, o tráfico incitou o protesto.


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