Corpo do coronel Paulo Malhães será velado no Cemitério de Nova Iguaçu

Militar confessou ter feito parte do sumiço da ossada do ex-deputado Rubens Paiva foi assassinado por asfixia em seu sítio na Baixada Fluminense na quinta-feira

Por O Dia

Rio - O corpo do coronel reformado Paulo Malhães, de 77 anos, que foi encontrado morto em sua casa no bairro de Marapicu, na área rural de Nova Iguaçu na manhã dessa sexta-feira, será velado a partir do meio-dia deste sábado no Cemitério do município, na Baixada Fluminense.

O militar que confessou participar de torturas e mortes de presos políticos durante a ditadura, inclusive do deputado federal Rubens Paiva, foi assassinado na quinta-feira em seu sítio. Ex-agente do Centro de Informações do Exército, Malhães depôs na Comissão Nacional da Verdade (CNV) no dia 25 de março, após, em entrevista exclusiva ao DIA , confessar que foi um dos comandantes da missão que sumiu, em 1973, com a ossada do ex-deputado.

A polícia não descarta nenhuma hipótese para o crime, inclusive a de vingança por causa dos depoimentos. A pedido do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a Polícia Federal vai entrar nas investigações. O corpo do coronel, de 77 anos, foi encontrado no quarto do casal pela viúva, Cristina Batista, 36, por volta das 22h. Segundo a polícia, Malhães aparentava ter sido asfixiado, já que estava deitado no chão, de bruços e com o rosto num travesseiro.

Coronel da reserva Paulo Malhães%2C que em março confessou ter sumido com o corpo do Rubens Paiva na época da ditadura%2C foi morto em casaJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

A viúva disse que chamou a Polícia Militar, mas a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) só foi informada às 9h30 de ontem. O casal e um caseiro foram rendidos por volta das 14h por três homens com pistolas e uma arma longa. Eles arrombaram uma janela e a porta da casa e ficaram no imóvel sem tocar em nada até a chegada do casal.

Malhães e a mulher foram levados para a casa e colocados em cômodos separados. O caseiro, que saiu quando ouviu a chegada dos patrões, também foi rendido. As vítimas ficaram oito horas em poder dos bandidos. Um dos criminosos usava capuz e os outros, não. Uma testemunha foi chamada para tentar fazer retrato falado dos invasores.

Apesar de Cristina e o caseiro terem sido ameaçados, não foram agredidos. Eles foram amarrados, obrigados a ficar de cabeça baixa boa parte do tempo e ainda tiveram que procurar objetos de valor para os bandidos.

Delegado não descarta nenhuma hipótese para o assassinato

Segundo o delegado Fábio Salvadoretti, as duas testemunhas contaram que ouviam os criminosos pedindo dinheiro e joias. Eles reviraram a casa e levaram dois computadores, duas impressoras, joias, R$ 700, além de duas pistolas e uma carabina calibre 12 da coleção particular do coronel. O delegado disse que, pelos pertences levados, uma das linhas de investigação também é o latrocínio (roubo seguido de morte), já que na região há quadrilhas de traficantes que poderiam ter interesse nas armas.

“É uma possibilidade estranha ele ter sido morto. Pode ter reagido ou pode ter sido crime de vingança pelos depoimentos que prestou. Não vamos descartar nada”, disse o delegado, que espera o laudo da necropsia para saber se o coronel foi torturado pelos bandidos.

A perícia não encontrou marcas de tiros ou cápsulas na casa. Foram coletadas digitais no carro das vítimas. Uma testemunha que ligou ontem para o Disque-Denúncia (2253-1177) é esperada pela polícia para prestar depoimento. Há suspeita de que outros dois criminosos estavam em um carro, dando cobertura ao bando. A polícia agora procura câmeras da região que possam ter filmado a fuga, já que o sítio fica em local ermo, em Marapicu.

A família teme dizer que a morte tem relação com os relatos recentes do coronel sobre os crimes da ditadura. “Vai parecer agora que é roubo seguido de morte, mas sabemos que não é bem isso”, disse um parente que não quis se identificar. A filha mais velha do militar, Carla Malhães, falou com o pai no domingo e disse que ele não relatou nenhuma ameaça. “Não sei porque ele andava tão falante. Ele não falava com a gente sobre essas coisas”.

Nos últimos 30 anos%2C o militar vivia recluso no sítio de Marapicu. Ultimamente%2C tinha poucos contatos com os filhos e morava só com a mulherJuliana Dal Piva / Agência O Dia

Filha de Rubens Paiva diz que morte de coronel foi queima de arquivo

Para Vera Paiva, filha do deputado Rubens Paiva, morto pela ditadura e cuja ossada desapareceu após operação comandada pelo coronel reformado Paulo Malhães em 1973, o assassinato do militar foi “queima de arquivo”. “Isso mostra que a ditadura ainda não acabou”, declarou ela, que acredita que a morte do coronel pode ter sido uma intimidação aos que ainda têm informações sobre a morte de seu pai.

Vera, que é professora de Psicologia da USP, leu no DIA o detalhamento das ações de Malhães até o sumiço do corpo do pai e ficou impressionada com a “desumanidade” do militar. “Meu pai era um pacifista e depôs voluntariamente quando foi preso. O coronel usou requintes de maldade, desrespeitou a dignidade humana”, disse Vera. Ela acredita que os envolvidos no assassinato do coronel tenham ligação com as torturas relatados à Comissão da Verdade. “Quem o matou não quer que a memória e a verdade venham à tona”.



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