Guia de sepultamento indica que coronel teria morrido por problema de coração

Documento consta que causas da morte foram 'edema pulmonar e isquemia de miocárdio', sintomas causados pelo medo e pressão alta, além de uma doença cardíaca pré-existente

Por O Dia

Rio - A guia de sepultamento do coronel reformado Paulo Malhães indica que ele morreu por conta da alta tensão causada pelas nove horas que ficou refém dos três criminosos que invadiram sua casa, no bairro Marapicu, na área rural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, na quinta-feira. Na guia consta "edema pulmonar, isquemia de miocárdio e miocardiopatia hipertrófica", esta última é uma doença cardíaca pré-existente. A explicação é de um especialista na área de coronariana que não quis se identificar. Porém, o documento não é um atestado de óbito e nenhuma linha de investigação foi descartada.

"Ele já sofria de uma cardiopatia grave que pode causar infarto se passar por um susto ou por uma forte emoção", explicou o perito legista Mauro Ricart. Segundo ele, se o coronel tivesse morrido por asfixia - suspeita inicial da causa da morte apontada pela polícia - haveria marcas nos pulmões. "Se existissem essas marcas, a causa da morte seria asfixia e não infarto e isso estaria no laudo", afirmou Ricart.

Guia de sepultamento do coronel Paulo MalhãesJuliana Dal Piva / Agência O Dia

Procurado, o delegado William Pena Junior da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) afirmou que o documento não é oficial e não contém a causa da morte. O delegado afirmou ainda que nas guias de sepultamento as informações, em geral, mostram alguns dados encontrados e não a causa da morte.

Sangue no travesseiro

O delegado Willian Pena Júnior afirmou que não descarta qualquer linha de investigação sobre a morte do Coronel Paulo Malhães. Questionado sobre a morte ter sido queima de arquivo, ele respondeu que não descarta qualquer hipótese, mas que a princípio eles trabalham com latrocínio. "A linha principal é o latrocínio, mas a gente não descarta outras hipóteses como homicídio por vingança", disse.

Ele também alegou que os policiais voltaram a cena do crime para complementar uma perícia já realizada. A esposa do coronel e o caseiro também participaram e revelaram ter condições de fazer o retrato falado de dois dos três bandido, já que apenas um estava com o rosto encoberto. O delegado contou ainda que durante a semana os filhos da vítima prestarão depoimento e que alguns pertences roubados foram encontrados em uma casa a cem metros da residência do coronel.

Uma fonte revelou que tinha sangue no travesseiro onde o coronel foi encontrado. O delegado disse que aguarda o laudo do perito para saber qual foi a causa da morte. "A gente está aguardando que o perito legista confeccione o laudo oficial e encaminhe para a DH para que a gente possa ter certeza da causa da morte da vitima". De acordo com informações da DHBF, agentes realizaram diligências e testemunhas foram ouvidas na especializada.

Cerca de 30 pessoas entre familiares e amigos próximos do coronel da reserva compareceram ao enterro no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu. Carla Malhães, 51 anos, filha do coronel disse que não associa o pai a um ex-torturador. "Não pensamos em nada disso. A gente está se despedindo do nosso pai. Para vocês é o coronel da ditadura mas para nós é nosso pai. É um momento dolorido", desabafou. 

A viúva Cristina Batista Malhães, de 36 anos, fez o cortejo de mãos dadas com a filha Carla. Questionado se queria justiça, o genro do coronel, Nelson Viana, afirmou que não tem nada para cobrar.

Polícia não descarta nenhuma hipótese

O militar que confessou participar de torturas e mortes de presos políticos durante a ditadura, inclusive do deputado federal Rubens Paiva, foi assassinado na quinta-feira em seu sítio. Ex-agente do Centro de Informações do Exército, Malhães depôs na Comissão Nacional da Verdade (CNV) no dia 25 de março, após, em entrevista exclusiva ao DIA, confessar que foi um dos comandantes da missão que sumiu, em 1973, com a ossada do ex-deputado.

A polícia não descarta nenhuma hipótese para o crime, inclusive a de vingança por causa dos depoimentos. A pedido do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a Polícia Federal vai entrar nas investigações. O corpo do coronel, de 77 anos, foi encontrado no quarto do casal pela viúva, Cristina Batista, por volta das 22h. Segundo a polícia, Malhães aparentava ter sido asfixiado, já que estava deitado no chão, de bruços e com o rosto num travesseiro.

Ex-coronel Paulo Malhães%2C que em março confessou ter sumido com o corpo do Rubens Paiva na época da ditadura%2C foi morto em casaJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

A viúva disse que chamou a Polícia Militar, mas a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) só foi informada às 9h30 de ontem. O casal e um caseiro foram rendidos por volta das 14h por três homens com pistolas e uma arma longa. Eles arrombaram uma janela e a porta da casa e ficaram no imóvel sem tocar em nada até a chegada do casal. 

Malhães e a mulher foram levados para a casa e colocados em cômodos separados. O caseiro, que saiu quando ouviu a chegada dos patrões, também foi rendido. As vítimas ficaram oito horas em poder dos bandidos. Um dos criminosos usava capuz e os outros, não. Uma testemunha foi chamada para tentar fazer retrato falado dos invasores.

Apesar de Cristina e o caseiro terem sido ameaçados, não foram agredidos. Eles foram amarrados, obrigados a ficar de cabeça baixa boa parte do tempo e ainda tiveram que procurar objetos de valor para os bandidos.

'É uma possibilidade estranha ele ter sido morto', diz delegado

Segundo o delegado Fábio Salvadoretti, as duas testemunhas contaram que ouviam os criminosos pedindo dinheiro e joias. Eles reviraram a casa e levaram dois computadores, duas impressoras, joias, R$ 700, além de duas pistolas e uma carabina calibre 12 da coleção particular do coronel. O delegado disse que, pelos pertences levados, uma das linhas de investigação também é o latrocínio (roubo seguido de morte), já que na região há quadrilhas de traficantes que poderiam ter interesse nas armas.

“É uma possibilidade estranha ele ter sido morto. Pode ter reagido ou pode ter sido crime de vingança pelos depoimentos que prestou. Não vamos descartar nada”, disse o delegado, que espera o laudo da necropsia para saber se o coronel foi torturado pelos bandidos.

A perícia não encontrou marcas de tiros ou cápsulas na casa. Foram coletadas digitais no carro das vítimas. Uma testemunha que ligou ontem para o Disque-Denúncia (2253-1177) é esperada pela polícia para prestar depoimento. Há suspeita de que outros dois criminosos estavam em um carro, dando cobertura ao bando. A polícia agora procura câmeras da região que possam ter filmado a fuga, já que o sítio fica em local ermo, em Marapicu.

A família teme dizer que a morte tem relação com os relatos recentes do coronel sobre os crimes da ditadura. “Vai parecer agora que é roubo seguido de morte, mas sabemos que não é bem isso”, disse um parente que não quis se identificar. A filha mais velha do militar, Carla Malhães, falou com o pai no domingo e disse que ele não relatou nenhuma ameaça. “Não sei porque ele andava tão falante. Ele não falava com a gente sobre essas coisas”.

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