Milícia também agiria no Estácio, outra área com UPP

Práticas típicas de milicianos no Pavão-Pavãozinho foram denunciadas pelo DIA ontem

Por O Dia

Rio - Práticas normalmente atribuídas a milicianos — toques de recolher, extorsões e torturas — amedrontam outra comunidade pacificada do Rio, além do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. Segundo o presidente da Associação de Moradores do São Carlos, no Estácio, Nenel Silva, policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local vêm abusando da autoridade: “Isso aconteceu ano passado. Com a troca de alguns policiais e do comando, o problema havia acabado, mas agora está voltando. Eles fazem ‘bondes’ para abusar de moradores”.

Ontem, O DIA revelou com exclusividade que o símbolo da milícia Liga da Justiça, a imagem do Batman, uma referência ao ex-PM Ricardo Teixeira da Cruz, foi pintada em muros do Pavão-Pavãozinho, onde o dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, e Edilson da Silva dos Santos foram mortos a tiros. A denúncia foi feita pela União Comunitária (entidade que reúne 10 favelas), que pediu audiência com o governador Luiz Fernando Pezão.

Policiamento continua reforçado nos acessos ao Pavão-Pavãozinho%2C após dias tensosCarlos Moraes / Agência O Dia

As assessorias do governador e da Secretaria de Segurança informaram ontem que não registraram nenhum pedido de audiência neste sentido. A secretaria, porém, confirmou que todas as denúncias são verificadas e inquéritos serão abertos para investigar os fatos.

O Comando de Polícia Pacificadora da PM disse, através da assessoria, que desconhece a presença de milicianos nos morros de Copacabana e do Estácio. Porém, a Corregedoria das UPPs investiga toda denúncia que chega através dos comandantes das UPPs, do Disque-Denúncia (2253-1177) e da imprensa.

Em agosto de 2013, moradores das comunidades da Mineira e do São Carlos denunciaram PMs da UPP de formarem o ‘Bonde dos Carecas’. Os policiais cometeriam abusos nas comunidades, muitas vezes circulando de toucas ninja. Na ocasião, matéria exclusiva do <CF54>DIA</CF> sobre o caso resultou no afastamento do comando e de vários militares.

‘Vaquinha para enterro'

O corpo de Edilson Silva dos Santos, de 27 anos, foi liberado ontem às 16h, no Instituto Médico-Legal, pela sua mãe de criação, Simone Hilário. Ele era deficiente mental. Edílson foi atingido com um tiro no rosto durante o protesto após a morte de DG. Os amigos de Edilson fizeram uma ‘vaquinha’ no Facebook, através da página ‘Ajuda para sepultamento digno de Edilson Silva dos Santos’, para arrecadar R$ 1.203 para realizar a cerimônia.

O enterro está marcado para hoje, às 10h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Não haverá velório. O grupo Bonde da Madrugada, do qual DG fazia parte, e a produção do ‘Esquenta’, da Rede Globo, onde ele trabalhava, farão uma homenagem ao dançarino no programa que vai ao ar amanhã.
Ontem, o policiamento continuava reforçado nos acessos ao Pavão. O comércio abriu normalmente.

Delegado ouve depoimento de mais um PM e defende peritos

DG levou um tiro nas costas durante ação policial no Pavão-PavãozinhoReprodução

O delegado responsável pelo caso, Gilberto Ribeiro, da 13ª DP (Ipanema), tomou o depoimento no nono PM envolvido na operação no dia da morte de DG. Segundo Gilberto, a versão desse PM condiz com as prestadas pelos outros militares. Delegados da Divisão de Homicídios também estiveram na delegacia e afirmaram que prestam apoio à investigação, mas que ela ainda é responsabilidade da 13ª DP.

Gilberto Ribeiro também saiu em defesa dos peritos que fizeram laudo de local, na creche em que o corpo de DG foi encontrado. Ontem, o jornal ‘Extra’ publicou uma foto em que DG está caído e com uma marca de tiro nas costas, contrariando a primeira versão da Polícia Civil, em que dizia que a causa da morte provavelmente teria sido uma queda.

“É fácil fazer conclusões depois que já temos o resultado. Essa perfuração podia ser causada por outra lesão. Imagino que o perito não tenha tido condições de afirmar que era um tiro”, disse Gilberto. O delegado contou que a perícia de local não era para identificar a causa da morte, mas, sim, tentar desvendar a dinâmica do crime. E que os laudos são complementares entre si. Gilberto também disse ainda que o fato de existirem fotos com o corpo de DG em posições diferentes não indica alteração de local, pois o perito move o corpo para os exames.

Anistia Internacional cobra elucidação rápida do caso

A Anistia Internacional cobrou que o governo do estado investigue as mortes de Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, e de Edilson Silva, mortos no dia 22 no Pavão-Pavãozinho. De acordo com a organização, a elucidação do caso precisa ser rápida e independente, já que policiais são suspeitos de participação nos crimes.

A mãe de DG, Maria de Fátima da Silva, disse que dois peritos estrangeiros farão novo laudo sobre a morte: ela não descarta exumar o corpoCarlos Moraes / Agência O Dia

A mãe de DG, Maria de Fátima da Silva, terá encontro com membros da Anistia Brasil na próxima semana, mas adiantou que dois peritos estrangeiros da organização farão um laudo sobre a morte. Ela não descarta exumar o corpo. “Se o resultado do laudo não for satisfatório, vou exumar o corpo”, disse.
Maria de Fátima também recusou um encontro com o governador Luiz Fernando Pezão.

“Não vão usar a morte do meu filho como plataforma política. O caso dele não foi isolado, já aconteceram muitos outros. Não é preciso que ele (Pezão) encontre a família da vítima para determinar que a polícia investigue direito. Não quero a amizade do governador, mas que os impostos que eu pago retornem em serviços”, indignou-se.

Governador quer legislação diferente para o estado do Rio

O governador Luiz Fernando Pezão quer que o Rio de Janeiro tenha uma legislação diferenciada dos demais estados, para impedir que bandidos perigosos sejam postos em liberdade por causa de brechas nas leis. Para isso, afirmou que vai se reunir com o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e com as bancadas fluminenses na Câmara dos Deputados e no Senado.

“O Rio não pode ter a mesma legislação do Acre”, afirmou ontem o governador.
Pezão se referia ao caso do Pavão-Pavãozinho, onde o tráfico teria voltado às mãos de Adauto do Nascimento Gonçalves, o Pitbull. Ele foi preso em 2008, teve regressão da pena em julho de 2013, passou para o regime semiaberto, saiu da cadeia e não mais voltou.

“A discussão nem existe, porque é inconstitucional. Não se pode pôr a culpa na lei pela deficiência dos estados. Isso é confessar a impossibilidade de fazer a abordagem correta dos problemas. Se chegaram a esse ponto, então é hora de examinar a possibilidade de intervenção federal, embora eu não pregue a intervenção”, opinou o deputado Miro Teixeira (PDT).

Policiais posicionados no Túnel Sá Freire Alvim%2C no protesto ocorrido entre a tarde e a noite de terça-feiraAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Segundo o presidente da Comissão de Segurança Pública da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), Breno Melaragno, a União não delega aos estados legislar na esfera penal e processual penal. “O problema não são as leis, mas as falhas nas instituições, que não conseguem cumprir seus papéis. O que a gente percebe é uma incidência acima do normal de erros e falhas”, disparou.

Para o deputado Alexandre Molon (PT), em vez de propor leis específicas para o Rio, o governador deveria pedir ao presidente da Câmara dos Deputados para que a proposta de reforma do Código Penal fosse apreciada imediatamente.O deputado Alfredo Sirkis (PV) frisou que ‘não somos os Estados Unidos, onde cada estado pode ter leis independentes’.

Já o deputado federal Otávio Leite (PSDB) defendeu que juízes criminais de todo o país tenham mais autonomia para interpretar e decidir sobre o grau de periculosidade dos presos.

João Batista Damasceno, juiz de Direito e cientista público, é contra. “A Constituição vale para todo o país. Regras locais de direito processual vigeram apenas durante a Primeira República. A proposta reflete o pensamento de um político do Vale do Paraíba, berço da cafeicultura escravagista".

Confira foto em 360 graus do local onde DG foi encontrado.

Colaborou Hilka Telles

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