Polícia fará retrato falado de suspeitos de invadir sítio de coronel

Depoimentos da viúva e caseiro serão usados como base. Morte foi pela tensão causada pelas horas que ficou refém

Por O Dia

Rio - A Polícia Civil irá produzir o retrato falado dos suspeitos de invadirem o sítio do coronel reformado Paulo Malhães, encontrado morto depois que os invasores deixaram a propriedade em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Neste sábado, o militar foi enterrado no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu. A guia de sepultamento do corpo de Paulo Malhães indica que ele morreu por conta da alta tensão causada pelas nove horas que ficou refém dos três criminosos.

Ex-coronel Paulo Malhães%2C que em março confessou ter sumido com o corpo do Rubens Paiva na época da ditadura%2C foi morto em casaJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia


Os agentes irão utilizar como base os depoimentos da viúva e do caseiro do sítio do casal. Uma equipe da da Divisão de Homicídios da Baixada realizou neste sábado uma perícia complementar no local. O delegado William Pena Júnior destacou que a principal linha de investigação é de latrocínio (roubo seguido de morte). Porém, destacou que não são descartadas as hipóteses de vingança e queima de arquivo.

Reféns por oito horas

O casal e um caseiro foram rendidos por volta das 14h por três homens com pistolas e uma arma longa. Eles arrombaram uma janela e a porta da casa e ficaram no imóvel sem tocar em nada até a chegada do casal. Malhães e a mulher foram levados para a casa e colocados em cômodos separados. O caseiro, que saiu quando ouviu a chegada dos patrões, também foi rendido.

As vítimas ficaram oito horas em poder dos bandidos. Um dos criminosos usava capuz e os outros, não. Uma testemunha foi chamada para tentar fazer retrato falado dos invasores. Apesar de Cristina e o caseiro terem sido ameaçados, não foram agredidos. Eles foram amarrados, obrigados a ficar de cabeça baixa boa parte do tempo e ainda tiveram que procurar objetos de valor para os bandidos.

Comoção marca sepultamento

Cerca de 30 pessoas entre familiares e amigos próximos do coronel da reserva compareceram ao enterro no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu. Carla Malhães, 51 anos, filha do coronel disse que não associa o pai a um ex-torturador. "Não pensamos em nada disso. A gente está se despedindo do nosso pai. Para vocês é o coronel da ditadura mas para nós é nosso pai. É um momento dolorido", desabafou.

Guia de sepultamento do coronel Paulo MalhãesJuliana Dal Piva / Agência O Dia

A viúva Cristina Batista Malhães, de 36 anos, fez o cortejo de mãos dadas com a filha Carla. Questionado se queria justiça, o genro do coronel, Nelson Viana, afirmou que não tem nada para cobrar.

Morte de causas naturais

Na guia consta "edema pulmonar, isquemia de miocárdio e miocardiopatia hipertrófica", esta última é uma doença cardíaca pré-existente. A explicação é de um especialista na área de coronariana que não quis se identificar. Porém, o documento não é um atestado de óbito. A Polícia Federal vai entrar nas investigações.

"Ele já sofria de uma cardiopatia grave que pode causar infarto se passar por um susto ou por uma forte emoção", explicou o perito legista Mauro Ricart. Segundo ele, se o coronel tivesse morrido por asfixia - suspeita inicial da causa da morte apontada pela polícia - haveria marcas nos pulmões. "Se existissem essas marcas, a causa da morte seria asfixia e não infarto e isso estaria no laudo", afirmou Ricart.

Torturador de Rubens Paiva

O militar que confessou participar de torturas e mortes de presos políticos durante a ditadura, inclusive do deputado federal Rubens Paiva, foi assassinado na quinta-feira em seu sítio. Ex-agente do Centro de Informações do Exército, Malhães depôs na Comissão Nacional da Verdade (CNV) no dia 25 de março, após, em entrevista exclusiva ao DIA , confessar que foi um dos comandantes da missão que sumiu, em 1973, com a ossada do ex-deputado.

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