Por paulo.gomes

Rio - O funcionamento dos ônibus no município do Rio está aparentemente normal na manhã desta sexta-feira, após a paralisação de 24 horas que aconteceu durante a quinta-feira. Nos terminais da Central do Brasil e Alvorada (Barra da Tijuca), a movimentação dos coletivos e passageiros acontece sem nenhum problema.

Os ônibus do BRT Transoeste também circulam normalmente. Os grevistas pedem que os motoristas trabalhem normalmente nesta sexta e marcam assembleia seguida de manifestação no Centro, às 16h.

Os ônibus estão circulando normalmente nesta sexta-feira pelas ruas do Rio de JaneiroPaulo Carneiro / Agência O Dia

Paralisação não era surpresa

A greve de ônibus que paralisou a cidade nesta quinta, mudando a rotina de cerca de três milhões de pessoas, não era uma surpresa. O ato havia sido anunciado em três manifestações de rodoviários, a última delas na última quarta-feira, quando a categoria afirmou que cruzaria os braços, caso não fosse recebida pelo sindicato e pela Rio Ônibus (associação que reúne as empresas do setor). Mesmo assim, autoridades minimizaram a mobilização e não se prepararam para evitar o caos na cidade.

O que se viu nesta quinta foram repetidas cenas de pontos lotados, milhares de trabalhadores espremidos em outros transportes públicos — que não suportaram a demanda — ou perdendo o dia de serviço por falta de condução.

>>>GALERIA: Greve dos rodoviários complica a vida dos cariocas

Na véspera do piquete, o líder do movimento, Hélio Alfredo Teodoro, disse que ficou na sede da prefeitura, aguardando para falar com um representante do Executivo. “Um funcionário prometeu que alguém iria nos receber. Demos um prazo até às 19h. Esperamos até às 19h30 e, como nos ignoraram, fomos embora”, contou. A assessoria da prefeitura informou que nenhum rodoviário havia solicitado audiência.

O impasse aconteceu porque a categoria quer reajuste salarial de 40%, cesta básica de R$ 400 e fim da dupla função. Mas o acordo firmado entre o Sindicato dos Rodoviários do Rio e as empresas garantiu aumento de 10% nos vencimentos e R$ 40 a mais na cesta básica. Com o acordo, o salário-base de motorista passou a ser de R$ 1.950.

Clique na imagem para ver o infográfico completoArte%3A O Dia

A confusão começou nas primeiras horas da madrugada e se estendeu até a noite. Segundo a Rio Ônibus, somente 24% da frota circularam, com picos de 30% durante a manhã. Rodoviários que tentaram trabalhar foram ameaçados e, ainda segundo a Rio Ônibus, 467 coletivos teriam sido depredados.

O prefeito Eduardo Paes e o governador Luiz Fernando Pezão recorreram à Polícia Militar para conter o quebra-quebra nas garagens. “Quem depredar ônibus será preso, porque isso é vandalismo e prejudica o trabalhador. Não vamos tolerar vandalismo no Rio. Nosso governo é um governo de diálogo, mas não com intimidação nem vandalismo”, disse Pezão.

Durante evento em Brasília, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, também criticou o quebra-quebra: “Temos que identificar pessoas que não estão se manifestando democraticamente, mas sim trazendo violações ao direito de outros. O Estado deve sancionar pessoas que acham que devem utilizar manifestações para praticar crime.”

Divergências podem esticar movimento

Os pontos em que empregados e empregadores parecem discordar podem estender a greve. “Amanhã (hoje) faremos uma assembleia às 16h na Candelária e uma passeata até o Ministério Público do Trabalho. A greve pode acabar ou ser retomada. Vai depender de nossas reivindicações serem ouvidas e levadas em consideração”, explicou o rodoviário Hélio Afonso. Ele estava em manifestação na plataforma do BRT Campo Grande, cujo ramal teve 30 estações fechadas após às 9h, por risco de depredação.

Sem alternativas%2C trabalhadores disputavam os poucos ônibus que circulavam na Avenida Presidente Vargas pela manhã. Alguns passageiros tiveram que andar por quilômetrosOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Na página do movimento no Facebook, os grevistas pedem que os motoristas trabalhem normalmente nesta sexta e marcam manifestação no Centro, às 16h. O presidente do Sintraturb, José Carlos Sacramento, afirma que Hélio tem pretensões políticas. “Ele quer se candidatar a algum cargo e está se promovendo. Essa greve é feita por uma minoria”, afirma ele.

Das empresas cujos ônibus teriam sido depredados, uma das mais atingidas foi a Viação Jabour, com 67 coletivos com vidros destruídos. Segundo a Rio Ônibus, cerca de 300 manifestantes circulavam em motos e carros e quebravam os veículos para intimidar motoristas e cobradores que queriam trabalhar.

O DIA registrou ações de rodoviários que paravam o trânsito em vários pontos: Estrada dos Bandeirantes, Avenida das Américas, Avenida Ayrton Senna, Avenida Brasil e Linha Amarela, indicando que a adesão era bem maior que de 300 grevistas. A SuperVia reforçou a frota e teve aumento de 30 mil passageiros ontem. Por causa da greve, a presidenta do Tribunal de Justiça do Rio, Leila Mariano, suspendeu os prazos processuais de ontem em todas as comarcas do estado.

Paes pediu ajuda à PM

O prefeito Eduardo Paes afirmou que pediu auxílio à Polícia Militar para conter episódios de violência em piquetes de rodoviários grevistas. Paes explicou que não cabe a ele negociar salário com a categoria e que isso compete à Rio Ônibus, associação das empresas de transporte. Segundo o prefeito, a não normalização do sistema de coletivos pode resultar em penas contratuais, como a cassação da concessão do serviço (de transporte).

Passageiros enfrentam dia de caos para chegar ao trabalho. Mais de 50 ônibus foram depredados por conta da greve dos rodoviáriosOsvaldo Praddo / Agência O Dia

“Os motoristas são funcionários das empresas que recebem a passagem todos os dias de todos os trabalhadores, aliás, uma passagem que foi reajustada e que, pelo que eu entendi, permitiu o reajuste aos motoristas de ônibus. Então, compete a gente cobrar das empresas que prestam esses serviços (de transporte). Mas o que a gente espera é que aqueles que estejam no movimento grevista o façam sem violência e sem piquete”.

Paes ainda afirmou que não sabe se o movimento é partidário ou comprometido com algum político. “Desconheço se o sujeito é filiado, desfiliado. A informação que tenho foi a que eu recebi do sindicato, que eles assinaram acordo e tiveram aumento de 10% e que a coisa estava bem negociada. Então, tem um movimento paralelo aí, mas não tenho a menor ideia se é político ou não”, disse.

Paes afirmou que só vê algum viés político na mobilização quando uma das exigências é falar com ele. “Não adianta falar com o prefeito. Tem que falar com o patrão, que paga o salários deles. Enfim, a gente espera que isso se resolva o mais rápido possível.”

Rio Ônibus cobra depredações de ativistas

A Rio Ônibus (associação que reúne os quatro consórcios do setor) entrou ontem com pedido no Tribunal Regional do Trabalho para que a paralisação seja considerada abusiva, devido aos transtornos causados aos trabalhadores e à população.

Segundo Lélis Teixeira, presidente da associação, outra ação deve cobrar dos líderes do movimento grevista o ressarcimento dos prejuízos causados às empresas cujos veículos foram depredados. Ele ainda sustentou que sindicatos de outras categorias e partidos políticos — os quais preferiu não identificar — fomentaram a paralisação dos rodoviários.

Passageiros enfrentam dia de caos para chegar ao trabalho. Mais de 50 ônibus foram depredados por conta da greve dos rodoviáriosOsvaldo Praddo / Agência O Dia

“Não tenho dúvida de que houve fundo político. Uma greve é sempre precedida por uma assembleia. Mas agora não houve isso. O grupo em greve foi reforçado por petroleiros e outros movimentos sociais. Não é normal um sindicato interferir nas demandas de outro sindicato”, completou.

Em nota, a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) informou que, este ano, o prejuízo com as depredações de ônibus já chega a R$ 3 milhões. Com os ataques de ontem, o número de ônibus avariados em 2014 passou de 13 para 480. Em 2013, 26 coletivos foram danificados, segundo a Fetranspor. No ano anterior, nenhum.

Prefeitura não estava preparada

O secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, afirmou que o órgão não estava preparado para responder aos transtornos provocados pela greve porque, na quarta-feira, o protesto de rodoviários na Central do Brasil não parecia um indicativo da radicalização empregada na paralisação desta quinta.

“Nós vimos a manifestação de quarta e, portanto, sabíamos que hoje (ontem) haveria uma passeata”, disse Sansão. “Mas, como um acordo pelo reajuste já havia acontecido, não estava prevista uma greve formal. Fomos surpreendidos pela intensidade, pela depredação.”

Passageiros enfrentam dia de caos para chegar ao trabalho. Mais de 50 ônibus foram depredados por conta da greve dos rodoviáriosOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Sansão explicou que, em função da redução da frota em circulação, a secretaria executou um plano de contingência em parceria com a SuperVia (trens) e o MetrôRio. “Pedimos que a SuperVia ampliasse o horário de pico, das 20h para às 21h. E o metrô operou com sua capacidade máxima”, disse o secretário.

Principal líder está sem trabalhar há um mês para se dedicar à causa

Principal líder da dissidência do sindicato dos rodoviários, o motorista Hélio Alfredo Teodoro, de 40 anos, o Hélio da Real, é funcionário da Real Auto Ônibus desde de 2007. Ele estaria há um mês sem trabalhar para se dedicar à causa. É filiado ao Partido Ecológico Nacional (PEN) e diretores do sindicato dizem que ele está usando a paralisação para captar votos numa possível candidatura.

Hélio é associado ao sindicato e liderou o movimento dissidenteAlessandro Costa / Agência O Dia

Ele nega. “Isso é tudo mentira. Agora, se o Sintraturb quiser me patrocinar eu aceito”, ironiza Hélio. O presidente do PEN, Francisco Silva, diz, no entanto, que foi procurado por Hélio há 15 dias. "Não o conhecia. Se apresentou como líder rodoviário e pleiteou vaga de candidato na próxima eleição", conta Silva. “Parecia não ter condição de organizar sequer um movimento em seu condomínio”. Por isso, Silva negou a vaga.

Depois desse encontro, recebeu um pedido do deputado Edno Fonseca para que aceitasse a candidatura. “Nem lembro da fisionomia dele”, diz o deputado. “Achei que poderia ser candidato porque ele disse ser líder em sua comunidade”. Depois da gigantesca paralisação dos ônibus nesta quinta-feira, o presidente do PEN mudou seu conceito. “Não aprovo o que ele fez. Mas se soubesse que tinha essa liderança toda, teria aceitado". Silva desmente que o PEN seja aliado do PR de Anthony Garotinho e diz que o partido apóia Pezão. “Temos apenas muitos egressos do partido de Garotinho”.

O ex-governador emitiu nota negando “qualquer ligação com a greve dos rodoviários do Rio” e dizendo que o PR também não é ligado ao PEN ou a rodoviário Hélio Teodoro. Em sua página no Facebook, Hélio “curtiu” os perfis de Garotinho e da deputada Clarissa Garotinho, além do Movimento Passe Livre, que iniciou as manifestações de rua em junho do ano passado.

Além do grupo “Rodoviário Rio em Luta”. Ele é casado e tem uma filha. Evangélico, gosta de cantores gospel como Pregador Luo e Jamily. É torcedor do Flamengo. A comissão de rodoviários dissidentes do Contratura Rio é composta de cinco pessoas. Duas da Real Auto Ônibus, duas da Viação São Silvestre e uma da Caprichosa Auto Ônibus. Luiz Cláudio da Rocha Filho, de 51 anos, motorista da Viação São Silvestre, é outro líder dos dissidentes. Ele afirma que os rodoviários não participaram da depredação dos ônibus.

“Fizemos três manifestações pacíficas e não seria agora que usaríamos a força. Esse vandalismo está sendo praticado por pessoas ligadas ao sindicato para desmoralizar nosso movimento”, acusa Filho que é rodoviário desde 1981.

Ronaldo Moreno, assessor político do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ), confirmou a participação nos atos. O apoio foi dado através de carro de som nas manifestações. “É um movimento legítimo”, afirma Moreno que também o membro do Conlutas.

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