Por marcello.victor

Rio - Uma clínica de abortos que funcionava improvisadamente em um sobrado no interior da Favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, foi estourada nesta quinta-feira por policiais da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Segundo a polícia, a clientela era formada em sua maioria por grávidas de classe média e da Zona Sul, que pagavam no mínimo R$ 2.500, em dinheiro e à vista, para abortar.

Quatro mulheres foram presas, mas o médico de 80 anos fugiu. No local foram encontrados lotes do medicamento genérico do anestésico Demerol, que teria provocado a morte do astro pop Michael Jackson, em 2009. A comunidade possui uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Instrumentos cirúrgicos%2C medicamentos e dinheiro foram encontrados pelos policiais na clínica de abortoOsvaldo Praddo / Agência O Dia

As investigações sobre a 'clínica' começaram há dois meses depois de uma denúncia. Os policiais da DPCA descobriram que a quadrilha trabalhava de forma fragmentada. Eles passaram a monitorar um taxista que transportava mulheres até a Rua Viúva Cláudio, um dos principais acessos à Favela do Jacarezinho. Lá, a funcionária da clínica Andréia Figueiredo Basílio da Costa conduzia as passageiras até a clínica no interior da comunidade. Por medida de segurança, as grávidas eram obrigadas a irem sem acompanhantes e com os telefones celulares desligados. Após o procedimento, o taxista voltava para levá-las a seus destinos.

Na manhã de quinta-feira, os agentes da DPCA flagraram o taxista deixando quatro passageiras e funcionária as conduzindo. Na viela onde funcionava a clínica, menores que estavam na contenção de uma boca-de-fumo fugiram. Mulheres que seriam atendidas estavam desorientadas na rua, já sabendo da chegada da polícia. Na clínica, algumas ainda estavam anestesiadas após o procedimento, segundo os policiais.

Pouco antes da chegada dos policiais, o médico Bruno Gomes da Silva conseguiu fugir juntamente com a secretária. De acordo com a polícia, ele pratica abortos desde 1957, quando tinha 23 anos, e possui várias anotações criminais. Ele seria o dono da clínica que funcionava a pelo menos um ano no local, às quintas-feiras. O atendimento era feito apenas a mulheres com no máximo seis meses de gestação. De acordo com o risco, o valor do aborto poderia chegar a R$ 5 mil. Até o meio-dia, 12 mulheres tinham estado no local. Cerca de 20 eram atendidas por dia de funcionamento.

Peritos estiveram no local e verificaram a improvisação da clínica, medicamentos vencidos e falta de higiene. Uma mangueira usada no cotidiano, como na lavagem de quintais e carros, era usada improvisadamente para a sucção dos fetos. O local onde os abortos eram feitos ficava ao lado da copa. Resíduos de fetos também foram achados. Na recepção, dois pequenos ventiladores, uma TV, três cadeiras de plástico e um pequeno sofá.

Uma das investigações paralelas que será feita pela DPCA consiste em descobrir de onde o lote de Propofol (genérico do Demerol) foi desviado. O produto não é comercializado. Este e outros tipos de medicamentos hospitalares apreendidos no local são de uso restrito de unidades de saúde das redes públicas de saúde. Instrumentos cirúrgicos e R$ 10 mil também foram encontrados.

Andréia e as três gestantes foram autuadas no Artigo 126 do Código Penal (Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento). A pena é de um a três anos de detenção. Andréia pagou fiança de R$ 1 mil, foi liberada e responderá o processo em liberdade. Ela disse que ganhava R$ 500 para conduzir as gestantes até a clínica. O taxista está sendo investigado pela polícia.

Você pode gostar