Por bianca.lobianco

Rio - A queda de braço entre rodoviários em greve, o sindicato da categoria (Sintraturb Rio) e a Rio Ônibus (associação das empresas) terá mais um capítulo na próxima segunda-feira. Uma audiência entre as partes está marcada para as 15h, no Tribunal Regional do Trabalho, para tentar dar um fim ao impasse, que deixou milhões de cariocas sem transporte na quinta-feira.

O encontro foi definido após uma reunião entre grevistas e procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT) na tarde de ontem, após manifestação de cerca de 200 motoristas e cobradores na Avenida Rio Branco.

Cerca de 200 rodoviários foram da Candelária até o Ministério Público do Trabalho%2C complicando o trânsito no Centro%2C que também foi palco de manifestação dos vigilantesErnesto Carriço / Agência O Dia

O MPT também investiga supostas irregularidades no acordo celebrado entre as empresas e o Sintraturb Rio, que definiu aumento de 10% e cesta básica de R$140. Os líderes grevistas, que pedem 40% de reajuste salarial e o fim da dupla função de motorista e cobrador, questionam a legitimidade do sindicato e argumentam que não houve quórum na assembleia que firmou o acordo com os empresários.

A procuradora-geral do Trabalho, Deborah Félix, que participou do encontro, explicou que a Rio Ônibus ajuizou ação com o pedido de dissídio de greve no TRT e que o MPT incluiu, então, os grevistas na reunião, já que eles diziam não ter sido ouvidos ainda. Sobre a denúncia dos grevistas, ela disse que um processo não interfere no outro. “A denúncia vai ser apurada, e o procurador João Carlos Teixeira, com os documentos juntados, vai decidir qual caminho seguir”, resumiu ela, que pediu “trégua” aos grevistas. “Pedi para que evitem excessos. É uma oportunidade muito boa para superar o conflito. Eles saíram satisfeitos”, finalizou.

Hélio Alfredo Teodoro pediu desculpas à população pelos transtornosErnesto Carriço / Agência O Dia

Manifestação

Aos gritos de “Duvida não, se não der aumento, na Copa não tem busão”, cerca de 200 rodoviários fecharam duas pistas da Avenida Rio Branco por cerca de uma hora, em caminhada até a sede do MPT, na Avenida Churchill.

Um dos cabeças do movimento, Hélio Alfredo Teodoro pediu desculpas aos cariocas pelos transtornos de quinta. “Não fizemos quebra-quebra, não dá para garantir que todos aqui sejam rodoviários. Tem gente do sindicato infiltrada”.

O presidente da Rio Ônibus, Lélis Marcos Teixeira, afirmou que os grevistas não têm representatividade e que não vai negociar reajustes com o grupo.

Rio Ônibus: com pedido dos grevistas, tarifa iria a R$ 3,55

Para compensar um aumento de 40% dos salários de motoristas e cobradores, como pedem os grevistas, o presidente da Rio Ônibus (associação das empresas de transporte), Lélis Marcos Teixeira, afirma que seria necessário que a tarifa passasse para R$ 3,55 no próximo reajuste anual, previsto para janeiro. Segundo ele, o custo da mão de obra representa 45% do valor da passagem. Portanto, teria um impacto de 18%. “Não tem sentido fazer isso em um momento em que a população pede por tarifas mais baixas”, afirmou Teixeira.

A fórmula de reajuste de tarifa do contrato de concessão, no entanto, prevê o INPC (índice de inflação do IBGE) como índice para compensar o aumento dos custos de mão de obra. Mas Teixeira afirma que, com um aumento dessas proporções, as empresas têm o direito de alegar desequilíbrio econômico e repassar a alta dos salários para a tarifa.

Para o aumento salarial já concedido, de 10%, o impacto tarifa seria de 4,5%, que já eleva a tarifa para R$ 3,10 em janeiro de 2015, segundo Teixeira.

Adesão de outras categorias é vista como união de classes

A adesão de outras categorias à paralisação dos rodoviários é encarada por especialistas e integrantes de sindicatos como um movimento de união de classes. Entre as entidades que apoiaram a greve de quinta, está o Sindicato dos Comerciários de Nova Iguaçu, que ofereceu lanche, água e até carro de som aos manifestantes. “Isso tem a ver coma solidariedade entre as classes, fortalecer a luta dos trabalhadores em seus interesses. A categoria dos rodoviários, assim como os comerciários, é muito sacrificada e o aumento de 10% é insuficiente. Temos que apoiar os trabalhadores que queiram mudar este país”, disse Telmo de Oliveira, diretor do sindicato.

Rodoviários fizeram passeata pela Rio Branco e interditaram duas pistas da via por 40 minutosErnesto Carriço / Agência O Dia

“Quando o sindicato se retrai, uma parcela de trabalhadores põe a tropa na rua e ganha a simpatia de outros sindicatos. A população reconhece o direito dos trabalhadores. É um momento favorável às reivindicações porque as pessoas estão vendo que não é possível que tudo funcione para a Copa e nada funcione para o trabalhador”, avaliou o sociólogo e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp), Ricardo Antunes.

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