Mãe de jovem diz que perdoa sequestrador, mas critica a violência no Rio

'Não podemos ficar à mercê de bandidos ou qualquer maluco que invada um ônibus e possa nos fazer mal' disse a mãe de Rafaela Lobo, Denise Lobo Barbosa

Por O Dia

Rio - O tradicional churrasco do Dia das Mães da família da estudante Rafaela Lobo Barbosa de Jesus, de 17 anos, foi diferente do de todos os outros, ontem, um dia depois de ela passar cerca de duas horas e meia sob a ameaça de uma tesoura, durante o sequestro do ônibus da linha 723 (Cascadura-Mariópolis), quando passava pela Avenida Brasil, em Guadalupe.

“Foi com a felicidade de quem viu a filha nascer novamente”, definiu a dona de casa Denise Lobo Barbosa de Jesus, de 41 anos.

A alegria de mãe, porém, não tirou dela o senso crítico para cobrar das autoridades ação efetiva contra a sensação de impotência diante da violência. “Não podemos ficar à mercê de bandidos ou qualquer maluco que invada um ônibus. Nós vamos receber estrangeiros para a Copa”, desabafou Denise, que, evangélica da Maranata de Anchieta, onde moram, afirma ter perdoado o sequestrador da filha, Paulo Alberto da Silva, 32. “De qualquer forma, creio que a negociação foi um excelente trabalho da polícia”, parabeniza.

Rafaela, ao lado do pai, Cosme, é moradora de AnchietaFabio Teixeira/ Agência O Dia

Vítima de violência pela primeira vez, Rafaela diz que o sequestrador precisa “muito mais de ajuda” do que ela. “Ele estava completamente desorientado”, conta a jovem, que sonha em ser geóloga. Segundo a estudante, Paulo Alberto tentou tranquilizar o pai dela, o técnico em telecomunicações Cosme Luiz Olimpo de Jesus, 42, que desligou a primeira ligação, pensando se tratar de um golpe.

Ainda segundo a estudante, o sequestrador não foi violento. “Logo no início, eu gritei, porque tive medo de morrer, mas, depois, ele foi ficando tranquilo, já não colocava a tesoura na minha garganta”, lembra, abraçada ao pai. Cansados, eles esperam agora dormir. “Chegamos às 3h, agitados. Depois, logo cedo, o telefone começou a tocar. Imprensa, família. Impossível relaxar”, reclama Cosme, que garantiu levar a família para a igreja e agradecer.

Ainda na 39ª Delegacia de Polícia (Pavuna), na madrugada de ontem, a mulher de Paulo Roberto, identificada apenas como Valdineia, 19, afirmara que havia se separado dele há cinco dias, por ciúmes. Segundo ela, o marido não era violento nem usava crack. Ela disse que Paulo chegou a usar maconha, mas estava “limpo e com carteira assinada”.

Mesmo sendo ameaçada com uma tesoura no pescoço, vítima teve sangue-frio e demonstrou maturidade (intertítulo)

O delegado-adjunto da 39ª DP (Pavuna), Felipe Santoro, destacou o sangue-frio de Rafaela Lobo durante o tempo em que foi feita refém no sequestro do 723. Segundo ele, durante o depoimento, a adolescente contou que em nenhum momento ficou assustada com a situação. “Apesar da pouca idade, ela se comportou muito bem”, ressaltou o policial.

O ônibus da linha 723 ficou parado durante mais de duas horas em uma das pistas da Avenida Brasil%2C enquanto agentes da polícia negociavam a rendição do sequestradorJoão Laet / Agência O Dia

Ainda de acordo com o delegado-adjunto, no depoimento a jovem também contou que estava sentada em um dos bancos altos do ônibus quando o sequestrador Paulo Alberto Ferreira da Silva entrou no coletivo, na altura de Deodoro, pagou a passagem e foi sentar no último assento do coletivo.

Só na altura do Shopping Guadalupe é que ele deu um puxão no cabelo da menor e mandou que todas as pessoas descessem do ônibus.

A jovem demonstrou ainda ter presença de espírito. “Em um determinado momento, quando os dois estavam abaixados no interior do ônibus, o sequestrador ainda deixou a tesoura cair e foi a própria Rafaela quem o ajudou a procurar o objeto”, contou o delegado Felipe Santoro.

'Vencer pelo diálogo, até a exaustão' - Gleber Ferreira, negociador

O sargento do Bope Glebson Ferreira de Lima é considerado um dos maiores especialistas em negociação de conflitos da polícia. Nesta entrevista, ele explica como conseguiu convencer o sequestrador do ônibus a se render.

1) O senhor optou pelo diálogo até o final, mas o desfecho poderia ser outro?

Gleber é sargento do BopeReprodução

Sim. Nossos policiais, inclusive atiradores de elite, já estavam posicionados, com o sequestrador na mira. Ou seja, no último caso, se a conversa não desse resultado, poderiam ter atirado. Mas a tática, sempre, é vencer pelo diálogo, até a exaustão.

2) Qual foi o momento mais tenso?

No começo do papo, quando o rapaz começou a chorar compulsivamente, dizendo que era perseguido por bandidos em um carro preto.

3) O senhor já participou de outras negociações com reféns?

De outras duas, uma em Itaboraí e outra em Manguinhos, ambas, graças a Deus, também com final feliz. Mas essa foi a mais difícil. Chovia muito, e o local onde o ônibus parou era muito escuro.

4) E o comportamento dos reféns?

Foi exemplar. A garota se mostrou tranquila o tempo todo, tentando acalmar o sequestrador e participando ativamente de toda a negociação, assim como o motorista. Ele, inclusive, poderia ter saído do ônibus junto com os demais passageiros logo no início do episódio, mas preferiu ficar no veículo em solidariedade à jovem.

5) Acredita que sua fé também tenha ajudado?

Claro. Foram poucas palavras pedindo que Jesus o abençoasse. E abençoou mesmo. Com certeza.

Negociador é evangélico e torce pelo Flamengo

“Posso fazer uma oração?” O pedido feito pelo sargento do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Glebson Ferreira de Lima, de 41 anos, ao sequestrador Paulo Alberto Ferreira da Silva, 32, foi a senha para o desfecho pacífico do caso.

Fiel da Comunidade Evangélica de Campo Grande, Glebson, do grupo de Grupo de Negociação e Análise do batalhão, revela que o criminoso respondeu que o bandido ficou surpreso e disse que sim, que ele poderia orar. Glebson, então, elevou o olhar para o céu e disse: “Jesus, abençoe o Alberto!”

“ Ele começou a chorar, emocionado, e também a rezar, mas com palavras desconexas, pois ele estava sob efeito de crack”, contou o policial, que está há 18 anos na corporação, 15 deles no Bope.

“A partir daí, foi ficando mais calmo, até se render, 50 minutos depois do início da negociação”, ressaltou o sargento, que é casado e pais de três filhos.

Paulo Alberto da Silva%2C 32%2C ameaçou jovem com uma tesouraNonato Viegas / Agência O Dia

Tido como um dos agentes mais experientes em negociações da polícia carioca, Glebson, além de religioso, também é descrito pelos colegas e parentes como uma pessoa alegre no dia a dia. Seu time de coração é o Flamengo.

“A ação da polícia ontem mostrou amadurecimento e aprendizado. Depois do caso do ônibus 174, houve uma reestruturação. Devem ser elogiados o isolamento da área, o posicionamento policial e também a maneira como a imprensa se comportou”, diz o antropólogo e ex-capitão do Bope Paulo Storani.

Crimes de sequestro qualificado e ameaça 

Paulo Alberto Ferreira da Silva vai responder por sequestro simples contra o motorista e sequestro qualificado contra a menor, além de ameaça.

“Ele não queria roubar ninguém nem tentou machucar a adolescente. Estava é desorientado, mas não posso afirmar se era da própria personalidade ou se era efeito de drogas”, esclareceu o delegado-adjunto da 39ª DP, Felipe Santoro. O policial disse que Paulo não passou por nenhum exame toxicológico, mas afirmou que “estava sendo perseguido”.

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