Por felipe.martins

Rio - Depois de alegar ter sido pega “de surpresa” na quinta-feira, quando os grevistas conseguiram parar até 76% dos ônibus, a prefeitura anunciou ontem, logo após o aviso da paralisação de 48 horas, o plano de contingência para tentar minimizar os transtornos na cidade. O secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, explicou que, baseado na experiência da semana passada, espera que pelo menos 30% dos ônibus possam circular, mas fez uma ressalva: “Em um movimento atípico como esse, sem liderança do sindicato, é impossível prever o que vai acontecer.”

A estratégia da prefeitura será priorizar as linhas alimentadoras dos trens e metrô. “Vamos direcionar os motoristas que forem trabalhar para as linhas de integração e pedimos aos trens e metrô para estenderem a operação de horário de pico por praticamente o dia todo. Mesmo assim, o carioca tem de entender que, nesses dois dias, vai demorar mais tempo para chegar ao trabalho e vai enfrentar mais filas”, afirmou Sansão.

Um dos líderes dos grevistas, Hélio Teodoro discursou para cerca de 500 rodoviários em assembleiaHenrique Moraes / Agência O Dia

O plano de contingência prevê a antecipação do início da operação de horário de pico da SuperVia (em que todos os trens circulam) em uma hora e meia, para 4h30. Já o metrô vai funcionar na capacidade máxima desde 5h30. As barcas da linha Cocotá (Ilha do Governador) - Praça 15 terão o intervalo reduzido para 30 minutos desde 6h30. Na última greve, o trecho aquaviário apresentou aumento de 204% no número de passageiros transportados.

Sansão afirmou ainda que, se os quatro consórcios que operam os serviços de ônibus no Rio demonstrarem esforço para minimizar os transtornos e seguirem à risca o plano de contingência, as empresas não deverão ser penalizadas.

Audiência sem acordo

A audiência de conciliação na tarde de ontem, no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), entre a comissão do movimento Rodoviário em Luta, que lidera a greve, o Rio Ônibus (que representa as empresas) e o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Urbanos (Sintraturb), que é contra a paralisação, terminou sem acordo. A decisão de parar foi tomada logo após a reunião, em assembleia em frente ao local.

Os líderes da comissão de dissidentes do sindicato que participaram da audiência comunicaram aos mais de 500 rodoviários presentes que o Rio Ônibus se negou a fazer uma contraproposta e manteve o acordo fechado com o Sintraturb de reajuste de 10% e R$ 140 de cesta básica. Os grevistas pedem aumento de 40%, R$ 400 de auxílio-alimentação e fim da dupla função (ônibus sem cobradores).

Após aprovarem a paralisação, rodoviários seguiram em passeata pelas ruas do Centro, causando engarrafamentos no fim da tardeUanderson Fernandes / Agência O Dia

“Participamos da audiência, mas de nada adiantou. Sendo assim, proponho não uma greve por tempo indeterminado, e, sim, de 48 horas. Faremos várias paralisações de dois dias até nos levarem a sério”, afirmou Hélio Teodoro, um dos líderes do movimento. “Mas quero solicitar a todos a não violência. Não vamos quebrar ônibus algum”, pediu ele. Quinta-feira, às 16h, na Candelária, os grevistas voltam a se reunir para avaliar o movimento.

Em nota, o Rio Ônibus considerou a nova paralisação um ato abusivo e ilegal. Informou que os consórcios Intersul, Internorte, Transcarioca e Santa Cruz vão manter suas frotas prontas para operação, “mas a circulação dos ônibus vai depender da chegada dos motoristas ao trabalho e das condições de segurança”. A entidade acrescentou que já foi solicitado o reforço policial às autoridades.

Passeata

Após a assembleia, na Avenida Presidente Antônio Carlos, os manifestantes saíram em passeata, por volta das 17h, em direção à Central do Brasil, deixando o trânsito ainda mais complicado na hora do rush. O grupo, escoltado pela PM, caminhou pelas avenidas Rio Branco e Presidente Vargas.

Mais PMs na rua e lojistas preocupados

A Polícia Militar montou plano para enfrentar a paralisação dos ônibus e possíveis conflitos. Viaturas foram baseadas próximo a garagens e empresas, PMs vão monitorar a Avenida Brasil de carro e sobre passarelas, e os terminais rodoviários tiveram reforço.

A preocupação com os transtornos da greve é grande, principalmente no comércio da cidade, onde o prejuízo chegou a R$ 250 milhões — 60% do faturamento diário — na paralisação de rodoviários semana passada.

“Há funcionários que não conseguem chegar às lojas, e o próprio consumidor não aparece. Ele só sai de casa para comprar produtos de primeira necessidade”, avaliou Aldo Gonçalves, presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio (Sindilojas).

Dono de uma lanchonete e papelaria no Méier, Alexandre Papazian Gismonti tem tido prejuízo. “Minha loja vive em função da escola vizinha. Sem alunos, não tem movimento no meu comércio.” Na greve da semana passada, o caixa fechou sem cobrir os investimentos. “A escola não teve aula. Encalharam salgadinhos, a xerox ficou parada, não se vendeu nada na papelaria.”

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