Por felipe.martins

Rio - O esquema de cobrança de propina ao transporte alternativo em pelo menos três favelas pacificadas na Tijuca, que vem sendo revelado com pelo DIA desde domingo era articulado através de estrutura organizada. A quadrilha fardada abusava do poder do Auxílio à Polícia de Trânsito (Aptran), órgão que ajudava na fiscalização de veículos na área do 6º BPM (Tijuca). Mas respeitava a hierarquia do próprio batalhão, segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público (MP) em outubro de 2013, que pediu a prisão de 12 policiais militares da unidade.

“O grupo tem um comando. Tem uma célula que manda e uma célula intermediária, que cumpre ordens. Por isso, houve a denúncia por organização criminosa”, explicou o promotor Marcos Kac, da 9ª Promotoria de Investigação Penal do MP.

Policiais do 6º BPM são acusados de participar de esquema de cobrança de propina do transporte alternativo. Negociação era feita em bar Ernesto Carriço

Segundo a denúncia, escutas telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que os policiais militares davam satisfações sobre a movimentação do grupo ao tenente-coronel Márcio de Oliveira Rocha, comandante do batalhão na época. Mas quem acompanhava a cobrança das propinas feitas por policiais da Aptran nas ruas era o subcomandante, major Rômulo Oliveira André, ainda de acordo com a investigação.

Às 10h38 do dia 29 de maio do ano passado, o sargento Mauro Vieira dos Santos ligou para o sargento Adalci Dias de Carvalho para perguntar sobre a situação das vans no Alto da Boa Vista. Na época, a prefeitura tinha proibido a circulação dos veículos na região e eles precisavam rodar à noite, para escapar da fiscalização. No fim da conversa, Vieira disse que a dúvida era do subcomandante (veja a transcrição abaixo).

No mesmo dia, mais de duas horas depois, às 12h59, o grampo telefônico flagrou uma conversa entre os policiais em som ambiente. Segundo a investigação, porque Adalci — alvo do grampo — teria deixado o celular ligado acidentalmente.

O teor da conversa dele com os sargentos Márcio Luiz Sigolo Bastos e Marcelo de Jesus Correia era justamente a situação das vans que faziam o trajeto do Alto da Boa Vista para a Barra da Tijuca, situação que tinha despertado o interesse do subcomandante na conversa anterior.

“O negócio daquelas vans ali do Alto da Boa Vista pra Barra acabou, né?”, perguntou Sigolo. “Acabou”, respondeu Adalci. “Mas à noite tá rodando, né?”, respondeu.]

Em meio à conversa, Sigolo ameaça apreender os veículos, por falta de pagamento de propina à Aptran. Mas Adalci o adverte e pede um prazo até a sexta-feira daquela semana, porque os motoristas tiveram um prejuízo devido à proibição imposta pela prefeitura na época. “Até semana passada, tava vindo certinho. Eles perderam 80 kombis. Tá (sic) ferrando eles, porque o horário do rush eles não podem subir”, argumentou Adalci.

Sigolo concordou, deixando claro que a circulação dos veículos estaria condicionada à propina: “Se eles acertarem, deixa subir”.

Entenda

Sete meses
Em outubro do ano passado, a 9ª Promotoria de Investigação Penal do Ministério Público pediu a prisão preventiva de 12 policiais militares do 6º BPM (Tijuca) pelos crimes de formação de quadrilha, corrupção passiva, associação criminosa e prevaricação. Sete meses depois, a Justiça ainda não se pronunciou.

No bar em frente
De acordo com a denúncia, o Bar Bingo da Barão, em frente à sede do 6º BPM, na Rua Barão de Mesquita, era usado para recolher o dinheiro pago pelos motoristas. Os PMs faturavam R$ 100 mil por mês, segundo o MP.

PM investiga
A Corregedoria interna da PM abriu procedimento apuratório para acompanhar o caso. Segundo a corporação, todos os suspeitos foram afastados e trabalham em funções administrativas, aguardando decisão da Justiça.

Escutas mostram que o sargento Mauro Vieira dos Santos ligou para o sargento Adalci Dias de Carvalho e perguntou sobre a situação de vans que passaram a circular à noite no Alto da Boa Vista, após a proibição. Diz que busca informações a mando do subcomandante.

Vieira - Deixa eu te perguntar: Tá sabendo se lá em cima no Alto tá...
Adalci - Lá em cima no Alto, o que é que tem?
Vieira - Lá no Alto da Boa Vista tá proibido rodar van?
Adalci - Tá. Tá, sim.
Vieira - Pô, os caras estão com um ponto, cara. Lá embaixo. Na nossa divisa de área lá. Eles estão rodando no Alto. Eu tô te perguntando porque o major tá perguntando aqui. O subcomandante, entendeu?

Escutas telefônicas

4 de junho de 2013
Adalci conversa com o sargento Eduardo Carvalho Mendonça sobre a cobrança em diferentes pontos de transporte alternativo. Depois, conta uma discussão que teve com o cabo Bruno Mendonça Domingos, o Mendoncinha, que teria feito uma cobrança e voltado sem o dinheiro. Ele disse que iria conversar com Rômulo, se referindo ao subcomandante. De acordo com o MP, isso mostra que todas as decisões do grupo passavam por ele. Ainda segundo a denúncia, Adalci revela a estratégia de ‘bater lá para o cara não perturbar’, falando de operações para conseguir dinheiro com os motoristas e evitar reclamações do subcomandante.

Mendonça - Conseguiu não? Nenhum dos dois do Zé Carlos?
Adalci - Nenhum dos dois. Um só chama e ninguém atende. O outro só dá fora de área, fora de serviço. Adriana ficou pra quinta-feira. E o Lincoln pega tudo na sexta-feira, tá? A nossa e a tua.
Mendonça - Esse Lincoln tá o maior muquirana, cara. O Mendonça (Mendoncinha) falou contigo lá da Rua Uberaba?
Adalci - Falou e eu fui lá. E avisei a ele o seguinte: ‘Parada de homem. Tu fez uma parada comigo de moleque’. Vou conversar com o Rômulo aqui. Conversar com o Rômulo, tá? É para justamente bater lá e o cara não perturbar.
Mendonça - Essa parada. Ele não tava aí ontem. Tava de férias ainda. Por isso não falei com ele. Então, valeu!
Adalci - Falei pra ele: ‘Olha só, a parada que a gente tinha falado com tu. Pensei que era de homem. Mas tu é moleque’. Com ele, de cara a cara.
Mendonça - Então, já é! Valeu, parceiro. Tamo junto.
Adalci - Matei direto. Não tem dessa, não.
Mendonça - Valeu, essa parada!

Citado em duas escutas

O major Rômulo Oliveira André, acusado de participar do esquema de cobrança de propina, foi citado por policiais do Aptran em duas escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, entre maio e junho do ano passado. Na primeira conversa, o sargento Mauro Vieira dos Santos pediu informações sobre a situação das vans no Alto da Boa Vista. Na segunda, o sargento Adalci disse que iria informá-lo de um impasse com outro policial.

Em seu perfil do Facebook, ele expõe fotos de uma viagem feita a Orlando, na Flórida, Estados Unidos.
Numa das postagens, publicada no dia 14 de fevereiro, o oficial, que atuava como subcomandante do 6º BPM (Tijuca) quando o batalhão foi investigado, posa para foto onde escreveu: “Último dia de compras”. O oficial recebeu salário bruto de R$ 10.168 no último mês, valor equivalente à patente de major pago pela corporação.


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