Por thiago.antunes

Rio - A maior parte das 250 embarcações e carcaças submersas ou abandonadas na superfície da Baía de Guanabara, conforme o DIA mostrou ontem, representa risco ambiental constante. O alerta é do oceanógrafo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) David Zee. Segundo ele, as substâncias tóxicas que envolvem cascos e interior das embarcações que estão, sobretudo, no fundo do mar, podem causar danos irreparáveis ao meio ambiente e interferir no processo biológico da vida marinha.

“Muita gente acha que, uma vez afundado, um navio vai servir de abrigo para peixes, corais e outros animais marinhos. Mas materiais altamente tóxicos, como combustíveis, graxas, tintas e substâncias presentes em componentes eletrônicos, como mercúrio, cádmio e chumbo, são constantes ameaças. Eles podem vazar depois de dezenas de anos, interferindo na reprodução das espécies”, diz.

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O oceanógrafo explica que, para transformar carcaças em recifes artificiais, a fim de atrair vida marinha, as embarcações têm que passar por um processo de limpeza, com a retirada de todos os metais e substâncias perigosas. “Dessa forma, seria bastante útil. Do contrário, é completamente nocivo à natureza”, afirma Zee.
Segundo o diretor do Programa Marinho da Conservação Internacional (CI) no Brasil, Guilherme Dutra, os corais estão entre os organismos mais sensíveis aos impactos ambientais.

Ele ressalta a dificuldade de se avaliar o tamanho de danos ambientais e o momento em que podem ocorrer. Em recente entrevista, ele disse que cada caso está condicionado à quantidade de poluentes num naufrágio, o movimento das correntes marítimas e a velocidade dos ventos.

A assessoria de imprensa do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que cabe à Capitania dos Portos acionar os órgãos responsáveis em caso de acidente ambiental na Baía . Numa emergência, um plano de contingência é colocado em prática por um grupo de especialistas ligados ao Inea, Marinha, Capitania dos Portos e Petrobras, entre outros.

Dos 52 cascos abandonados — um quinto do total — no Canal de São Lourenço, em Niterói, 38 foram retirados. Os outros 14, continuam impedindo o atracamento no Centro Integrado de Pesca Artesanal (Cipar), uma polêmica estrutura inaugurada em dezembro, mas que nunca funcionou.

Processo para a retirada das carcaças está parado

Ontem, o coronel José Maurício Padrone, chefe da Coordenadoria Integrada de Combate aos crimes Ambientais (CICA), orgão da Secretaria de Estado do Ambiente, disse que vai intimar amanhã, a Tanquefer — Comercial de Tanques Ltda, de Bangu —, e o paulista Nelson Batista Ruy, que venceram leilões para a retirada e destinação das carcaças do Canal de São Lourenço. Eles terão que explicar a paralisação da retirada dos cascos da região. Na sexta-feira, O DIA fotografou até uma antiga embarcação da Marinha ancorada no canal.

Em nota, a Marinha alega que a embarcação flagrada pelo DIA "já pertenceu" a corporação, mas foi leiloada e arrematada por um estaleiro (de nome não revelado). “A embarcação encontra-se localizada na área do mesmo (estaleiro). Portanto, não está abandonada em local indevido”, argumenta um trecho do texto.

O Inea informou que desde 2000 não são registrados acidentes graves com embarcações na baía. Mas não raramente o plano de contingência entra em ação para conter manchas e vazamentos de óleos. “Uma mancha de óleo diesel tratado pode ter um efeito de toxicidade maior que o óleo cru, provocando mortandade de seres marinhos por quilômetros”, ressalta o ambientalista David Zee.

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