Por thiago.antunes

Rio - Instalada em Bonsucesso desde a década de 1970 e desativada há nove anos, a fábrica de plásticos Tuffy Habib está servindo de moradia para mais de 500 invasores. Desde o fim de março, a ocupação irregular, com barracos de madeira e até de alvenaria, provoca tensão entre os moradores e comerciantes das redondezas da Estrada do Itararé, no Complexo do Alemão.

A reintegração de posse do imóvel de 12 mil metros quadrados já foi deferida, mas não há prazo de execução porque a Justiça aguarda o cumprimento de algumas medidas destinadas ao governo do estado e à prefeitura. Na decisão de reintegração do juiz André Fernandes Arruda, da 7ª Vara Cível do Méier, protocolada em 31 de março, o magistrado optou por não desocupar imediatamente o imóvel “em razão das peculiaridades do caso, o grande número de pessoas envolvidas na invasão e o histórico de conflitos recentes na região”.

Entrada do galpão da antiga fábrica de plásticos Tuffy Habib%2C na Estrada do Itararé%2C no Complexo do Alemão%3A invadido por 500 pessoasEstefan Radovicz / Agência O Dia

De acordo com o advogado do proprietário da fábrica, André Luiz Mendonça, o medo de uma nova confusão, como a ocorrida no mês passado durante a reintegração do terreno da Oi, no Engenho Novo, seria um dos motivos pela demora do cumprimento da liminar.

“O juiz pediu um tempo e alertou alguns órgãos para entrar na ação. A impressão que tive é que ele não quer causar tumulto, como aconteceu na Oi, porque estamos perto da Copa”, declarou Mendonça, que denunciou também o roubo de vários pertences de seu cliente no interior da fábrica.

“Roubaram muitas coisas. Desde computadores até móveis e material de escritório. Queimaram vários documentos da empresa também. Estamos sendo muito prejudicados e os prejuízos são irreparáveis”, completou. A 45ª DP (Complexo do Alemão) instaurou inquérito para investigar os roubos e apurar a invasão. Já foram realizadas cinco diligências ao local, e testemunhas também foram ouvidas.

Agência bancária%2C próxima à Nova Brasília%2C fechará por falta de segurançaEstefan Radovicz / Agência O Dia

No despacho, o juiz pediu à Defensoria Pública e às secretarias estadual e municipal de Desenvolvimento Social e Habitação que orientem e ofereçam auxílio aos ocupantes. Até ontem, nenhum dos órgãos citados pelo magistrado haviam sido notificados. O comando da Unidade de Polícia Pacificadora da Nova Brasília, comunidade vizinha à fábrica, também foi intimado.

Ontem, o comandante das UPPs, coronel Frederico Caldas, alegou que precisa de tempo para reunir as entidades públicas. “Temos que identificar quem são os líderes da ocupação, mas precisamos de tempo para criar uma estrutura com os órgãos públicos, pois queremos fazer uma desocupação sem grandes problemas”, declarou o comandante.

Ameaças de ocupantes assustam vizinhos da região

A invasão de populares na Tuffy Habib fica a menos de cinco metros da sede do Comando de Polícia Pacificadora. A presença maciça de policiais, no entanto, não garante a sensação de segurança entre moradores e comerciantes da região. Em um bar próximo à fábrica, funcionários alegaram que já foram obrigados a ceder bebida para os invasores. “Logo no ínicio veio um grupo aqui exigindo garrafas d’água. Ficamos com medo e demos”, revelou um funcionário que preferiu não se identificar.

Fábrica de roupas teve entrada bloqueada por invasoresEstefan Radovicz / Agência O Dia

Ao lado da fábrica, moradores de um conjunto habitacional também reclamam da invasão. “Desde que eles começaram a levantar esses barracos sofremos com o mau cheiro, pois lá não há banheiros e quase todos os dias eles colocam fogo em papel para fazer comida”, contou a dona de casa Analice Pedrosa, de 36 anos.

Fábrica ao lado tenta atrair cliente

Vizinha à Tuffy Habib, a fábrica de linho Franco Brasil, tenta se manter ativa em meio à ocupação irregular e à construção de camelódromos a sua volta. Para sinalizar a entrada da fábrica, que conta com uma pequena loja no seu interior, um acesso alternativo, com uma escada e uma pequena porta, foi construído. “Fizeram isso para não afastar mais os clientes. Antes, tinha gente que entrava pela porta da Tuffy pensando que era a Franco”, contou uma funcionária da fábrica de linho, que não quis se identificar.

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