Por marcello.victor

Rio - A nova paralisação de 24 horas decretada por rodoviários dissidentes, na noite de terça-feira, mais uma vez pegou passageiros que voltavam para casa de surpresa, na madrugada desta quarta-feira no Rio. Desta vez, o sufoco na volta do trabalho foi agravada pelo frio e pela chuva. A Secretaria Municipal de Transportes anunciou novamente um plano de contingência com reforço das linhas de ônibus que fazem integração com trens, metrô e barcas. A operação de horário de pico nos trens e nas barcas foi antecipada. A Rio Ônibus (associação das empresas) informou que os grevistas serão descontados pelo dia não trabalhado e podem ser demitidos por justa causa.

Passageiros tiveram problemas para pegar o ônibus na madrugada desta quarta-feira. Os rodoviários do Rio fazem a quarta paralisação em menos de um mês Osvaldo Praddo / Agência O Dia

Às 3h30, um segurança predial, de 43 anos, aguardava há uma hora e meia por um ônibus da linha 373 (Pavuna-Passeio) para chegar em casa, em Costa Barros, na Zona Norte. Ele tinha como opção os ônibus da linha 384, de mesmo itinerário. O morador, porém, preferiu não embarcar em um coletivo desta linha, que passou pela Central do Brasil às 3h, por questões de segurança.

"Moro do lado de Costa Barros dominado pela ADA (Amigos dos Amigos). Se pegar o 384 (via Guadalupe, Estrado do Camboatá) vou ter que soltar do lado que é dominado pelo CV (Comando Vermelho, facção criminosa rival a ADA) e aí pode ter represália", revelou o morador, que trabalha em Botafogo e pediu para não ser identificado por motivos de segurança. Como solução ele seguiu para a estação Central do Brasil do metrô para aguardar a abertura da estação, às 5h. Ele disse apoiar a reivindicação dos rodoviários, mas sugeriu que a paralisação fosse comunicada com antecedência a população, já que foi pego de surpresa com a greve.

A chuva também ajudou a agravar a situação de quem queria chegar em casa depois do trabalho, como o forneiro Sidnei da Silva Cruz, de 33 anos. Morador do Estácio, vizinho ao Centro, ele se recusava a ir a pé até em casa ou a pagar os R$ 4 cobrados por motoristas de vans na Central do Brasil, mesmo após duas horas de espera por um ônibus.

"Quando fui para o trabalho o motorista me alertou para a possibilidade de paralisação a partir de meia-noite. Na volta consegui um ônibus até a Lapa, mas não tinha mais ônibus rodando para a Zona Norte. Vim para a Central e até agora nada. Vou ficar esperando. Não vou a pé nessa chuva. Estou cansado", disse conformado o forneiro.

Algumas empresas adotaram a estratégia de manter uma quantidade de ônibus estacionadas nos pontos finais. No terminal de São Cristóvão, na Zona Norte, de onde saem ônibus das linhas 460. 461, 462 e 463 (todas via Túnel Rebouças) para a Zona Sul, 13 veículos da viação Real Auto Ônibus, do consórcio Intersul, permaneceram fechados e apagados desde a noite de terça-feira. No entanto, nenhum funcionário da empresa foi encontrado no local.

Durante a madrugada, a PM manteve viaturas baseadas na garagem de algumas empresas de ônibus. Até às 4h não havia registro de incidentes

Decisão em assembleia

Os rodoviários dissidentes anunciaram a nova paralisação de 24 horas da categoria, a partir da meia-noite desta quarta-feira, durante uma assembleia que reuniu cerca de 250 representantes, no Centro. Na próxima sexta-feira, o grupo fará outra reunião na Candelária para decidir os rumos do movimento. Eles caminharam pela Avenida Presidente Vargas, no sentido Zona Norte, até chegar à Central do Brasil. A via ficou interditada e foi liberada às 19h10

Em Niterói, dissidentes do Sintronac (sindicato que representa legalmente a categoria) chegaram a cogitar aderir à greve, mas optaram por realizar assembleia às 15h desta quarta para definir as próximas ações.

“O objetivo é dar um ultimato nos sindicatos patronal e dos trabalhadores. Mas eu duvido muito que isso vá ter efeito. Certamente, vamos decretar greve de 24 horas a partir do primeiro minuto desta quinta-feira”, disse o líder do movimento Marcos Zaca, de 43 anos, que trabalha há 12 na viação Rio Ita. O encontro será no Terminal de Niterói.

A Secretaria Municipal de Transportes do Rio anunciou um plano de contingência. Entre as medidas, está o reforço das linhas de ônibus que fazem integração com trens, metrô e barcas, e das que circulam em regiões atendidas exclusivamente pelos ônibus, como foi feito na greve dos dias 13 e 14 de maio. Nos trens, a operação de horário de pico (com capacidade máxima) foi antecipada em 90 minutos: a partir de 4h30. O funcionamento começa às 4h.

O metrô antecipou a operação com 100% da capacidade em 60 minutos, para 5h30. O horário de abertura do sistema está mantido para 5h. A Polícia Militar informou que reforçará o patrulhamento na saída das garagens dos quatro consórcios e nas estações do corredor BRT Transoeste.

Em Duque de Caxias e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde também há expectativa de paralisação, ainda não houve decisão. Em nota, o Sintraturb pediu que os trabalhadores não façam greve, pois as empresas de ônibus podem demitir os profissionais que participarem da paralisação.

Com faixas, adesivos e carros de som, a categoria protestou pacificamente na Cinelândia até o anúncio da greve. Por volta das 18h, um momento de tensão marcou o ato quando o secretário-geral do Sintraturb, Antônio Bustamante, apareceu na Candelária. Os grevistas pediram que ele subisse no carro de som para falar do posicionamento do sindicato e, diante da recusa, houve empurra-empurra. A PM interviu, mas não houve agressão.

"Poucos líderes desse movimento dissidente estão usando à classe trabalhadora como massa de manobra para uma manifestação bem mais abrangente contra o governo do Estado, a prefeitura do Rio e que incluí até apoio ao movimento Não Vai Ter Copa", disse Bustamante, que afirmou ainda que o Sintraturb não vai rever seu posicionamento.

Cerca de 30 PMs do Batalhão de Policiamento em Grandes Eventos (BPGE) acompanharam o protesto. O principal líder dos rodoviários, Hélio Teodoro, declarou que esperava ações mais conclusivas por parte do Ministério Público do Trabalho, cujos representantes se reuniram com as lideranças no começo desta tarde. "Achava que teríamos algo mais conclusivo, mas fomos escutados e não houve alguma decisão efetiva", lamentou Teodoro.

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