Por thiago.antunes

Rio - Uma receita de irregularidade. Paga pelo Ministério da Saúde para coordenar a equipe médica do Instituto Nacional de de Cardiologi, a diretora Cynthia Karla Magalhães não se dedica em tempo integral a cuidar da unidade — como recomenda o cargo. Aliás, a sua atribulada agenda profissional a obriga a dividir as tarefas com o trabalho no hospital da Amil Total Care e no seu consultório particular, na Barra da Tijuca.

O dia da médica é uma correria. A terça-feira é a mais intensa e sem espaço para o INC: começa às 7h na coordenação médica do Total Care, de onde emenda direto para o consultório, na Avenida Ruy Frazão Soares. O expediente termina às 18h, mas o trabalho se estende por pelo menos mais uma hora. Há sempre pacientes à espera dos encaixes — as vagas são preenchidas com a antecedência de um mês.

Apesar das faixas%2C direção do INC alega que hospital funciona normalmenteAlessandro Costa / Agência O Dia

No Total Care — à exceção de terça —, Cynthia Magalhães cumpre jornada semanal sempre na parte da tarde — somando 30 horas de serviço, conforme o cadastro no Ministério da Saúde. No consultório, tem mais meio expediente, às sextas, que dá um total de 40 horas semanais. Uma carga horária explosiva, se somadas as 44 horas que a cardiologista deveria trabalhar no Instituto de Cardiologia. Além da matrícula na União de 24 horas de trabalho no hospital, ela passou a receber por mais 20 horas ao assumir a direção. Mais: deveria ter dedicação integral, o que as 84 horas semanais na agenda a impedem de cumprir.

Jogo de empurra

A diretora técnica do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), Cynthia Magalhães, responsabilizou ontem a mulher que pediu ajuda na portaria da unidade pela falta de atendimento que levou o fotógrafo Luiz Marigo à morte na porta do hospital, em Laranjeiras, na segunda-feira. Em entrevista ao Bom Dia Rio, da Rede Globo, ela disse: “Nenhum membro da equipe médica ou de enfermagem foi notificado da existência deste paciente passando mal dentro do ônibus. O que a equipe de portaria e segurança nos alega é que foram abordados por volta de 11 horas da manhã por uma senhora, que a gente presume que seja passageira do ônibus, dizendo se alguém poderia ver um paciente que estaria passando mal na rua. Diante disso, foi informado que não temos uma unidade emergência.”

Cerca de 200 parentes e amigos se despediram%2C nesta terça%2C de Luiz Marigo no cemitério de São João Batista%2C em Botafogo%3A clima de revoltaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Questionada sobre o fato de a avaliação do caso ter sido delegada a um vigilante, ela alegou que houve “falha na comunicação”: “Não foi passado para ele adequadamente a gravidade do que estava acontecendo. Eu acho que foi erro de avaliação, de comunicação da pessoa que transmitiu a informação. A pessoa se expressou de maneira insuficiente em relação à gravidade”, completou a diretora, sem explicar como um leigo poderia fazer uma avaliação clínica.

A família de Luiz Cláudio Marigo contratou o advogado Márcio Donnici para acompanhar as investigações. Segundo Donnici, além do processo criminal, a família estuda a possibilidade de mover ação civil contra a União e o instituto, com pedido de indenização. O objetivo seria usar o dinheiro para criar uma fundação e preservar a obra de Marigo, de reconhecimento internacional.

Marigo passou mal dentro de um ônibus da linha 422 e o motorista buscou socorro no INC. Na unidade, um vigilante informou apenas que ali não havia emergência e mandou que chamassem a Samu. Dezenas de pessoas se aglomeraram, mas nenhum médico saiu da unidade. “No mínimo, foi omissão de socorro”, acentuou Donnici.

Luiz Cláudio Marigo%2C de 63 anos%2C era fotógrafo especializado em natureza. Ele morreu na segunda-feira após sofrer um infarto e não ser socorrido no INC%2C em LaranjeirasReprodução Facebook

“Errei ao procurar o INC. Eu dei sorte. Marigo, não.” - Caio Barbosa, jornalista do DIA, 37 anos

“A reação que tive ao ler a notícia da morte do colega Marigo me remeteu, imediatamente, a um problema semelhante que eu mesmo tive no final de 2011, aos 34 anos. Era início da manhã quando eu comecei a sentir dores agudas no peito. Naquela época, eu morava no início da Rua Alice, a pouquíssimos metros do Instituito Nacional de Cardiologia. A reação imediata foi descer a rua e procurar auxílio no hospital, visto que nunca antes havia tido problema cardíaco.

Eu não fazia a menor ideia de que não havia serviço de emergência no INC, mas imaginei que seria atendido, que alguém me ofereceria algum tipo de ajuda ou orientação. Jamais passou pela minha cabeça que um dia entraria num hospital infartando e não seria atendido. Ainda mais em um hospital de cardiologia. 

Ainda tive forças para tomar um táxi rumo à UPA de Botafogo, onde fui prontamente atendido e informado pelos médicos que poderia ter morrido se não fosse socorrido a tempo. Hoje tenho apenas duas certezas: de que errei ao procurar o INC, e o de não ter processado a instituição. Eu dei sorte. Marigo, não.

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