Por felipe.martins

Rio - Quando Colômbia e Uruguai entrarem em campo hoje à tarde, no Maracanã, choverão nas redes sociais piadinhas referentes aos dois países. Afinal, os colombianos são os maiores produtores de cocaína do planeta, e os uruguaios acabaram de legalizar, produção, comércio e consumo de maconha.

Mas o tema vai além de qualquer piada. Numa cidade como o Rio de Janeiro, palco da partida, as políticas públicas relacionadas às drogas estão sempre em xeque. Os desafios são gigantescos. Mas nossos vizinhos do continente têm, segundo especialistas, dado importantes passos à frente nesse campo.

“São países que estão questionando a política proibicionista de maneiras distintas. O Uruguai optou por políticas de preservação da juventude ao entender que o tráfico é um problema mais grave que o consumo.

Já na Colômbia, a noção de combate ao tráfico por vias militares caiu por terra”, explica o psicanalista Aldo Zaiden, que integrou o Conselho Nacional sobre Drogas do Ministério da Saúde.O delegado fluminense Orlando Zaccone, apaixonado por futebol, é defensor ferrenho de uma mudança nas políticas sobre drogas no Brasil. E também acredita que nossos vizinhos estejam na frente nessa luta.

Presidente uruguaio Pepe Mujica aprovou o cultivo e a comercialização da maconha a maiores de 18 anosEfe

“A Copa é patrocinada pela droga. Meu filho de 6 anos assiste aos jogos bombardeado por propaganda de droga, que é o álcool. Se existe uma política séria para enfrentar esse problema, é no Uruguai, que regulamentou produção e comércio de maconha, e ao mesmo tempo proibiu propaganda de álcool”, elogiou Zaccone.

Na avaliação do delegado, não há política para drogas no país, mas apenas um combate às consideradas ilícitas. Que, segundo ele, ano após ano mostra não dar certo.“E eu nem falei em relação à violência porque é algo óbvio. Falo em relação a consumo. A única política sobre drogas que tivemos se restringiu ao tabaco. E funcionou. Está na hora de olharmos o restante”, acrescentou o delegado.

Para o vereador Renato Cinco (Psol), se o Brasil é o país do futebol, ainda falta muito para chegar ao protagonismo numa política que reduza a violência do tráfico. “O Uruguai, por exemplo, está ganhando a Copa dos direitos individuais por 3 a 0. Que nos sirva de exemplo”, opina o vereador.

Nesta competição por alternativas no combate aos males do tráfico, o time uruguaio tem se reforçado. Nos EUA, a maconha foi legalizada no Colorado e em Nova York é permitido seu uso medicinal. Holanda, Marrocos, México e Guatemala também estudam regulamentar produção e consumo da maconha.

AS DROGAS NA VIZINHANÇA

URUGUAI

A legalização da maconha no Uruguai ainda é vista com desconfiança e, principalmente, desinformação. Não haverá estímulo ao consumo, mas o inverso. Os uruguaios querem reduzir o número de usuários e acabar com o tráfico, que assim como no Rio de Janeiro, mata mais do que a dependência química.

Só poderão comprar maconha maiores de 18 anos e registrados por impressão digital. Turistas e estrangeiros estão vetados. O cultivo será restrito a 480g anuais.

A venda só poderá ser feita em farmácias licenciadas, e cada usuário poderá comprar no máximo 10g por semana. E serão criados centros de tratamento em todas as cidades com mais de 10 mil pessoas.
Quem descumprir a lei será preso, com penas que podem chegar a 10 anos de detenção.

COLÔMBIA

O país já foi internacionalmente conhecido como a terra de Pablo Escobar, traficante que foi responsável por 80% da cocaína produzida no planeta, e dos famosos cartéis de Cali e Medellín.

“O Estado colombiano é a maior vítima do tráfico no mundo. E entendeu que não se combate isso com a força, com o Plano Colômbia”, lembrou o psicanalista Aldo Zaiden, citando a estratégia financiada pelos EUA que gastou bilhões de dólares e não obteve resultado.

O governo colombiano, que recentemente assinou acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias (Farc), descriminalizou o usuário de drogas, mas usa estratégia diferente do Uruguai. A Colômbia estimula o desenvolvimento em áreas que eram controladas pelo tráfico, o que tem resultado num crescimento econômico maior do que o do Brasil.

Rio precisa ir muito além das UPPs

A política de segurança adotada no Rio de Janeiro teve inspiração no modelo adotado na Colômbia, mas segundo os especialistas ficou no meio do caminho. É preciso ir além.

“Não existe pacificação única e exclusivamente com ocupação. Isso não é paz. É guerra. É preciso ter soluções verdadeiras, que ultrapassem as UPPs. É preciso levar médicos, professores e investimentos às favelas”, opina o vereador Renato Cinco (Psol).

O psicanalista Aldo Zaiden tem opinião semelhante. “O problema não é a UPP, mas o fato de o programa das UPPs estar sendo feito pela metade”.

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