Por adriano.araujo

Rio - Carlos, hordas de turistas que cá aportaram para o Mundial de Futebol caminham sem rumo no Largo do Poeta, sem perceber que “toda história é remorso”, como diz teu verso eternizado nas pedras portuguesas. Aos ingleses, além de convidá-los a reduzir o passo e apreciar onde pisam, seria conveniente advertir que a Elisabeth das placas da avenida que liga Copacabana a Ipanema não se trata da que veneram, mas sim a xará da Bélgica, que veio nos visitar em 1920 com o marido, o rei Alberto I, e que por esta cortesia mereceu a homenagem. A monarca belga parece ser pé-quente: seus conterrâneos seguem na Copa, enquanto os ingleses já tomaram o caminho de casa.

Nem todos, é verdade. Muitos súditos da rainha-mãe perambulam pela Princesinha do Mar com suas vistosas camisas de jogar futebol, e até angariam a fama de educados. No nosso Posto 6, o clima de vizinhança digna de subúrbio deu lugar a uma babel de falas e jeitos. Mas, por menos crível que possa parecer, o sentimento por aqui não é de uma invasão bárbara. Os forasteiros são amistosos, caçoam uns dos outros em clima civilizado, e alguns chegam mesmo a nos lembrar aquele vizinho do 302, tal a cordialidade no trato. Vi um suíço agradecer com um abraço a indicação feita por um porteiro da Rua Sá Ferreira sobre o banco mais próximo. Era meio-dia, ele nem tinha tomado a primeira caipirinha, e suíço acha banco pelo olfato. Mas o gesto me pareceu sincero.

Diante da estátua de Carlos Drummond de Andrade%2C o australiano de chapéu cruza com pai e filho camaroneses a caminho do marAlexandre Medeiros / Agência O Dia

Fui almoçar na Americana no dia do jogo entre Uruguai e Itália. Aquela mesa cativa do Fernando Sabino estava ocupada por um grupo de colombianos, alguns vestidos com a camisa canarinho. Adriano, o garçom mais antigo da casa, resumiu em uma frase o movimento desses dias: “O que menos se ouve por aqui é gente falando português”. Havia uruguaios, italianos, dois russos espirituosos, chilenos, franceses e, é claro, os ingleses. Gaiato daquele jeito, o Sabino era bem capaz de imitar os ingleses cochichando sobre uma torcedora colombiana digna de ostentar a camisa 10.

Pedi a conta ainda com o 0 a 0 no placar e fui dar uma volta ali pela nossa área, passei bem em frente ao 60 da Rua Conselheiro Lafaiete, onde moraste. Aquele porteiro botafoguense continua lá, gente boa. Uma fila de coreanos esperava para comer churrasco a quilo na Nossa Senhora, R$ 35 o bufê livre. Tiravam fotos até da moça que entregava as comandas, ostentavam um sorriso inabalável. No Follies Bar, na Sousa Lima, tinha gente em pé na rua para assistir os últimos minutos da batalha entre uruguaios e italianos. Foi dali, ao lado do chaveiro e de dois americanos, que vi a Celeste passar para as oitavas. E antes que o Loco Abreu dissesse o mesmo na TV, o chaveiro sentenciou: “Esses caras são foda”.

É, poeta, aquele anjo torto que te disse para ser gauche na vida espalhou a profecia em outras paragens. Pois de canhestros e desajeitados de vários países é composta a nossa Copacabana nesses dias de Copa do Mundo. E nem é preciso ir à tal Fan Fest da Fifa, lá pelas bandas do Lido, que aquilo mais parece réveillon com shows de pagode e música baiana. Estou falando da rotina da padaria, do açougue, da casa lotérica, desse cantinho de Copa, daquele itinerário que você fazia de casa até sentir a maresia no rosto. É esse universo que está de pernas para o ar. Ainda bem.

Sabe aquele banco no calçadão onde você sentava para apreciar a turma da rede de vôlei do Posto 6, os pescadores chegando com os barcos coalhados de vermelhos e namorados? E as moças ajeitando as cangas na areia, que ninguém é de ferro? E nem de bronze, como a estátua que lhe fincaram em homenagem naquele mesmo banco de tantos anos? Pois é. Virou atração turística, parada obrigatória para fotos.

Te imagino, com aquela timidez secular, ajeitando os óculos para posar ao lado de uma morenaça chilena de seios tão fartos quanto o sol desse inverno carioca. E aquele vaivém de gente de tantos lugares distantes da sua Itabira. Ali registrei uma cena tocante. Pai e filho camaroneses passaram em direção ao mar. Precisava ver a alegria do menino ao molhar os pés na água, saltar uma marola. Nossa cidade tomada de felicidades alheias reescreve o verso que serve de epitáfio para tua estátua: “No mar estava escrita uma cidade”.

No caso, poeta, acho que você vai concordar. No mar estava escrito o mundo inteiro.

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