Por felipe.martins

Rio -  A vasta cabeleira cacheada não é mera coincidência. Fã incondicional do zagueiro David Luiz — autor do segundo gol da Seleção e que mandou a Colômbia para casa ontem —, o pequeno francês Ryan Bartan Prates, de 6 anos, deixou de lado sua nacionalidade e declarou todo o amor à bandeira brasileira.

Quando o juiz deu o apito final e o Brasil na semifinal, o garoto e outras 20 mil pessoas que lotaram as areias de Copacabana ontem, explodiram num único coro: “O campeão voltou!”.
“Sou brasileiro de coração. Vim para o Rio só para ver o David Luiz ser campeão com a Seleção. Depois deste jogo, vamos ganhar a Copa”, decretou, entre lágrimas, o menino que vive fora do país com a mãe, Andreia Prates, 44 anos.

Os cariocas não tiraram os olhos do telão por nenhum minuto: roeram as unhas, gritaram e rezaram. Mas a irreverência não faltou à torcida, de Carmem Miranda até estrangeiros virando a casaca. “Meu país não tem tradição no futebol, então virei brasileiro. Vou assistir o hexa do Brasil aqui em Copacabana”, avisou o cubano Manoel Dias, 51.

Grupo fez roupa especial para levar boas energias aos jogadores da Seleção Brasileira durante a partida contra a Colômbia no Alzirão%3A deu sorte e será mantida no próximo João Laet / Agência O Dia

Vestido como o vilão Darth Vader de ‘Guerra nas Estrelas’, o vigilante Marcio Andrade, 48, se destacou na multidão de 30 mil pessoas que lotou as ruas da Tijuca. “Quem sabe não dá um susto nos colombianos?”, brincou.

À vontade, a família Tanus arranjou jeitinho bem popular para se acomodar na orla de Copacabana. “Trouxemos cadeiras de praias de casa para evitar o cansaço”, contou a empresária Alexandra, 46, apontando para o caixote de isopor onde levou bebidas.

Ao lado deles, a queridinha dos brasileiros e a mais requisitada pelos gringos, a caipirinha fez sucesso entre os torcedores que estavam na Arena Fifa Fan Fest. Com uma bandeja numa mão e a bandeira da Seleção na outra, a ambulante Roselane Melo, de 23 anos, tentava atravessar a multidão verde e amarela.

“Aqui não tem tempo ruim, a gente vai vendendo e torcendo ao mesmo tempo”, disse ela, que faturou cerca de R$ 250 para complementar renda.

Lances principalmente no final da partida deixaram torcedores tensos. Vestido de Davizinho Luiz%2C menino se divertiu na trocida pela SeleçãoFernando Souza / Agência O Dia

Arrancando suspiros, as quatro musas da torcida do ‘Alzirão’, que levantavam placas com o resultado do jogo, escutaram, com bom humor, cantadas e pedidos de casamento. “Já me falaram que o meu bumbum igual ao do Hulk”, divertiu-se a ‘Alzitere’ Luciana Faria, 29. “A gente leva com bom humor. O importante é representar o torcedor brasileiro com samba no pé, alegria e simpatia”, disse.

Nossos próximos adversários, os alemães também caíram na festa. “No jogo que vem vai ter muita rivalidade. Mas agora é hora de comemorarmos juntos”, resumiu o advogado Sven Waldebach, 43.

Cariocas com fome de bola e de comida

Por diversão ou superstição, o prato do dia de jogo do Brasil é, em muitas casas, o personagem principal. Com a intenção de ‘engolir’ o adversário e manter as vitórias, cariocas vão para a cozinha matar a fome de bola da família e amigos.

Ontem, o consultor comercial Ricardo Boris Henningsen, 46, preparou iguaria colombiana: ceviche de polvo com manga. Membro do grupo Ogrostronomia, ele conta como surgiu a ideia dos pratos típicos da Copa.

“A Copa é uma oportunidade de conhecermos mais da cultura de outros países. E a comida é a parte palpável da experiência”, explica o Ogro, como se chamam os amigos do grupo, que posta vídeos com receitas na internet.

O espaguete ao alho e óleo improvisado no primeiro jogo do Brasil deu tanta sorte para a cozinheira Consuelo Tupam, 48, que agora não sai mais do cardápio. “Não posso mudar agora, tenho que fazer o mesmo prato até o final. Mas, se ganharmos, faço feijoada e chamo os amigos”, afirma.

Dança para tirar onda com os rivais

Foi com a coreografia do ‘Armeration’ — dança criada pelo lateral colombiano Armero nos gramados de futebol em alusão ao ‘Rebolation’ — que torcedores brasileiros comemoraram a vitória na Arena Fifa Fan Fest. “Os colombianos sempre faziam questão de comemorar cada gol neste Mundial com uma dancinha. Agora é a nossa vez de festejar e desejar uma boa volta para casa a eles”, comemora Gabriel Soares, 25, que percorreu 1.087 quilômetros de Santa Catarina até o Rio:

“Assistir ao jogo na Cidade Maravilhosa não tem preço. Os cariocas são animados e muito receptivos”.
A engenheira de produção Sabrina Ferreira, 23, arrastou suas amigas para a Arena, mas ficou do lado de fora: “Não conseguimos entrar porque já estava lotado, então vamos curtir aqui do lado de fora mesmo”.

Na Rua Mem de Sá, na Lapa, motoristas de ônibus ‘abandonaram’ os veículos e foram a bar assistir ao jogo e comer churrasco. E só voltaram a circular no apito final. “A gente também é brasileiro, né?”, brincou um deles.

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