Polícia investiga empresa de sobrinho de presidente da Fifa

Philippe Blatter comanda a Match, autorizada pela entidade a vender ingressos

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - O sobrinho de Joseph Blatter, presidente da Fifa, pode ser alvo da investigação que identificou uma quadrilha internacional de cambistas em atuação na Copa do Mundo. O executivo Philippe Blatter é presidente da Match Services, empresa autorizada pela entidade organizadora do Mundial a vender os ingressos dos jogos.

Na quinta-feira, o delegado Fábio Barucke, da 18ª DP (Praça da Bandeira), revelou que um funcionário da empresa é suspeito de fazer parte do bando. Ontem de manhã, dois funcionários da empresa foram à delegacia em busca de informações sobre a operação que resultou na prisão de 11 suspeitos. Entre eles, o francês de origem argelina Mouhamadou Lamine Fofana, acusado de chefiar o esquema que movimentava cerca de R$ 200 milhões por Copa do Mundo, desde 2002.

“É uma possibilidade (que Philippe Blatter seja investigado), porque há ingressos da Match Services apreendidos na operação. Nenhuma linha de investigação pode ser descartada”, disse o promotor Marcos Kac, da 9ª Promotoria de Investigação Penal (PIP).

Agente escolta, na última terça-feira, o franco-argelino Mouhamadou Lamine Fofana (à frente) e suspeitos da venda ilegal de ingressos da CopaSeverino Silva / Agência O Dia

Philippe não é o único parente de pessoas ligadas à cúpula da entidade que teve o nome ligado à Operação Jules Rimet — como foi batizada a ação. O argentino Humberto Grondona, filho de Julio Grondona, vice-presidente da Fifa e mandatário da Associação de Futebol Argentina (AFA), admitiu, em entrevista dada ontem ao canal TyC Sports, ter vendido entradas a um amigo. No dia anterior, o jornalista argentino Andrés Burgo publicou em sua conta no Twitter a imagem de um dos bilhetes apreendidos na operação com o nome de Humberto.

A polícia continua atrás do ‘tubarão’ da cúpula da Fifa que ainda não teve a identidade revelada. O dirigente é apontado pela investigação como o principal responsável pelo desvio de ingressos que abasteciam a quadrilha chefiada por Lamine.

O argelino é dono da Atlanta Sportif International, empresa de consultoria a jogadores e clubes, que também organiza amistosos. No site da empresa, Lamine aparece em fotos ao lado de atletas, ex-atletas e celebridades. Em uma das imagens, ele aparece posando ao lado de Joseph Blatter.

‘Não preciso do dinheiro’, diz argentino

Membro da delegação argentina, técnico da seleção sub-20 do país e instrutor da Fifa, Humberto Grondona demonstrou irritação durante a entrevista dada ao TyC Sports. “Você acha que eu me mancharia por 220 dólares? Não f... Graças a Deus eu não preciso desse dinheiro. Vendi porque queria ajudar um amigo”, explicou.

Ele disse, ainda, ter comprado 26 ingressos para jogos da fase classificatória e de todas as etapas do mata-mata. “Comprei porque sempre há amigos que querem vir e queria presenteá-los, queria que passassem bem. Nesse caso, até as oitavas vendi entradas a um amigo que acabou de me dizer que as deu a outro amigo para ele ir com sua família”, disse.

Questionada sobre o escândalo, a porta-voz da Fifa, Delia Fischer, ressaltou a necessidade de se obter mais informações sobre o caso antes de qualquer conclusão. “Estamos trabalhando junto com as autoridades, mas não podemos comentar em cima de rumores. O combate à venda ilegal de ingressos é uma prioridade da Fifa”, argumentou.

Papo com irmão de craque

O argelino Mohamadou Lamine Fofana foi flagrado em uma escuta telefônica obtida com exclusividade pelo DIA em uma conversa de cinco minutos com o empresário Roberto de Assis Moreira, irmão e representante do jogador Ronaldinho Gaúcho, do Atlético Mineiro, combinando a venda de ingressos para a Copa do Mundo no Brasil.

No diálogo, registrado no dia 17 de junho, Assis, que jogou pelo Grêmio, entre outros clubes do Brasil, liga para saber se Lamine ainda tinha ingressos para dois amigos dele, que estariam interessados nas entradas.

“Dois amigos seus me ligaram e tivemos um pequeno problema. Ele me ligou e, 15 dias depois, achou que o ingresso era o mesmo. E eu não sou cambista”, disse o argelino. O ex-jogador Dunga também foi flagrado em escutas.

Em um vídeo feito por um policial quando ele foi preso, na terça, Lamine disse que o adesivo da Fifa no seu carro dá acesso aos estacionamentos dos estádios. E negou participar de uma quadrilha de cambistas, dizendo que conseguiu as entradas apreendidas com ele no Copacabana Palace para ver os jogos com seus parentes.

Em outro vídeo obtido pelo DIA, Lamine aparece pagando quase R$ 10 mil em uma loja no Aeroporto Santos Dumont, no Centro, apenas em garrafas de uísque no formato de chuteiras. As bebidas foram dadas a ex-jogadores da seleção brasileira em um evento organizado por ele, semana passada.

Polícia flagra 44 cambistas no entorno do Maracanã

O jogo entre França e Alemanha, ontem à tarde, no Maracanã, deu muito trabalho à policia. Ao todo, 44 pessoas foram conduzidas para quatro delegacias na região ao serem flagradas enquanto negociavam a venda de ingressos para a partida válida pelas quartas de final da Copa do Mundo.

A maioria das detenções foi feita com o auxílio de policiais militares infiltrados entre os torcedores. Foi o que ocorreu quando o consultor de marketing alemão Florian Sebastian Kirchner, de 29 anos, entregou R$ 1.500 em dinheiro por apenas uma entrada.

Dois suspeitos são pegos por policiais militares tentando negociar entradas no entorno do MaracanãAlessandro Costa / Agência O Dia

“Eram duas meninas brasileiras. Elas não falavam inglês nem alemão. Então, me mostraram o ingresso e o valor no celular. Quando eu dei o dinheiro, os policiais apareceram e se identificaram. Isso (comprar ingressos com cambistas) acontece em frente a qualquer estádio do mundo. Estou frustrado”, lamentou o alemão, enquanto tentava ver parte do jogo pela TV de um restaurante em frente à 18ª DP (Praça da Bandeira).

O também alemão Patrick Hempelman, 46, passou pela mesma situação. Com dois ingressos em mãos, ele tentou comprar outra entrada para ver o jogo com a mulher e o filho de 12 anos. “Foi muito triste, porque perdi uma oportunidade única”.

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