Rio - Não é sempre que jornalista pode tirar folga em plena Copa do Mundo para ver o jogo do Brasil num bar com os amigos ou no aconchego do lar. Aliás, é quase nunca. Neste Mundial, não raro sofro as agruras de nosso escrete canarinho na Redação do DIA. Como num bar de Copacabana ou numa vila do Méier, as reações são diversas, já que toda Redação é um extrato da sociedade. Há as meninas que perguntam o que é impedimento, as rixas clubísticas, o desespero com um passe errado, a explosão do gol. Vez por outra, para não perder contato com o universo exterior, abro a janela que dá para a rua. Assim foi na sexta-feira.
Depois do primeiro gol do Brasil, aquelas cornetas e buzinas irritantes eclodiram. Gringos perdidos pela Lapa correram para ver pela TV mais próxima de quem tinha sido o gol. Um habitante aqui da Rua dos Inválidos, a quem alguns chamam de Bispo do Rosário, talvez pelo misto de simpatia, talento e desvalia, esbravejava pelo barulho. Quando David Luiz fez o segundo gol, a rua virou festa, e das janelas do condomínio que fica em frente ao prédio do jornal vieram gritos que pareciam engasgados há milênios.
O tento de pênalti de James, o craque colombiano, trouxe de volta a agonia, nessa gangorra de emoções. A Rua dos Inválidos pareceu evacuada por alguma emergência, não se via alma. Com o apito final, veio de novo a algazarra, a rua se encheu de garotada enrolada na bandeira do Brasil, de gringos de garrafa na mão. A saída de Neymar de maca, pouco antes do fim do jogo, foi diluída nessa tempestade de felicidade.
Por pouco tempo. Com a notícia de que nosso camisa 10 havia fraturado uma vértebra e estava fora da Copa, mudou o semblante de todo mundo. Ou quase. Quem nem sabia da notícia ou estava anestesiado de alegria seguiu seu rumo. Mas teve gente chorando, de cabeça baixa, triste. A agressão do colombiano, que acabaria em briga numa pelada, passou batida. E o sofrimento de Neymar na maca mergulhou a todos na sofreguidão.
Não vi, mas meu pai me contou. Em 1962, Pelé se machucou no segundo jogo da Copa no Chile. Tinha um ano a menos que Neymar e era nossa estrela. A fisgada na coxa abateu o país, que vinha embalado pelo título de 1958 e apostava as fichas no craque para chegar ao bi. Um outro moleque, de 22 anos, foi escalado para suprir a ausência de Pelé: Amarildo, o Possesso. Meu pai gostava de contar essa história por dois motivos. O primeiro era que, com a entrada de Amarildo, a Seleção de 1962 era praticamente o Botafogo — comandada pelo gênio Garrincha. A segunda era para mostrar que, mesmo diante de um trauma terrível, pode não ser o fim do mundo. E sim o início de uma virada.
O resto da história, o mundo já sabe. Com Garrincha (4 gols) e Amarildo (3 gols) endiabrados, o Brasil levantou o bi. A perda de Pelé uniu o time, e cada um buscou suas crenças e motivações para não deixar o barco afundar. Garrincha prometera a Copa a Elza Soares, e esse ingrediente de paixão deve ter contribuído para torná-lo inalcançável aos marcadores. Consta que o próprio Pelé pediu a Amarildo que jogasse como fazia no Botafogo. O Possesso não sentiu o peso, jogou com alegria, e deu no que deu.
Aos torcedores que passaram cabisbaixos na Rua dos Inválidos com a perda do Neymar, queria dizer que a Copa não acabou para nós. Não temos Garrincha, nem Amarildo. Mas o time do Felipão pode ser movido por suas crenças e pela união em torno do trauma. Queria dizer aos meninos enrolados nas bandeiras que confiem nos meninos de chuteiras, porque a gente sempre pode achar lá dentro da gente um motivo para seguir.