Por felipe.martins

Rio - A venda ilegal de ingressos da Copa, revelado pela polícia carioca na semana passada com a prisão de 12 pessoas, seria a ponta do iceberg de um esquema milionário que envolveria até patrocinadores da Fifa. A revelação foi feita em relatório enviado ontem ao DIA por um agente de viagens europeu, que detalha uma organização envolvendo agências internacionais especializadas na venda de entradas em grandes eventos.

O gerente-executivo Raymond Whelan pediu afastamento do cargo da Match Services, que vendia com exclusividade os ingressos da Copa Osvaldo Praddo / Agência O Dia

Ele diz que o problema descoberto pela polícia é apenas uma pequena parte. “A Match Services (que tem a exclusividade na venda de ingressos da Copa) é só uma firma. E não é nada se comparada com todos os ingressos que são revendidos a preços mais de dez vezes superiores ao valor original. Há um mercado negro que envolve patrocinadores”, disse o agente, que pediu anonimato.

Segundo a denúncia, que será repassada hoje ao Ministério Público, os patrocinadores da Fifa possuem 63% dos ingressos do Mundial. E pessoas ligadas a eles os vendem a intermediários. Os bilhetes param nas mãos de agências internacionais de turismo, que negociam o acesso às arquibancadas dos estádios nos jogos a valores bem acima do mercado.

A especulação aumentou esta semana, às vésperas da decisão da Copa, domingo, no Maracanã. Segundo a denúncia, os ingressos de categoria 1, que custam R$ 1.980, são repassados às agências por R$ 4 mil — o dobro do preço. E estariam sendo oferecidos a interessados em assistir ao jogo final por até 15 mil dólares (equivalentes a R$ 33.192).

As agências ofereceriam ainda acesso aos melhores hotéis e restaurantes do Rio, garantindo transporte para o Maracanã. “É um pacote completo. Eu sei desses valores porque houve interesse de clientes chineses. Mas eles desistiram porque acharam os valores muito altos”.

O agente europeu disse ainda que o esquema funciona há pelo menos 20 anos. E, segundo ele, a entidade organizadora da Copa tem conhecimento da venda ilegal de ingressos. “Mas a Fifa não tem interesse em investigar, porque depende dos patrocinadores. Isso (venda ilegal de ingressos) não é surpresa para quem trabalha na indústria. Mas o esquema nunca foi investigado dessa forma. Ninguém imaginava que a polícia brasileira iria atrás da Fifa dessa forma. Na Copa do Mundo na África, a venda de ingressos ocorria livremente”, avaliou.

Segundo a investigação feita pela 18ª DP (Praça da Bandeira), o esquema envolvendo a máfia dos ingressos movimentava cerca de R$ 200 milhões nas últimas quatro Copas do Mundo. Uma empresa de turismo da Europa, inclusive, oferece — e já vendeu centenas —, em seu site pacote de ingressos da disputa de terceiro lugar, da final e até de outros eventos. “A Copa do Mundo será decidida no país do futebol. Uma experiência única na vida”, escreveu o site.


Promotor irá avaliar a denúncia

O promotor Marcos Kac, da 9ª Promotoria de Investigação Penal (PIP), que deve denunciar a máfia dos ingressos hoje, disse que irá avaliar o relatório enviado pelo agente europeu ao DIA. “Mas ainda é prematuro falar sobre algo que ainda nem foi investigado. Agora, estou analisando os elementos do inquérito para embasar a denúncia”, explicou.

A reportagem do DIA enviou e-mail à Fifa, pedindo resposta sobre o assunto. Mas não obteve resposta até as 22h30 de quarta-feira.

A Polícia Civil entregou, ontem, o inquérito ao MP, pedindo a prisão preventiva de 11 dos acusados de participar do esquema. Marcos Kac tem um prazo de cinco dias para estudar o conteúdo do inquérito, que é sigiloso.

Polícia Civil pede prisão de 11 dos 12 acusaados de integrar esquema

A Polícia Civil pediu prisão preventiva de 11 dos 12 acusados de integrar o esquema. Entre eles, está o francês de origem argelina Mohamadou Lamine Fofana, acusado de chefiar o esquema que está preso desde a semana passada, e o britânico Raymond Whalen, capturado na segunda-feira e liberado na madrugada seguinte, por meio de um pedido de liberdade provisória.

Apontado como o ‘tubarão’ da Fifa, Whelan era gerente-executivo da Match Services, empresa que tem a exclusividade da venda de ingressos na Copa. E pediu para se afastar do cargo ontem. Ele é acusado pela investigação de ser um dos principais fornecedores de ingressos da quadrilha. Acabou indiciado por associação criminosa e por facilitar o recebimento de ingressos a cambistas, delito previsto no Estatuto do Torcedor.

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