Rio - Eles ajudaram a mobilizar duas classes de trabalhadores e recentemente lideraram dois importantes movimentos grevistas no Rio de Janeiro. Nas eleições de 2014, porém, querem trocar o som distorcido das ruas pela qualidade do áudio que ecoa nas casas legislativas. Hélio Teodoro, líder da greve dos rodoviários deste ano, é candidato a deputado estadual pelo recém-nascido Partido Ecológico Nacional (PEN), enquanto Cabo Daciolo, figura importante nas manifestações dos bombeiros em 2011, quer uma vaga de deputado federal pelo Psol.
O carioca viveu dias difíceis quando os ônibus não circularam em alguns dias de maio. Hélio Teodoro era, desde o começo do movimento, quem mais aparecia para explicar os motivos da paralisação dos rodoviários, que exigiam reajuste salarial e o fim da dupla função de motorista e cobrador. O principal ponto de insatisfação era um acordo celebrado entre o sindicato dos trabalhadores e as empresas de ônibus, contestado por Hélio e os que o seguiram na greve. Se eleito, ele diz que trará desta época o principal aprendizado para ter sucesso na política.
“Aprendi a tomar cuidado com as pessoas que estão ao nosso redor. Parecem ovelhas, mas são leões”, filosofa, em referência a Maura Lucia Gonçalves, que dividia com ele a liderança do movimento. Hélio avalia que Maura traiu os rodoviários ao articular sua volta para o sindicato. “Você vai ver a Maura no ano que vem; ela quer ser diretora do sindicato. Se eles não aprenderam nada este ano, com certeza vai ter outra greve”, profetiza.
A poeira daqueles dias baixou e Hélio retomou o emprego de motorista na Real Auto Ônibus. Hoje, ele fica de plantão na garagem, na Avenida Brasil, “ajudando a linha que precisar”. Quando não está trabalhando, se reúne com o assessor que escolheu para ajudá-lo na campanha, e confessa não estar preparado para assumir um cargo na Alerj. Na semana que vem, ele grava sua participação para o horário eleitoral da televisão.
“Hoje, eu não estou pronto. Mas o tempo irá me ajudar”, diz. Tempo este que, até outubro, deverá ser usado para que o candidato decida em quem votar para governador. “O PEN não fechou com ninguém e está dividido entre o Garotinho (PR) e o Pezão (PMDB). Até lá, verei quem vai estar bem para decidir meu voto”.
Hélio sabe que não terá todos os votos dos rodoviários para si. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que ele enfrentará 17 colegas de profissão que também querem uma vaga no Palácio Tiradentes. Ele tem ciência, inclusive, de que será acusado de ter usado a greve como trampolim para política. “Serei taxado de oportunista. Já estou acostumado com esse papo. Mas fiz tudo por eles sem nenhuma arma. Agora, posso ter a caneta”, resume.
Cabo Daciolo sonha ser governador
Na urna, Benevuto Daciolo, candidato a deputado federal pelo Psol, manterá apenas o sobrenome: no lugar do primeiro nome, a patente. Afinal, foi como Cabo Daciolo que ele virou notícia ao liderar a greve dos bombeiros por melhores salários em 2011. No ano seguinte, ficou preso por nove dias em Bangu 1, acusado de ter ido para Bahia estimular outra paralisação.
“Está em curso uma criminalização dos movimentos sociais, da qual fui vítima. Se a justiça fosse verdadeira, não colocaria um homem de bem na cadeia”, indica ele, que se autointitula um “agente da mudança”, e elege a educação como prioridade se for eleito.
Daciolo terá um adversário de peso na disputa pelo apoio dos bombeiros daquelas jornadas, já que Márcio Garcia, outra liderança da categoria, é vice-governador na chapa de Garotinho (PR). O psolista prefere não entrar em polêmica, mas alfineta o colega de quartel.
“Eu caminho com a minha tropa. Escolhi a porta mais estreita para entrar para política, luto pela categoria e não estou à venda para nenhum candidato”, diz Daciolo, evitando citar o nome de Garcia. O bombeiro prevê uma campanha difícil em sua jornada rumo a Brasília, mas ele confia em Deus e não deixa de sonhar. “Se acontecer de ser eleito, penso em me tornar governador.”