Cenas cariocas: De volta ao passado no Largo do Paço

A derrubada do Elevado da Perimetral vem descortinando um cenário deslumbrante na região da Praça 15

Por O Dia

Rio - Noves fora o inacreditável roubo das vigas, um feito de proporções épicas, a derrubada do Elevado da Perimetral vem descortinando um cenário deslumbrante na região da Praça 15. Da imponente estátua de D. João VI, na entrada da Estação das Barcas (cujo prédio principal é de 1907), é possível admirar sem entraves o Paço Imperial, o Chafariz de Mestre Valentim e todo o conjunto de prédios históricos do entorno. Agora, sim, podemos caminhar livremente pelo velho Largo do Paço, observar as sacadas do Convento do Carmo, de onde brotavam os gritos insanos de D. Maria, a Louca, e voltar ao passado sob o Arco do Telles, inebriados pelo aroma de especiarias da Tabacaria Africana. 

Cenas cariocas%3A De volta ao passado no Largo do PaçoAlexandre Medeiros / Agência O Dia


Nem as minhas mais vagas lembranças são capazes de alcançar os tempos em que a paisagem na beira do cais não fosse dominada pelo gigante de concreto e aço. Consta que o primeiro trecho do elevado foi aberto em 1960, justo o ano em que a cegonha me pousou neste balneário. Na infância, às vezes levado por meus pais ao Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), onde trabalhavam, na esquina da Praça 15 com Rua Primeiro de Março, me intrigava o fato de não poder ver direito o mar por causa daquele viaduto. Hoje se vê até o Palácio da Ilha Fiscal, onde o Império deu seus últimos suspiros antes da chegada da República, regados a champanhe em um baile que parou a Corte.

Nos tempos de faculdade em Niterói, conheci o outro lado da moeda. Era enfadonho ver a cantareira se aproximando do atracadouro da Praça 15 e ter o elevado dominando a aquarela. Como voltava tarde da noite das aulas, ficava um tempão esperando o ônibus debaixo da Perimetral, e o único conforto era comer o angu do Gomes, caprichado nos miúdos, a barraquinha da salvação da madrugada. Não foram poucas as vezes que cansei de esperar a condução e decidi voltar a pé até o Catete, onde morava, cruzando a Praça 15, a Rio Branco, a Lapa e a Glória. E nunca fui assaltado.

Quando forem retirados totalmente, os pilares em ruínas da Perimetral deixarão formar um imenso passeio que pode se estender do antigo prédio da Superintendência da Pesca, perto dos domínios da Marinha, até o Museu Histórico Nacional, na outra ponta, já nas portas do Aeroporto Santos Dumont. No meio desse percurso, ali em frente ao Paço, há locais para deixar bicicletas, e alguns pombos desgarrados remetem a um quê de Piazza San Marco, em Veneza.

Alguns lugares estão milagrosamente preservados, como o Restaurante Rio Minho, de 1884, “o máximo em peixadas”, que faz bela homenagem ao extinto Cabaça Grande, na mesma ponta da Rua do Ouvidor, junto ao mar. Ou o prédio do Museu Naval, na Rua Dom Manuel, que contrasta com as linhas modernas dos novos prédios do Tribunal de Justiça.

Curioso perceber como as arquiteturas se mesclam na paisagem e podem, com suas colossais diferenças, conviver em harmonia. Quem destoa é o anexo da Assembleia Legislativa, que bem podia ser levado junto com os restos da Perimetral.

Para quem gosta de caminhar sem pressa pelo Centro, nem que seja num dia de folga merecida, o novo cenário vai surpreender. Posso sugerir um almoço no Albamar ou no Rio Minho. Depois um vagar pelo Largo do Paço, até chegar à Rua do Mercado. Ver alguma exposição no CCBB ou na Casa França-Brasil. E aí sentar num bar da Rua do Ouvidor, pedir uma cerveja, ouvir um samba, tratar como anedota o roubo das vigas, que às vezes a desgraça é tamanha que só mesmo rindo dela, e entender por que essa cidade é tão maravilhosa.

Este escriba de plantão está saindo para um breve período de férias. E este humilde espaço de crônicas cariocas será cedido ao noticiário da campanha eleitoral, que passa a ser dominante com o fim da Copa do Mundo. Voltaremos a qualquer momento, em edição extraordinária.

Últimas de Rio De Janeiro