Por adriano.araujo

Rio - Imagine fazer da estrada seu endereço e escolher, diariamente, a paisagem que terá da sua janela. É justamente o desejo de aliar a paixão por viagens ao conforto do lar, doce lar, que faz cada vez maior o número de adeptos do campismo no Brasil. O estilo de vida de pessoas que montam residências sobre eixos de ônibus e caminhões, e saem mundo afora atrás de aventuras, voltou ao debate no último mês, quando cerca de 900 trailers e motorhomes vindos de países sul-americanos chegaram ao Rio para acompanhar os jogos da Copa. A falta de espaços propícios para a prática é, de acordo com os campistas, o maior problema enfrentado no território nacional.

Há 30 anos, Jorge Vieira abandonava as barracas de lona, nas quais acampava, e comprava seu primeiro trailer. Hoje, o senhor aposentado de 64 anos, tido como um dos precursores da modalidade no Brasil, coleciona histórias — vividas de dentro do seu motorhome — para contar. Ao lado da mulher Celina dos Santos, 67, ele já percorreu todos os estados brasileiros e vários países da América Latina. Sem papas na língua, ele alerta: se providências não forem tomadas, a cidade enfrentará um colapso ainda maior, durante as Olimpíadas de 2016.

Com 30 anos de campismo%2C casal Jorge Vieira e Celina dos Santos%2C e o ônibus escolar adaptado para ser motorhome%2C é um dos precursores do campismo no BrasilFabio Gonçalves / Agência O Dia

“Não temos campings públicos, como os da Europa, onde existe estrutura de banheiros em meio à natureza. Não faz sentido criar parques distantes do Centro da cidade ou alocar todos em meio ao concreto do Terreirão do Samba. O campista, acima de tudo, é um apaixonado pela natureza”, afirma ele, que sonha com adequações na Quinta da Boa Vista e no Aterro do Flamengo.

Hoje, a cidade conta com cinco campings particulares para abrigar os mais de 500 trailers e motorhomes registrados em nomes de brasileiros, de acordo com a Secretaria Estadual de Turismo. A necessidade da criação de parques adequados mostra-se ainda mais urgente diante de outro dado fornecido pela Setur. Cerca de 15% dos visitantes que chegam ao Rio buscam o ecoturismo.

Orgulhoso, Seu Jorge, como é conhecido, faz questão de mostrar cada uma das peças que compõem a decoração da casa. São suvenires comprados durante as viagens que fez pelo mundo. As adaptações realizadas para otimizar o espaço também merecem destaque. Por lá, cada centímetro dos 19 m² têm que ser adaptados para as mais diversas funções. “Minha mesa de jantar se transforma em cama com dois movimentos”, demonstra ele, que adaptou um ônibus escolar para residência, em 1995. “Cansei de rebocar trailers”, garante.

De fato, os motorhomes possuem as suas vantagens sobre os trailers. Por serem conectados às baterias dos veículos, permitem uma autonomia maior. “Não consigo instalar um ar-condicionado, por exemplo”, explica o advogado Paulo César Lisboa, dono de trailer. Morador do Lins de Vasconcelos ele, que usa o veículo durante as férias e folgas, reclama dos preços dos campings cariocas. “A diária custa cerca de R$ 20 por pessoa, sem café da manhã. O preço final é similar ao de uma pousada. O que nos faz continuar nessa vida é a aventura proporcionada”, diz ele, que reboca o apartamento de 15 m² por meio de uma picape.

O advogado Paulo César Lisboa mostra o trailer que usa durante as férias%2C mas queria ar condicionadoFabio Gonçalves / Agência O Dia

?PREÇOS NAS ALTURAS

Foi-se o tempo em que podia-se adaptar um veículo e transformá-lo em motorhome. Hoje, é necessário comprá-lo pronto. Há quatro fábricas brasileiras com o exterior como principal mercado. Segundo adeptos do campismo, um motorhome novo varia de R$ 100 mil até R$ 500 mil.

HABILITAÇÃO

Para dirigir um motorhome de até seis toneladas, basta que ter habilitação na categoria B. Para veículos maiores, é necessário as C e D. Porém, por se tratar de residência legalizada, autoridades só podem entrar nos véiculos com mandados judiciais.

FONTES DE ENERGIA

Além de aquecedores e fogões a gás, os veículos dependem de baterias para garantir a iluminação e funcionamento de eletrodomésticos. O abastecimento é garantido por reservatórios que chegam a 500 litros de capacidade. Os itens costumam ser reabastecidos em postos de gasolina nas estradas.

PARCERIAS COM POSTOS

Em cidades sem campings, os postos são usados para o pernoite, por contarem com seguranças e dificilmente ficarem vazios. É onde os reservatórios de dejetos costumam ser higienizados. “Abastacemos lá. É uma troca. O que não vale é sujar a natureza”, afirma Paulo César Lisboa.

ENCONTROS NO BRASIL

Aguardados pelos campistas, os encontros dos praticantes da modalidade são realizados mensalmente. Foz do Iguaçu é considerada a capital.

PARCERIA

A possibilidade de apuros nas estradas cria um espírito solidário entre os praticantes do campismo. É o que garantem os brasileiros que conviveram com dezenas de turistas chilenos e argentinos em um camping do Recreio dos Bandeirantes, durante a Copa.

“Poucos tiveram dinheiro para pagar a estadia em campings particulares. É um crime conceder um espaço de concreto para que a pessoa arme uma barraca. O calor torna-se insuportável”, critica Jorge Vieira, que fez amigos, no período.

De acordo com ele, os custos em manutenção dos veículos são similares aos de carros de passeios. “Todo campista é um pouco mecânico. Afinal, não podemos ficar parados no meio da estrada”, garante.

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