Por adriano.araujo

Rio - Frequentador assíduo do bar Tio Sam, no Leblon, João Ubaldo Ribeiro se dedicava há quase dois anos a escrever um livro que contaria histórias de bares do bairro, segundo revelou seu filho, Bento. “Meu pai estava escrevendo um livro sobre contos, narrado por um baiano. Não sei se era a vida dele ou um apanhado de várias crônicas sobre bares do Leblon. Não cheguei a ler nada. Quem lia as obras do meu pai antes de prontas era sempre a minha mãe”, disse Bento, no enterro do escritor neste sábado, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

A viúva, Berenice Batella, e as filhas Manuela, Emília e Francisca também prestaram suas últimas homenagens antes de o corpo ser conduzido à tumba 32 do Mausoléu dos Imortais da Academia Brasileira de Letras. Por baixo do fardão da ABL, ele vestia sua camisa preferida, com a imagem de Itaparica (BA), onde nasceu. Em cima do caixão, foi depositada a camiseta do Bloco Areia, do qual ele participava em todos os carnavais, no Leblon, onde morava.

Amigos e familiares acompanharam o enterro do escritor, no Cemitério São João Batista, em BotafogoFotos%3A Severino Silva / Agência O Dia

Entre os amigos, a imagem deixada pelo autor de ‘Sargento Getúlio’ é de um homem feliz e irreverente. “Ele era um amigo, carnavalesco, adorável, de uma generosidade incrível e completamente maluco. Trabalhamos 50 anos juntos e nunca tivemos nenhuma desavença”, disse o poeta Geraldo Carneiro. Companheira da ABL, Nélida Piñon reforçou o discurso dele: “João era muito engraçado. Tinha linguajar destemperado, era excessivamente irreverente e muito culto.”

Já o acadêmico pernambucano Evanildo Bechara enalteceu o legado literário deixado pelo baiano: “Talvez ele seja a nossa maior expressão na prosa. ‘Viva o Povo Brasileiro’ é uma obra emblemática, que deveria ser meditada por todos os brasileiros. João não era somente um grande prosador, um grande cronista, mas um grande conhecedor das coisas. Representava muito bem o país, dentro e fora das suas fronteiras.”

O ocupante da cadeira 34 da ABL morreu aos 73 anos, de embolia pulmonar, na sexta-feira. “João Ubaldo parte de surpresa. E o luto que no momento nos investimos é um luto nacional”, escreveu o presidente da ABL, Geraldo Holanda Cavalcanti, no discurso de despedida lido pelo secretário-geral Domício Proença Filho.

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