Por bianca.lobianco

Rio - Um ano que valeu por cem. Assim, com essa definição, quatro dos garotos que lideraram o movimento que levou mais de um milhão de pessoas às ruas do Rio no ano passado se referiram a 2013, que já entrou para história política do país.

Organizadores do Fórum de Lutas Contra o Aumento das Passagens, o embrião do movimento, Raphael Godoi, de 17 anos, Fabrício Silva, Priscila Guedes e Julio Anselmo se tornaram grandes amigos e agora esperam que aqueles protestos se reflitam nas urnas, com uma resposta aos políticos que o povo reprovou.

Priscila%2C Júlio%2C Raphael e Fabrício se reencontraram na UFRJ para relembrarem o ano que passouFernando Souza / Agência O Dia

“Foi um ano de aprendizado. Eu achava que nenhum político prestava e passei a conhecer gente que me representa. Há um ano eu pensava que iria entrar em crise por não ter em quem votar. Hoje, não faltam boas opções”, diz Raphael, que irá às urnas pela primeira vez e até agora só tem um voto decidido: Tarcísio Motta (Psol) para governador.

Para deputado estadual, Raphael vai ter um problema na hora de escolher: tanto Priscila quanto Júlio decidiram lançar candidatura. Mas ambos estão respeitando o amigo e garantem que a amizade vai continuar independentemente de sua opção.

“O importante é que a gente continue mobilizado. As pautas que levantamos, como saúde e educação, continuam pendentes. E precisamos levar essa luta das ruas para o Parlamento. Temos de ter voz lá também”, diz Priscila, 25 anos, que está se formando em História pela UniRio, e será candidata pelo Psol.

REVOLUÇÃO

O discurso mais à esquerda é de Júlio Anselmo, para quem os protestos do ano passado mostraram que uma revolução socialista no Brasil ainda é possível.

“A juventude achava que isso era coisa do passado, mas 2013 mostrou que não. Sou de um partido (PSTU) que não fica prometendo que vai mudar sua vida, mas que quer organizar os trabalhadores e mostrar que um novo mundo é possível, livre das mãos dos poderosos”, diz Júlio, 24 anos, que estuda Filosofia na UFRJ.

O quarto do grupo é Fabrício Silva, que estuda Ciências Sociais na Uerj e mantém o distanciamento histórico que tem aprendido na faculdade na hora de analisar o que passou. E diz que não vai economizar críticas aos amigos.

“São meus companheiros, mas farei críticas sempre que julgar necessárias. Comecei a militar no Partido Comunista Revolucionário (PCR), mas aos poucos fui me desiludindo, vendo que não era bem isso o que me representava”, diz Fabrício.

Bem-humorado, ele também sonha com a transformação social. Mas espera que ela venha na mesa de jantar, onde tem debates fervorosos com a mãe e com o padrasto.

“Minha mãe é petista, católica, carrega o sonho de um país melhor através do Lula, que é pernambucano como eu. E meu padrasto é eleitor do Bolsonaro (deputado de extrema direita). Imagina a minha situação ali?” brincou Fabrício.

Milhares de pessoas foram às ruas do Rio em junho do ano passado após decisões tomadas pela juventude através de fóruns no FacebookFERNANDO SOUZA/17.3.2013

2013: tudo começou pelo Facebook

?Raphael, Priscila, Julio e Fabrício apareceram em 2013, quando todos queriam saber, afinal, quem estava por trás dos protestos.

Imaginava-se que grupos políticos tradicionais fossem os responsáveis. Falou-se em tráfico, milícia, torcidas organizadas de futebol pagas para irem às ruas. Não era isso.

Reportagem do DIA em 15 de junho de 2013 encontrou o quarteto que ajudou a fazer a história do país e mostrou como eram organizados os protestos: através do Fórum de Luta Contra o Aumento da Passagem, nada mais que um grupo de discussão criado na internet, no Facebook.

A primeira manifestação foi convocada por Raphael, então com 16 anos, para 24 de novembro de 2012, na prefeitura. E contou com apenas 300 pessoas. “Me defino como de centro-esquerda”, disse Raphael à época, ainda descrente de partidos.

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