Polícia investiga ligação de jogador de clube carioca com milicianos

De acordo com um ex-integrante da quadrilha, o atleta deu um carro de presente ao chefe do bando. Dias depois, o automóvel foi registrado como roubado na 42ªDP (Recreio)

Por paulo.gomes

Rio - A polícia está investigando a ligação de um jogador de futebol de um clube do Rio de Janeiro com a milícia que atua em bairros da Zona Oeste. De acordo com o depoimento de um ex-integrante da quadrilha, que ajudou na prisão de 21 pessoas durante operação na última quinta-feira, dois atletas participaram de uma festa dos criminosos, com um deles presenteando o "patrão" com um carro.

GALERIA: Policiais realizam operação contra milicianos na Zona Oeste

"Eles fazem vários pagodes. Foram dois jogadores famosos, inclusive um deu até um presente (carro) para o patrão. Jogador de um clube do Rio de Janeiro, bem conhecido", disse o ex-miliciano, ao Fantástico.

Operação realizada na última quinta-feira cumpriu mandados de prisão e de busca e apreensão contra milicianos na Zona OestePaulo Araújo / Agência O Dia

Segundo Alexandre Capote, titular da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), o jogador em questão teria tentado agradar o chefe da milícia cometendo um estelionato. Ele revelou que no dia 11 de janeiro deste ano, um familiar do atleta registou o roubo do automóvel na 42ªDP (Recreio).

"Ele presenteou o miliciano para ficar bem com ele e ao mesmo tempo cometeu um estelionato, uma fraude com o fim de receber o valor do seguro desse carro. Foi um familiar do jogador que comunicou falsamente o roubo desse carro", disse o delegado.

O atleta, segundo Alexandre Capote, será chamado em breve para depor. "Já foi instaurada uma investigação e esse jogador de futebol vai ser investigado, vai ser chamado para prestar esclarecimentos", afirma.

Milicianos torturavam moradores de condomínios em praças públicas

Torturas em praças públicas, que muitas vezes terminavam com vítimas mortas com sacos na cabeça, eram os métodos de integrantes da milícia ‘Liga da Justiça’ para expulsar e subjugar até cinco mil moradores de seis condomínios do Programa Minha Casa, Minha Vida, na Zona Oeste.

Entre os detidos, está o subtenente da PM João Henrique Barreto, o Cachorrão, lotado no 40º BPM (Campo Grande), apontado como um dos chefes da quadrilha. Dos 27 procurados, 13 são agentes públicos. Os negócios da quadrilha, que incluíam revenda e aluguel de imóveis, rendiam R$ 1 milhão, por mês.

Segundo investigações, pelo menos 1.600 unidades foram ‘tomadas’, com a ajuda de milicianos síndicos dos prédios, de seus proprietários. Os imóveis eram revendidos pelo valor de R$ 50 mil, mas os mutuários continuavam pagando a prestação à Caixa Econômica sob ameaça de morte.

“Moradores das unidades eram obrigados a pagar taxas por todo tipo de serviço e, em caso de atrasos, eram expulsos ou até mortos”, disse o delegado Alexandre Capote, titular da Delegacia de Repressão às Atividades Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE). A milícia impunha até a compra de cestas básicas superfaturadas de R$ 70 para R$ 220.

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Treze agentes, dos quais seis PMs, integravam bando

A prisão de Ademir Horácio de Lima, o Demi, síndico de um dos condomínios, revela outra tática usada pela milícia para acuar moradores. “Era um estado de exceção em pleno Rio de Janeiro. Com o apoio dos síndicos, os milicianos sabiam quais eram os melhores imóveis a ser ocupados e cobravam cotas em dinheiro. Muitas vezes, as ‘visitas’ aos moradores eram feitas no dia seguinte aos que chegavam nos imóveis”, relatou o diretor de Polícia Especializada, delegado André Drummond.

Dos 27 acusados, seis são policiais militares, três ex-PMs, um bombeiro, um agente penitenciário, um policial civil e um militar do exército. Entre os materiais apreendidos estão seis carros de luxo, uma moto, seis pistolas, uma carabina e R$7.852 em espécie. De acordo com o promotor Marcus Vinicius Leite, desde 2007, já foram realizadas mais de 700 prisões contra integrantes da Liga da Justiça.

“Nosso trabalho é contínuo. Não podemos deixar que os milicianos se restabeleçam por lá. Contamos com a contribuição popular através do Disque-Denúncia (2253-1177). A cada prisão, o grupo fica ainda mais acéfalo”, analisou Marcus Vinicius.

No inquérito, ex-morador contou que donos de imóveis foram mortos na frente de outros como demonstração de força do bando. Na casa de Ademir Horácio de Lima, o Demi, a polícia apreendeu chips de celulares, boletos e listas de controle de cobrança. A Liga da Justiça foi fundada pelos irmãos Jerominho, ex-vereador; e Natalino Guimarães, ex-deputado estadual, ambos presos.

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