Por thiago.antunes

Rio - Principal testemunha da Operação Tentáculos, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE), que prendeu 27 milicianos da 'Liga da Justiça' no início de agosto, X, de 55 anos, se sente desamparado pelo poder público e desde segunda-feira dorme ao relento com a família.

Família se sente desprotegida e teme ser vítima de milicianosUanderson Fernandes / Agência O Dia

“Reconheci todos os presos e sou vítima. Tomaram meu apartamento (do Programa Minha Casa, Minha Vida), vi torturas e mortes e não sei o que será de mim e da minha família. Dormimos cada dia em um lugar, não sei o que pode acontecer em cada esquina”, contou X. A Draco nega que a família esteja desamparada.

Levado para Brasília em maio e incluído junto com a esposa e duas filhas — uma de 5 e outra de 2 anos — no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (Ppcaam) da Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SDH), X admite que quebrou regras do programa e, por isso, foi excluído em agosto.

“Fiquei assustado com o telefonema de uma vizinha de Campo Grande que estava sendo ameaçada e liguei para o Rio, mas não poderia ligar. Ficamos 12 dias vagando por Brasília, até que um padre nos abrigou e pagou nossas passagens para o Rio”, relatou X.

Quando as investigações começaram, X conheceu o poder da Liga da Justiça. Segundo ele, nem mesmo na sede da Draco, na Central do Brasil, onde também funciona a Secretaria de Segurança, eles ficaram seguros, durante 10 dias. “Minha mulher ia ao banheiro usando colete à prova de balas e escoltada por dois homens de fuzil, pois qualquer policial pode entrar naquele prédio”, recordou.


‘Fomos levados para um asilo e não havia comida’

O Ppcaam era gerido, na ocasião, pela ONG Centro Popular de Formação da Juventude, que tinha convênio com a SDH no valor de cerca de R$ 450 mil. “Quando chegamos em Brasília, fomos levados para um asilo de senhoras idosas e não havia comida para nossas filhas, não havia leite”, detalhou X.

A SDH informou que fiscaliza e monitora as ONGs contratadas através de convênios. Sobre a situação de X, a SDH argumentou não seria possível comentar um caso específico. A disponibilização de informações aprofundadas sobre os casos é proibida por causa das análises de risco, mas a SDH garantiu que nenhum protegido é expulso do programa e todos são acompanhados.

Secretaria diz que há proteção

A testemunha diz que está com medo porque tem recebido ameaças. “Estou sendo ameaçado até para não prestar depoimento na Justiça e, se o fizer, negar tudo. Não sei mais o que fazer”, denunciou, muito assustado, X. Através de nota, a Secretaria de Segurança e a Draco informaram que X e a família estão sob vigilância de agentes da especializada desde que desembarcaram no Rio, na manhã de segunda-feira.

Ainda de acordo com a Draco, a família foi colocada em um local cujo endereço é guardado em sigilo para garantir a vida dos quatro. A Secretaria de Segurança e a Draco negam que as vítimas estejam dormindo nas ruas da cidade e sem proteção policial.

A Operação Tentáculos, da Draco, desarticulou em 7 de agosto um esquema de venda e locação ilegal de imóveis do Minha Casa, Minha Vida em Campo Grande. Quem reclamava era espancado ou assassinado pelo bando.

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