Por felipe.martins

Rio - O coordenador-geral das UPPs, coronel Frederico Caldas, lamentou a morte do comandante da UPP Nova Brasília, capitão Uarderson Manoel da Silva, 34 anos. Caldas lembrou de uma vontade que o policial manifestava na conversa entre os colegas "Ele sempre dizia que queria morrer em combate", disse o comandante das UPPs durante o velório no Cemitério Jardim Sulacap. O comandante anunciou a criação de um curso para capacitação de comandantes de UPPs envolvendo as partes técnica e psicológica. O capitão foi enterrado com honras militares.

Velório do comandante ocorreu no Cemitério Jardim Sulacap%2C Zona Oeste do RioFabio Gonçalves / Agência O Dia

Ele citou as comunidades do Alemão e da Rocinha como as que apresentam quadro mais crítico ao dizer que o trabalho de pacificação nas comunidades não irá recuar. Sobre o fato de o comandate da UPP Nova Brasília estar sem colete, o coordenador lembrou da disposição que move um policial a cumprir uma missão e defender um colega. "É difícil que as pessoas entendam o que move um policial quando ele sabe que o colega está sob perigo. O uso do colete à prova de balas poderia tê-lo salvado, mas foi uma situação atípica. Ele soube que tinham companheiros em perigo e partiu para resolver o problema", disse Caldas.

Presente também ao velório, o comandante da PM, coronel Luis Castro, também lamentou a morte do capitão e pediu penas mais duras para crimes que envolvam a morte de policiais. "A PM está de luto. A morte de um policial é o que há de pior para a corporação. A sociedade precisa discutir a pena para crimes contra policiais. O marginal precisa pensar duas vezes antes de apertar um gatilho contra um PM", disse.

Homenagem ao capitão Uanderson foi feita com honras militares e tiros para o chãoFabio Gonçalves / Agência O Dia

Amigo do policial, Luiz Henrique Araújo atuou ao lado do capitão quando serviu como fuzileiro em 2001."Ele vivia para a família e para a polícia. É uma grande perda para todos que o conheciam", disse entristecido.

Capitão foi baleado no peito na UPP Nova Brasília

A resistência de traficantes à pacificação no Complexo do Alemão levou à baixa significativa nas forças de segurança do estado. Em mais um dia de confrontos, bandidos mataram o capitão Uanderson com um tiro no peito. Ele era casado com uma oficial do Comando de Polícia Pacificadora e tinha uma filha de 7 anos. O policiamento foi reforçado na região, mas ruas ficaram completamente vazias até à noite.

Capitão foi baleado no peito na UPP Nova BrasíliaDivulgação

'“Ele era uma pessoa maravilhosa. Eu o chamava de ‘maluco’, porque não tinha medo de bandido. Perdem a polícia e a família”, comentou Fátima Gomes dos Santos, sogra do oficial.

Uanderson foi socorrido em estado grave na UPA do Alemão e transferido para o Hospital Getúlio Vargas, onde foi submetido a uma cirurgia no tórax. O tiro passou entre o braço e o peito, área que não é protegida pelo colete à prova de balas.

O capitão estava há 11 anos na Polícia Militar. Ele trabalhou no 14º BPM (Bangu), 15º BPM (Caxias) e 41º BPM (Irajá), e foi subcomandante da mesma unidade, ocupava o cargo de comandante há apenas três semanas.

Esse é o segundo caso de morte de militar em comando em UPPs. Em março, o subcomandante da UPP Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, Leidson Acácio Alves Silva, 27, morreu ao ser baleado na testa durante patrulhamento na Rua 10, no Parque Proletário.

Num confronto no início da tarde, na localidade conhecida como Campo do Seu Zé, equipes da UPP Fazendinha trocaram tiros com um grupo suspeito que conseguiu fugir e deixou para trás 58 papelotes de cocaína, 10 pedras de crack e duas motos.

Momentos depois, Raian Dias da Rocha, 20 anos, foi socorrido na Unidade de Pronto Atendimento do Alemão ferido a tiros. Raian foi transferido, sob custódia, para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro. O caso foi registrado na 45ª DP (Alemão). O tiroteio, às 17h30, no qual o capitão foi baleado durou 30 minutos, no Largo do Vivi.

Chocados com o crime, vários policiais militares fardados e à paisana foram para a porta do Hospital Getúlio Vargas em busca de informações sobre o comandante. No entanto, eles não comentaram o caso.

O cabo Mesquita estava com o comandante: 'O ataque foi pelo beco do mercado. Entramos no beco, eu, outro companheiro e o capitão, que levou uma rajada. Comecei a trocar tiro com os marginais e o capitão gritou que tinha sido atingido no peito. Troquei tiros até acabar a minha munição. Peguei o capitão pelo ombro e na saída ainda tropecei em uma granada que por sorte não explodiu. Levamos para o hospital, mas infelizmente ele não suportou'.

"Que vida é essa que a gente escolheu", desabafa policial militar

Uma policial militar que participou na quinta-feira do tiroteio que culminou com a morte do capitão Uanderson Manoel da Silva, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Nova Brasília, desabafou num áudio enviado para o WhatsApp do DIA (98762-8248). Com duração de mais de três minutos, o depoimento chama atenção por declarações fortes sobre a situação dos PMs no Complexo do Alemão, na Zona Norte.

"O capitão (Uanderson Manoel), infelizmente, não pensou muito e saiu do jeito que ele estava, pegou o fuzil e foi. À paisana, sem colete e aconteceu isso aí (morte). E para não ser pior, tinha uma granada também. Eles chutaram a granada e a granada não estourou, graças a Deus".

Ainda no depoimento, ela diz ter "se sentiu um lixo" durante o fato na Nova Brasília e questionou a união dos policiais militares.

"A gente está sendo vendido. Um cabo lá, mesmo com a rendição, não queria liberar eu e os meus colegas. É nessas horas que eu vejo que tem colega que faz besteira. Mas a revolta é tão grande que dá vontade de você matar um mesmo. Gente, que vida que a gente escolheu. Mas é porque não tem união e não sei se vai existir união na polícia um dia. Se tivesse união, não faziam isso com a gente".

Suspeito preso nesta sexta-feira

Nesta madrugada, policiais da 22ªDP (Penha) prenderam Cassiano da Silva Harris, de 20 anos. Ele é suspeito de ser um dos responsáveis pela morte do comandante da UPP Nova Brasília. No final da manhã, um outro suspeito ainda não identificado foi preso pelos agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).

Cassiano da Silva Harris foi preso na madrugada desta sexta%2C na Vila Cruzeiro. Ele é um dos suspeitos de ter participado da morte do comandante da UPP Nova BrasíliaFabio Gonçalves / Agência O Dia

O suspeito foi localizado na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, e responderá por tráfico de drogas, associação para o tráfico e homicídio simples. O capitão Uanderson morreu com um tiro no peito. Ele era casado com uma oficial do Comando de Polícia Pacificadora e tinha uma filha de 7 anos. O PM será sepultado nesta sexta-feira, às 16h, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap.



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