Por adriano.araujo

Rio - A crise na Segurança Pública que atinge o país, como um todo, e o Rio de Janeiro, de uma forma particular, foi o tema da terceira edição da série ‘Encontros do DIA’, que reuniu especialistas do quilate de Silvia Ramos, coordenadora do Cesec (Centro de Estudos sobre Segurança e Cidadania), do coronel PM Robson Rodrigues, mestre em Antropologia e ex-coordenador das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), e do cientista político João Trajano Sento-Sé, coordenador, ao lado de Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência, da Uerj.

Eles foram sabatinados pelos jornalistas Aziz Filho, diretor de redação do DIA, André Balocco, do projeto Rio Sem Fronteiras, Eugênia Lopes, editora de Política, Max Leone, subeditor de Economia, e pelo repórter Caio Barbosa. Juntos, os especialistas chegaram à conclusão de que o importante projeto das UPPs implantado pelo governo do Rio corre risco se não for revisto com urgência. O trio defende, também, uma reforma imediata no modelo atual das polícias brasileiras, e é unânime em levantar a bandeira pela regulação do uso de drogas como forma de reduzir a violência.

Série 'Encontros do DIA' discutiu sobre a política das UPPsErnesto Carriço / Agência O Dia

ODIA: Como vocês avaliam hoje a situação das UPPs no Rio? O projeto está em risco?

SILVIA RAMOS: Acho que corre risco, e por contaminação. Há UPPs que estão indo muito bem, e outras onde não houve de fato UPP e desarmamento, como no Alemão, na Penha e na Rocinha, por exemplo. Meu medo é que a reputação do que acontece no Alemão contamine o restante.

ROBSON RODRIGUES: Está em risco porque não se sabe qual UPP trabalha adequadamente porque não há mecanismos de medição. A intranquilidade e a insatisfação do policial que está trabalhando lá, e a falta de estruturas mais adequadas tira totalmente a motivação para trabalhar nessas áreas. O problema da UPP é o da polícia: sem um controle eficaz e uma gestão mais moderna a gente vai perder muita coisa positiva.

Qual a solução?

SILVIA: Parar. E começar de novo onde não deu certo. Reconhecer que não deu certo e reocupar. Voltar com o Exército. Não dá para ficar tiroteio todo dia porque senão vai haver uma tragédia antes da eleição. Dessas de vir até a CNN para cobrir.

JOÃO TRAJANO: Reconhecer o erro e recuar para avançar. O governo está sendo irresponsável ao colocar policiais em risco em várias unidades onde não há condições de trabalho. UPP nunca foi um projeto de segurança, mas um modelo de policiamento, que foi a melhor coisa inventada nos últimos 30 anos com base nas experiências de policiamento comunitário dos anos 70 e 80, mas que nunca tiveram chancela política, era apenas a ideia de três ou quatro coronéis malucos que o secretário de segurança dizia “faz. Vai lá e faz”.

As UPPs tiveram o grande barato de o governo ver potencial no modelo e apostar nele. Essa foi a coisa boa, mas também a desgraça, porque politizou o projeto, porque a lógica de um profissional qualificado como o Robson, com uso de inteligência e estratégia, virou retórica política, de “vamos fazer 40 UPPs até o fim dessa gestão”. E isso coloca o modelo em risco.

Especialistas defendem revisão das UPPsErnesto Carriço / Agência O Dia

Qual a opinião de vocês em relação à regulamentação das drogas?

SILVIA: A favor. Não dá mais para continuar do jeito que está. O modelo atual deu errado.

TRAJANO: A favor. A guerra contra as drogas não deu certo e tem que ser revista.

ROBSON: A política de guerra às drogas não trouxe resultado nenhum, só aumento de violência, corrupção e consumo de drogas. E falando da minha área, o policial ainda fica sobrecarregado caçando usuário por uma questão moral, como se fosse o grande inimigo, em vez de fazer trabalho de polícia.

Qual o melhor caminho a ser seguido?

ROBSON: O mais interessante seria uma regulação forte do mercado das drogas, a exemplo do que ocorre com o cigarro, com campanhas informativas e constrangedoras, cujos recursos obtidos poderiam reverter para um fundo de erradicação da pobreza e das condições que favorecem a vulnerabilidade social da juventude mais impactada pela violência que a “guerra contra às drogas” tem produzido.

A discussão sobre maioridade penal é outra que está sempre em pauta, mas fica sempre naquela de quem é direita é favor, quem é de esquerda, é contra. E os lados não conversam um com o outro.

TRAJANO: Os que defendem a redução da maioridade, pode reparar, se manifestam quando há um crime de alta proporção com um menor pobre envolvido. Esse tipo de postura está aliado a uma concepção encampada nos EUA e no Reino Unido e não há nada que mostre que isso reduz criminalidade.

SILVIA: O Brasil triplicou sua população carcerária e não resolveu nada. Toda vez que este debate vem à tona é para dar resposta a uma aflição, que são estas barbáries que a gente não sabe como dar conta. Não pense nunca como solução. Pra mim tinha que aumentar.

ROBSON: Há 20 anos achávamos que resolveríamos este problema com base no tiro e foi quando a violência mais aumentou, com a gratificação faroeste. Não existe nada que mostre que o endurecimento criminal produza resultado. Muito pelo contrário. A gente é contra porque sabe que não funciona.

Outra pauta que surgiu das ruas e infelizmente não está sendo discutida na campanha é em relação à desmilitarização da PM. O que vocês acham?

TRAJANO: É preciso dar um choque de gestão na PM, com processo permanente de avaliação de resultados, planejamento, valorização da polícia para que ela possa recrutar melhor. A hierarquia militar até tem seus benefícios, mas precisa ser redefinida.

ROBSON: O melhor caminho é modernizar. Se desmilitarizar e ficar como a Civil e a Federal, não adianta muita coisa. É preciso qualificar. É preferível um bom a um ótimo, que seria essa mudança constitucional, que é demorada. Dá para melhorar muito antes, sem precisar desmilitarizar.

SILVIA: Nos últimos 30 anos, a situação piorou em maior parte por causa das polícias. Bastou mexer um pouco nesse sistema, com UPPs, onde a prioridade não é matar, e caíram sete mil homicídios só com uma mexidinha. A parte mais positiva da UPP foi mudar a polícia, não foi combater traficante. Nenhum governante vai conseguir governar se não reduzir o papel deletério que a militarização teve nestes anos. Isso tem que ser prioridade do governador e do presidente. Não dá mais para fingir que um dos principais problemas do país é a quantidade de vidas que se perde a cada ano.

Vocês não acham que este debate deveria estar no centro da campanha eleitoral? Não passou um pouco da hora de discutir isso mais a sério?

SILVIA: Acho (enfática)! Me surpreendi com a ausência do tema nos debates. Acho que depois dos protestos de 2013, com a polícia jogando bomba de gás a torto e a direito nas pessoas, e ela mesma tonta no meio disso tudo, que a gente fosse colocar isso na agenda como tema da campanha. E não está sendo colocado. Não será mais possível governar sem mexer na polícia e todo mundo sabe disso porque chegamos a um ponto insustentável. A Dilma está para colocar uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) no Congresso que é um avanço. Uma PEC que vai desconstitucionalizar essa cláusula de que a segurança pertence ao estado. É muito bom. Mas eu acho que dá para mudar muita coisa mesmo sem a PEC. Sem mudar a polícia, não vamos conseguir diminuir a violência.

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