Por thiago.antunes

Rio - A Defensoria Pública da União vai acionar a Justiça contra o Hospital Federal de Bonsucesso por crimes de desobediência e improbidade administrativa. O órgão se baseia em denúncia do Sindicato dos Médicos do Rio, já encaminhada à Polícia Federal no mês passado, sobre a suspensão de 19 exames por causa da deficiência de insumos na unidade. Será pedida intervenção judicial para o início da obra do setor de emergência, que há três anos funciona em contêineres.

Na denúncia há relatos de médicos alegando que a crise atinge até a maternidade de alto risco. “Não há teste rápido para HIV, o que coloca em risco recém-nascidos. As mães precisam fazer o teste para amamentar”, explicou o presidente do sindicato, Júlio Noronha. Segundo ele, os problemas, detectados em abril, foram repassados à diretoria, que não tomou providência.

Guilhermina saiu de São João e se desesperou ao saber que o filho Jorge%2C que enfrenta um câncer e não anda mais%2C não poderia ser atendidoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Em um episódio relatado no documento entregue à Polícia Federal, um paciente gravíssimo, com insuficiência hepática, teve que ser transferido por não haver o exame TAP, que detecta a tendência de coagulação do sangue. A unidade, que é polo de doenças hepáticas, não realiza diagnósticos de hepatites A, B e C há seis meses.

Segundo os dados enviados pelos médicos e constatados em vistorias realizadas pela entidade, faltam principalmente marcadores virais, hormonais, HIV, albumina, cultura de fungos e exames para diagnósticos de doenças reumatológicas. Na ocasião, o Ministério da Saúde informou que a unidade havia modificado a forma de fazer pedidos, não registrando alguns itens. Por ano, o Hospital de Bonsucesso recebe R$ 163 milhões para custeio e mais R$ 6 milhões para investimentos. Para o defensor público federal Daniel Macedo, um dos principais problemas é a má gestão.

13 mil na fila de cirurgia

A fila cirúrgica dos seis hospitais federais no Rio chega a 13.851 mil pessoas. O Hospital Federal Servidores do Estado é a unidade mais crítica com 4.571 pacientes em espera. Dia 30 de outubro, as unidades deverão apresentar na Justiça a lista de espera atualizada com reavaliações de cada paciente, como determina a Ação Civil Pública instaurada.

“Queremos que cada unidade ligue para os pacientes e veja como está a situação: Se ainda precisa de operação, se já operou ou se foi a óbito. A rede deverá apresentar um plano concreto para fazer todas as cirurgias em um ano”, detalhou Macedo, que pede na Justiça a indenização de R$ 1 bilhão da União aos pacientes.

Emergência do HGBo está instalada em contêineres que serviram para atendimento de urgência a feridos em catástrofe na Região SerranaEstefan Radovicz / Agência O Dia

Desespero de mãe e filho em Bonsucesso

Há quatro anos, a emergência do Hospital Geral de Bonsucesso funciona dentro de contêineres. Ontem, segundo funcionários, havia sete médicos: dois clínicos gerais, dois ortopedistas, dois cirurgiões e um neuro. Quem chegava, no entanto, não conseguia ser atendido.

Foi assim com o filho de Guilhermina Maximiliano, 90 anos. Jorge Maximiliano, 65, chegou de táxi com ela, numa corrida que começou em São João de Meriti, onde moram, e já custava R$ 100. Diagnosticado com câncer na próstata desde novembro, Jorge não anda mais e vive com a pensão de um salário mínimo de Guilhermina. Desde sábado, o filho sofre com fortes dores. Mas, ontem, sequer foi permitida a entrada dele no setor de emergência. “Preciso internar meu filho. Estamos sendo jogados pra lá e pra cá. Isso não é vida”, desabafou Guilhermina, transtornada, dentro do táxi.

RioSaúde tem orgranograma, presidente e verba

Pouco mais de um ano após ser criada em votação na Câmara de Vereadores, a polêmica Empresa Pública de Saúde, a RioSaúde, continua com perguntas sem respostas. Ontem, no Diário Oficial, a prefeitura publicou o organograma do novo órgão municipal, mas não soube dizer ainda quantos funcionários serão contratados para trabalhar no escritório da RioSaúde.

O presidente, no entanto, já foi escolhido: Ronald Munk, que foi nomeado em dezembro de 2013. Os diretores serão indicados pelo Conselho de Administração. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, haverá um concurso público para compor o quadro de pessoal. Mas não há previsão da data de quando a seleção vai ocorrer. O que se sabe é que a contratação será por CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Carlos Eduardo%2C da Comissão de Saúde da Câmara%2C foi contra órgãoCarlo Wrede / Agência O Dia

“O número de funcionários dependerá das atividades operacionais que a RioSaúde vier a exercer”, explicou a Secretaria, em nota. A dotação orçamentária da RioSaúde para este ano é de R$ 6.212.916,89, o dinheiro não é vinculado às finanças da Secretaria municipal de Saúde. A empresa funciona na Rua Gago Coutinho, 52, em Laranjeiras, no prédio do Instituto Pereira Passos (IPP). Para o vereador Carlos Eduardo (SDD), presidente da Comissão de Saúde da Câmara, é estranho que uma empresa que foi votada em regime de urgência só agora publica o organograma. “Está demorando muito para dizer a que veio”, afirmou ele, que foi contra a criação da RioSaúde.

Entre as funções do novo órgão da prefeitura, estão oferecer serviços de capacitação e treinamento na área de saúde, gerir e prestar serviços de engenharia clínica, manutenção predial de unidades de saúde e e gerir as unidades de saúde vinculadas à Secretaria municipal de Saúde que lhe forem delegadas pela prefeitura. A RioSaúde, no entanto, não vai acabar com o sistema de gerência por Organizações Sociais (OSs), que hoje gere centenas de unidades de saúde.

Carência de 1.226 médicos

Outro grave problema na rede hospitalar federal é a falta de médicos. O déficit chega a 1.226 no total. O Hospital de Bonsucesso é o mais crítico neste aspecto: faltam 280 profissionais. Para o Sindicato dos Médicos, o baixo salário é o principal motivo. “O piso salarial é baixo: R$ 2.520. As condições de trabalho são precárias”, apontou Júlio Noronha. O último concurso ocorreu em 2010 e o ministério não prevê outro.

Quem paga é o paciente. Michele Cristina dos Anjos, 32, saiu de Realengo na madrugada de ontem com crise de vesícula. Passou por três hospitais sem ser atendida. Com dores, chegou ao HGB às 15h e foi barrada. “Estava passando mal e me disseram que a emergência estava fechada”, lamentou.

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