Por thiago.antunes

Rio - Um dia após a megaoperação da 45ª DP (Alemão) para cumprir 41 mandados de prisão e sete de busca e apreensão em diversas comunidades do Complexo do Alemão, policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Nova Brasília, trocaram tiros com suspeitos de tráfico na região conhecida como Loteamento, na tarde desta sexta-feira.

Segundo a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), os policiais foram atacados pelos bandidos e revidaram. Após o confronto, os suspeitos fugiram. Na ação, um dos suspeitos foi atingido, mas conseguiu escapar. Em seguida, os policiais receberam a informação de que o ferido havia dado entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alemão, onde não resistiu aos ferimentos.

No local da ocorrência, os militares encontraram uma pistola calibre 9 milímetros, um carregador com munições e drogas ainda não contabilizadas. Ações de varredura estão sendo realizadas em busca dos outros envolvidos no incidente.

Operação levou pra cadeia 25

Foram detidos 21 adultos e apreendidos quatro menores. Cerca de 300 homens da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública, Polícia Civil e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, participaram da ação. Entre os presos está o líder do tráfico local, Edson Silva de Souza, o Orelha.

GALERIA: Ação no Alemão termina com 25 na cadeia 

Ele recrutava menores e adultos sem mandado de prisão para circularem livremente no complexo, vendendo drogas e confrontando policiais, além de ordenar ataques à sede da UPP, à delegacia e à UPA. A mesma quadrilha incendiou vários ônibus e incentivou moradores a participar de manifestações contra a polícia.Em escuta telefônica, em março, traficantes comentam a possibilidade de “bater de frente” com policiais. Um dos criminosos disse que, se estivesse armado, “pegava eles bonito, de frente.”

Apontado como o chefe do tráfico no Complexo do Alemão%2C Edson Silva de Souza%2C o Orelha%2C foi preso nesta quinta-feira durante operação na comunidadeFabio Gonçalves / Agência O Dia

Nas conversas, o traficante Cristian Nascimento da Silva, o CR, assume que o “seu pessoal” foi responsável por balear o soldado identificado como Fernandes, em maio. A polícia também acredita que o bando é responsável pelo assassinato do soldado Rodrigo Paes Leme, em março, mas não confirmou que os presos tenham matado o capitão Uanderson Manoel da Silva, comandante da UPP Nova Brasília, dia 11.

Um dos menores do bando era tido como ‘gerente’, do tráfico. Em fevereiro, um dos líderes da quadrilha determinou que os adolescentes passassem a observar PMs e atirassem neles. Num só dia, a 45ª DP registrou sete tiroteios entre bandidos e policiais na Nova Brasília. Investigadores descobriram que os menores monitoravam os policiais e trocavam informações por mensagem de celular.

Cerca de 300 policiais participaram de megaoperação no Complexo do Alemão%2C após oito meses de investigações sobre a atuação de traficantes na comunidade pacificadaOsvaldo Praddo / Agência O Dia

A ação de menores na quadrilha fez o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, mencionar mais uma vez o debate sobre redução da maioridade penal. “Não defendo o encarceramento ou não encarceramento (de menores). Só defendo que isso deve ser discutido”, comentou ele.

Manifestações eram manipuladas por traficantes

A Operação Urano foi deflagrada por volta das 5h30 desta quinta-feira. Várias especializadas como a Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) e Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) estão participaram da ação no Complexo do Alemão.

Além de Orelha, um outro integrante importante da quadrilha foi preso. Identificado como Marcus Vinícius da Silva Lira, foi capturado quando estava dormindo ao lado do namorado, na Favela Nova Brasília. Ele liderou, em abril, a queima de ônibus e carros nas proximidades do Alemão.

Policiais prenderam mais de 20 suspeitos durante megaoperação na manhã desta quinta-feira%2C no Complexo do AlemãoFoto%3A Osvaldo Praddo / Agência O Dia

As investigações mostraram também que mulheres do bando tinham a função de arregimentar moradores para “manifestações”. Em escutas telefônicas registradas em 27 de abril deste ano, Risodalva Barbosa dos Santos, conhecida como “Paraíba” e esposa do traficante Igor Cristiano Santos De Freitas, o King, diz que “já está com mais de 50 pessoas reunidas esperando a ordem do gerente-geral”. Em seguida, o criminoso determinou que quebrassem toda a base da UPP do Complexo do Alemão e ateassem fogo nela.

Diversas vezes, segundo as investigações, os criminosos ficavam em frente à sede da UPP monitorando os policiais, para dificultar a prisão em flagrante de criminosos. Para o promotor Fábio Miguel, todas as supostas manifestações realizadas por moradores da comunidade no início do ano eram manipuladas pelo tráfico. “Estavam a mando da facção criminosa, revoltados com a atuação das polícias Militar e Civil no combate ao tráfico de entorpecentes”, afirmou o promotor.

O subsecretário de Inteligência, Fábio Galvão, explica que a implantação das Unidades de Polícia Pacificadoras obrigou os traficantes a alterar radicalmente a sua forma de atuação. “Houve mudança de modus operandi. Eles passaram a operar com bocas de fumo itinerantes, não andavam com drogas e armas, guardavam em algum local para fazer o que chamamos de estica (extensão da boca de fumo para outro local)”, afirma.

Policiais prenderam mais de 20 suspeitos durante megaoperação na manhã desta quinta-feira%2C no Complexo do AlemãoFoto%3A Osvaldo Praddo / Agência O Dia

As prisões preventivas cumpridas nesta quinta foram decretadas pelo juiz Alexandre Abrahão, da 23ª Vara Criminal da Comarca da Capital, no dia 15. Em sua decisão, Abrahão alegou a “necessidade de segregação imediata de todos os denunciados”.

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