Por daniela.lima

Rio - Todos os anos, 250 mil pessoas somem no Brasil sem deixar vestígios — 40 mil são menores de idade. Uma média de dois times de futebol, 22 pessoas, a cada 90 minutos. 

Ellen Souto%2C titular da Delegacia de Descoberta de ParadeirosSeverino Silva / Agência O Dia


No combate a um dos mais graves problemas sociais do país, cariocas acabam de ganhar uma importante aliada. Inaugurada há uma semana, a Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), na Cidade da Polícia, em Benfica, vai concentrar as ocorrências na capital. Em entrevista ao DIA, a titular da especializada, Ellen Souto, fala dos projetos para aumentar o número de casos solucionados, hoje em 65%: núcleo de envelhecimento digital, banco de coleta de material genético, Disque 197, plantão 24h e busca imediata. 

ODIA: Atualmente, a polícia civil do Rio consegue localizar seis de cada dez pessoas que desaparecem na capital. A senhora acredita que, com a nova delegacia especializada, esse número tende a aumentar?

ELLEN SOUTO: Nossa meta é encontrar dez em cada dez. Queremos achar todo mundo. Mas vamos elevar esse índice. Antes trabalhávamos numa sala compartilhada na Divisão de Homicídios. Agora temos estrutura e uma equipe de 35 pessoas empenhadas em colocar em prática os melhores projetos que eu trouxe das delegacias de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina e Paraná. A delegacia de Minas, que é referência nacional, consegue resolver 80% dos casos de desaparecimentos.

E quais são os projetos?

Vamos ter pela primeira vez no Rio um Núcleo de Envelhecimento Digital, inspirado em São Paulo, para auxiliar nas buscas a pessoas que sumiram de forma enigmática e, possivelmente, foram traficadas. Hoje trabalhamos com fotos de crianças durante anos. Só que depois de 10 anos, você não acha mais, porque o rosto mudou e ela já é adolescente. O programa no computador vai mostrar como está a criança hoje. Em Minas, as fotos atualizadas foram divulgadas pela Interpol. Duas meninas foram localizadas na Europa, onde estavam se prostituindo. Também vamos contar com equipes de assistentes sociais e psicólogos para atender as famílias e receber denúncias pelo Disque-Desaparecidos 197, com anonimato garantido, a partir desta semana. O número vai vir no cartaz de divulgação que a delegacia vai entregar às famílias. Será uma proteção para evitar que as vítimas fiquem sujeitas a golpes ao dar o número de casa. Tivemos uma família que pagou R$ 15 mil para criminosos que diziam estar com o desaparecido. Além disso, a delegacia vai funcionar 24 horas.

Muitas famílias ainda acham que é preciso esperar 24 horas para registrar o sumiço de um parente.

Esse prazo não existe. As primeiras 24 horas são fundamentais para localizar uma pessoa. É uma corrida contra o tempo. Depois disso, a cada hora que passa, ela pode estar a caminho de outro estado e até do exterior. A ocorrência vai continuar sendo feita nas delegacias distritais, porque eu não posso exigir que as famílias saiam de seu bairro, sem dinheiro, para fazer o registro na DDPA. A mudança é que antes demorava 15 dias para o caso sair da distrital e vir para a especializada. A partir de agora, as distritais na capital recebem a ocorrência e nos comunicam, via online, e começamos as buscas imediatamente. As ocorrências da Baixada e de Niterói serão conduzidas por suas especializadas, que receberão nosso suporte. E o interior investiga até o final, sob a nossa supervisão.

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), entre 2007 e 2014, foram registrados 41.711 desaparecimentos no estado. Qual a principal causa do problema?

A maior parte dos casos está relacionada a conflitos familiares. É sempre pela desagregação da família, por uso de drogas, álcool, ou por maus-tratos. É o filho que sofre violência, a filha que é abusada por um parente ou padrasto. É a falta de tudo. Nos últimos anos, porém, houve número crescente de idosos que se perdem pela cidade. Os dois primeiros casos solucionados pela DDPA, na primeira semana, foram de idosos. Um deles foi o de uma senhora, com Alzheimer, de 77 anos, que saiu de Saquarema num ônibus e foi achada, três dias depois, na comunidade do Dendê, na Ilha do Governador. O outro aumento é o de usuários de drogas que vão parar nas cracolândias. Em todos os casos, o tratamento tem que ser diferente. Por isso, teremos dois núcleos: um para adultos e outro para crianças e adolescentes.

Algum caso, em especial, chamou a atenção?
Teve o de uma garota de 15 anos, de família rica de Belo Horizonte, que saiu de casa para viver com rapaz que conheceu pela internet. A achamos, em Rio das Pedras, numa casa super-humilde com a família do jovem. Ela foi para Minas e fugiu de novo. Aos policiais, ela contou que não tinha atenção do pai e era maltratada pela madrasta. Soube que ela continua morando na favela.

Que cuidados os pais devem ter para evitar que os filhos sejam vítimas de criminosos?

Recentemente, tivemos o caso de uma menina que foi aliciada pelo Facebook e estava se prostituindo em Minas Gerais. Crianças e adolescentes têm que ser permanentemente monitorados quando acessam redes sociais para não serem aliciados.

A Seção de Paradeiros da Divisão de Homicídios da capital foi a responsável pela investigação do desaparecimento do ajudante de pedreiro Amarildo. Que esperança outras famílias, como a dele, que foram vítimas da violência policial, poderão ter com a nova delegacia?

Um dos projetos em andamento é a criação de um banco de material genético dos familiares de desaparecidos para a realização de exames de DNA em ossadas recolhidas em cemitérios clandestinos. Temos um Núcleo de Apoio para Identificação e Reconhecimento de Pessoas Desconhecidas (Nuared) que fará o cruzamento de desaparecidos com corpos de pessoas enterradas como indigentes. 


Como vai funcionar a parceria entre a assistência social com hospitais?

A busca pelo desaparecido é um problema generalizado que precisa ser enfrentado em rede. A ideia é que as assistentes sociais da DDPA entrem em contato com as equipes dos hospitais e abrigos, onde há muitos desaparecidos, para trocar informações sobre pessoas que deram entrada sem identificação. As famílias chegam destruídas, elas não têm a menor condição de ficar peregrinando de hospital em hospital. O serviço será feito por nossas equipes.

Como as famílias podem colaborar com a polícia?

As pessoas mudam toda hora de telefone. Também falta conscientização. Muita gente não retorna à delegacia para dizer que o parente foi localizado. Quando não dão baixa no sistema, o Estado continua empreendendo esforços, gastando tempo e dinheiro para achar alguém que já está em casa. Uma busca que poderia estar sendo direcionada para solucionar outros casos.

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