PM promoveu coronel um dia antes de ele ser preso

Mais 15 policiais do batalhão da Ilha são investigados por recebimento de mensalão do tráfico

Por O Dia

Rio -  A primeira etapa da investigação sobre o pagamento de um mensalão do tráfico de drogas a policiais do 17º BPM (Ilha do Governador) levou ontem à cadeia o coronel Dayzer Corpas, ex-comandante da unidade, e outros 15 militares. Promovido pelo comandante-geral da PM, coronel José Luís Castro, um dia antes da operação Ave de Rapina — como O DIA noticiou quarta-feira —, Corpas foi flagrado numa ação que extorquiu R$ 300 mil de traficantes de Senador Camará, em março.

Na nova função de subchefe do Comando de Policiamento Especializado (CPE), que ocuparia a partir de ontem, o oficial manteria a gratificação de R$ 5 mil, além do salário de mais de R$ 30 mil brutos. E ganharia mais poder por assumir cargo estratégico, com seis unidades especializadas vinculadas ao CPE.

Investigado há seis meses pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, Corpas é acusado de ter recebido R$ 40 mil de propina para liberar os traficantes Atileno Marques da Silva, o Palermo, e Rogério Vale Mendonça, o Belo. Mas, em nota, o comando da PM nega que a mudança de função do oficial tenha sido uma promoção.

Um suspeito (de camisa vermelha) é preso no 17º BPM (Ilha do Governador): investigação aponta que grupo de policiais extorquiu traficantes de drogas após prendê-losFoto%3A Severino Silva / Agência O Dia

Para o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, a desarticulação de mais um esquema fraudulento que envolve PMs não põe em xeque o cargo de Castro. “Estamos acompanhando os casos com a auditoria da PM e Ministério Público. Este tipo de critério valoriza as investigações”, afirmou ele, acrescentando: “Não vamos passar a mão na cabeça de ninguém”.

Em junho de 2013, o comando da PM concedeu ao coronel Corpas a Medalha Dom João VI. A mesma comenda foi dada ao coronel Alexandre Fontenelle — preso com outros 26 militares, por comandar esquema de propina no 14º BPM (Bangu). Enquanto a investigação estava em curso, ele foi promovido a chefe do Comando de Operações Especiais (COE).

“Os critérios do comandante da PM para promoções e nomeações de oficiais devem ser revistos com urgência”, avaliou Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, promotor da Auditoria de Justiça Militar.


Agentes acham R$ 14 mil na casa do coronel

Para prender os 16 policiais — entre eles dois oficiais — no Rio e na Baixada Fluminense, agentes se reuniram no fim da madrugada na Central do Brasil, sede da Secretaria de Segurança Pública. Logo cedo, o coronel Dayzer Corpas foi preso em casa, na Ilha do Governador. Com ele foram encontrados R$ 14 mil, além de joias, notas fiscais, material de contabilidade do grupo e computador.

O tenente Vitor Mendes Encarnação, chefe do Serviço de Inteligência do batalhão da Ilha, foi preso no edifício de classe média onde mora, em Brás de Pina. Todos responderão por extorsão mediante sequestro e roubo majorado (quando há a colaboração de duas ou mais pessoas), na Auditoria de Justiça Militar.

Na denúncia dos promotores do Gaeco, a relação dos policiais com traficantes, comandados por Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, da facção Terceiro Comando Puro (TCP), é tratada como como ‘promíscua’. Ela incluía a revenda de armamentos de criminosos apreendidos em operações.

No esquema, segundo a investigação,ficou comprovado o recebimento de R$ 440 mil — R$ 300 mil para libertação de dois traficantes e R$ 140 mil pela venda de três fuzis. A partir das investigações, a Subsecretaria de Inteligência apurou o pagamento mensal de propina à alta cúpula do 17º BPM.

“O tráfico podia agir livremente, com a exploração de transporte clandestino, operada sob ‘vista larga’ dos PMs”, explicou o subsecretário de Inteligência Fábio Galvão. Guarabu é o chefe do tráfico no Complexo do Dendê. O Disque-Denúncia (2253-1177) oferece R$ 10 mil por informações pelo seu paradeiro.

MP: ‘balcão de negócios’

Para o Ministério Público, a arrecadação de propina transformou o 17º BPM (Ilha) num “balcão de negócios”, que possui “fortes vínculos com o tráfico”, como diz trecho da denúncia. Além da venda do armamento ao traficante Guarabu e do recebimento de propina em troca da liberdade de criminosos, o documento não descarta a associação dos PMs ao tráfico, já que o batalhão pouco combatia esse crime na região.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que nos oito primeiros meses de 2013, por exemplo, somente 39 armas foram apreendidas pelos PMs. Em julho daquele ano, houve apenas um registro de arma apresentado. De janeiro a agosto deste ano, o número de apreensões de armas foi de 54.

O coronel Corpas, conhecido entre a tropa como ‘Cabelo de Boneca’, assumiu o batalhão em janeiro de 2013. Segundo o MP, ele entrou em contato imediatamente com o tenente Vítor Mendes ao saber da abordagem ao Ecosport cheio de traficantes. Homem de confiança do comandante, Vítor foi pessoalmente ao local e assumiu a ‘ocorrência’, determinando o que cada policial deveria fazer.

Os documentos e computadores apreendidos com os policiais serão periciados, já que na denúncia do MP consta a existência de provas documentais, imagens e áudios que demonstram que o coronel Corpas receberia ainda propina do transporte alternativo da Ilha.

Compras na loja de sua mulher

O coronel Dayzer Corpas deve responder também por improbidade administrativa. Segundo as investigações, o oficial comprava materiais de construção para o 17º BPM na loja Plaza Ferragens, que pertence à mulher e ao cunhado.

Foram apreendidas notas fiscais de compras com valores entre R$ 1,5 mil e R$ 1,8 mil. “É um fato interessante nas investigações, já que ele comprava material para obras do batalhão na loja da esposa dele e do cunhado”, afirmou o subsecretário de Inteligência Fábio Galvão.

O padrão de vida de Corpas atrapalhou a operação. A ação foi adiada porque o oficial viajou para os Estados Unidos com a família no mês passado. Não seria encontrado em casa.

Chefes do tráfico resolveram ‘castigar’ comparsa

A falsa operação dos policiais do 17º BPM para prender traficantes, em março, foi feita a partir de aviso do traficante Guarabu, chefe do pó no Dendê há mais de 10 anos. Em acordo com Marcelo Santos das Dores, o Menor P, ‘dono’ da maioria das favelas da Maré, a dupla resolveu ‘castigar’ o então aliado Gil Pinheiro dos Santos. Isso porque o bandido de Senador Camará discordou dos comparsas em uma reunião feita entre eles no Dendê horas antes.

Quando Gil retornava para Senador Camará com seu bando, Guarabu e Menor P deram a informação aos PMs, que foram até a Estrada do Galeão, mas acharam apenas a EcoSport vermelha com cinco traficantes, armas, granadas e munição. Toda a ação foi filmada por câmeras da Base Aérea do Galeão e requisitadas pelo Gaeco. Mas, o comando da unidade da Aeronáutica, entregou o material a Corpas, que abriu investigação para punir somente os praças. Isso fez com que um dos PMs delatasse todo o esquema ao MP. Os promotores vão oficiar a Aeronáutica para que seja aberta uma investigação.

Na falsa ação, os bandidos Belo e Palermo ficaram em cativeiro com os PMs até que uma advogada saísse da Zona Oeste com R$ 300 mil para livrá-los. As joias dos bandidos ficaram com os PMs, que ainda venderam três fuzis de Gil a Guarabu por R$ 140 mil.

Os demais traficantes e armas foram apresentados na 37ª DP (Ilha). Os PMs ainda deram entrevista pelo caso e foram elogiados pelo coronel Corpas.

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