Quadrilha que fez aborto em Jandyra usava sítio como clínica clandestina

Segundo delegado, criminosos levaram o corpo da vítima ao local, em Campo Grande, antes de desová-lo em Guaratiba

Por O Dia

Rio - A Polícia Civil indiciou mais quatro suspeitos de envolvimento no aborto, homicídio e na ocultação do corpo da auxiliar administrativa Jandira Magdalena dos Santos, que morreu em 26 de agosto. Dois deles foram presos na manhã desta sexta por policiais da 35ª DP (Campo Grande). As cinco pessoas que já estavam presas tiveram a prisão temporária prorrogada por 30 dias. Ao todo, nove foram indiciados e dois continuam foragidos.

Foram presos nesta sexta Jorge dos Santos, conhecido como Jorge Gaga ou "Gargamel", de 53 anos, e Carlos Antônio Júnior, 24. O depoimento do falso médico Carlos Augusto Graça de Oliveira, que se entregou na última quarta-feira, conduziu os investigadores a um sítio em Campo Grande para onde o corpo de Jandira teria sido levado, no porta-malas, antes de ser carbonizado e desovado em Pedra de Guaratiba.

Jandyra desapareceu no dia 26 de agosto, quando iria fazer um aborto; seu corpo foi encontrado um mês depois em GuaratibaReprodução

De acordo com o delegado Hilton Alonso, Jorge trabalhava como caseiro no sítio e era ele quem dava acesso ao grupo. “O sítio foi o ponto de encontro utilizado pela quadrilha após o ocorrido na clínica. Eles esperaram anoitecer para seguirem até Guaratiba, onde queimaram o carro e o corpo da Jandira. O imóvel é alugado e nós já pedimos à imobiliária o contrato de aluguel para chamarmos o inquilino. Não há nada que inicialmente desabone a conduta do inquilino, mas ele será ouvido”, disse o delegado.

Ainda de acordo com o titular da 35ª DP, o taxista Carlos Antônio Júnior exercia a função de motorista da quadrilha e transportou outras grávidas operadas no mesmo dia que Jandira. Continuam sendo procuradas a falsa auxiliar de enfermagem Keila Leal da Silva, de 36 anos, e Agda Pereira, 45 anos, a Mudinha. Keila é apontada como a anestesista que auxiliava o falso médico nas cirurgias. Agda, que é surda-muda, seria faxineira da clínica. Segundo o delegado, todos os indiciados ontem eram contratados por Rosemere Aparecida Ferreira, considerada chefe do grupo.

“Agora nós temos três versões sobre os fatos: a da Vanuza (Vais Baldacine, motorista que levou Jandira até a clínica), da Rosemere e do falso médico. Todos tentam se tirar do momento da morte e apenas confirmam o aborto, o que não há como negar diante de todos os depoimentos e reconhecimentos. Só que, para a Polícia Civil, o homicídio está concretizado, já que eles fizeram aborto em uma mulher que já tinha mais de quatro meses de gestação, num local totalmente insalubre e não possuem formação médica. Todo o grupo assumiu o risco de gerar a morte”, afirmou Alonso.

Omissão de socorro

Segundo o delegado, o falso médico contou que o sítio, localizado na Estrada Caminho dos Caboclos, em Campo Grande, já tinha sido usado em outras ocasiões pela quadrilha para a prática de abortos. Ele revelou ainda que o grupo tentou ressuscitar a auxiliar administrativa por mais de uma hora, o que, segundo Alonso, configura omissão de socorro.

O delegado confirmou que Rosemere, Vanuza, Júnior e Jorge Gaga foram até o sítio, mas preferiu não divulgar informações sobre o traslado do corpo até Guaratiba para não atrapalhar as investigações. Além deles e do falso médico, já estão presos Marcelo Eduardo Medeiros, que alugava a casa onde funcionava a clínica, e a companheira dele, Mônica Gomes Teixeira, que recepcionava as clientes. A polícia espera concluir o inquérito em até 30 dias e não descarta a hipótese de existirem outros envolvidos.

Nesta sexta-feira, agentes da 35ª DP (Campo Grande) prenderam mais dois acusados de integrar a 

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Jovem ficou desaparecida após cirurgia

A auxiliar administrativa Jandyra estava grávida de quatro meses e morreu após um aborto realizado em uma clínica clandestina em Campo Grande, no dia 26 de agosto. Seu corpo foi encontrado carbonizado dentro de um carro em Guaratiba, no dia 27 do mês passado, com os membros e arcada arrancados. 

Parentes e amigos não escondiam a tristeza e revolta durante o velório de Jandira Magdalena no Cemitério de Ricardo de AlbuquerqueCarlos Moraes / Agência O Dia

Durante o velório, a irmã de Jandira, Joyce Magdalena, se mostrou bem consciente, dando força para os presentes. "Nunca iríamos imaginar que uma menina de 27 anos iria descer na sepultura. Poderia ser eu, poderia ser qualquer pessoa. Mas eu sei que vidas estão sendo salvas pela vida da Jandira. Ela está em um lugar de paz, melhor que todos nós", disse.

A mãe e as filhas de Jandira não compareceram ao sepultamento. Amigos e o pai da jovem estavam inconformados com a situação. Também estiveram presente alguns membros do movimento de mulheres pela descriminalização do aborto.

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