'Vi falecer nos meus braços', diz mãe de bebê que morreu em hospital de Caxias

Ela contou o drama da família antes da tragédia que ocorreu na unidade de saúde em Saracuruna

Por O Dia

Rio - A pequena Kamily, de 1 ano e 4 meses, se aproxima da mãe, acaricia a sua barriga e pergunta onde foi parar a irmãzinha que esperava. A auxiliar administrativa Aline da Silva Gomes, de 23, que viu a filha prematura morrer aos seis meses de gestação pendurada ao cordão umbilical, no dia 12, após esperar por atendimento no Hospital Adão Pereira Nunes, não contém a emoção. Porém, se mantém firme. Sob o olhar fixo do marido Wilton Telles, de 29, ela narrou com detalhes a tragédia que vitimou a bebê Isabela e toda sua família, e fez pouco caso do laudo que apura se a criança chegou ao mundo morta.

“Minha filha estava viva. Ela se mexia e chorou no meu colo assim que nasceu. Vi falecer nos meus braços”, disse ela ao DIA nesta segunda-feira. De acordo com Aline, eram 5h daquele dia quando vieram as primeiras contrações. Usuária de um plano de saúde pelo qual realizou os exames pré-natais, ela estava a caminho da clínica Daniel Lipp, em Duque de Caxias, quando o bebê foi expelido naturalmente, fazendo com que os planos mudassem, e o Adão Pereira Nunes passasse a ser a única opção.

Ao lado do marido Wilton%2C Aline segura a roupinha que seria usada pela filha na saída da maternidadeAlexandre Brum / Agência O Dia

“Mesmo com muita dor, pedi para não ir ao Hospital de Saracuruna, pela fama dos profissionais faltosos, mas não teve jeito”, conta Aline, agarrada à roupa com a qual Isabela deveria sair da maternidade. Como O DIA revelou ontem, foram registradas 3.077 faltas de profissionais de enfermagem entre janeiro e agosto.

Segundo ela, foi a ausência de enfermeiro que causou a espera de oito minutos, até que a criança desse seu suspiro final. “Fui levada para a sala de parto, para que contivessem meu sangramento, e minha filhinha, para outro setor. Ali, pouco depois, sem muita preparo, recebi a notícia (da morte)”, disse, diante do marido em lágrimas. Desde o sepultamento, na quarta-feira, o casal estava fora do Rio. Nesta segunda, de volta ao apartamento de pouco mais de 30 metros quadrados no bairro Vila Maria Helena, em Caxias, eles prestaram depoimento na 60ª DP (Campos Elíseos) e esperam por justiça. “Seja lá quem for o responsável, não pode ficar impune”, concluiu ele.

Laudo do IML deve ficar pronto em até duas semanas

À 60ª DP (Campos Elíseos), Aline confirmou o choro da filha pouco depois de nascer. A informação é crucial, pois o delegado José de Moraes Ferreira espera o laudo do IML (que deve apontar se o bebê morreu pela demora ou já foi expelido morto) para indiciar ou não o obstetra Alexandre Gomes Barros, suspeito de omissão no socorro.

“São informações valiosas, que podem ser endossadas pelo exame, cujo resultado sai em duas semanas”, reconheceu o policial, que já havia dito anteriormente não descartar o indiciamento por homicídio doloso.
O médico, que prestou depoimento na última sexta-feira, por sua vez, negou negligência. De acordo com ele, a demora se deu pela falta de enfermeiro no acolhimento. A Secretaria Estadual de Saúde confirmou a ausência do profissional e notificou o hospital.

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