Por thiago.antunes

Rio - Funcionário da Santa Casa de Misericórdia do Rio há 22 anos, João Batista Calvelli Filho, de 73 anos, chora ao falar sobre a situação atual da instituição, afundada em dívidas trabalhistas — que chegam a R$ 10 milhões — e escândalos. Casado e com dois filhos, ele é um das centenas de empregados que trabalham para a instituição e que recebem entre R$ 700 e R$ 2,4 mil por mês, mas estão com os salários atrasados há oito meses.

Mas dinheiro é o que parece não faltar. Documentos a que O DIA teve acesso mostram que a Santa Casa arrecada, por mês, pelo menos R$ 1,7 milhão com aluguéis de mais de 500 imóveis de sua propriedade para empresas privadas e pessoas físicas. “É uma covardia o que estão fazendo. Tem colegas passando fome. Isso é trabalho escravo”, desespera-se João Batista, que era zelador de três prédios da instituição, com 150 apartamentos, no Flamengo.

Ele conta que sua situação só não está pior porque aposentou-se e, a pedido da provedoria, continua trabalhando. “Mesmo assim, do salário de R$ 2,4 mil que recebo, metade é destinado a medicamentos para diabetes, coração e hipertensão”, revela João Batista.

João Batista%2C em frente aos prédios que administrou por mais de 22 anos%2C mostra documentos que comprovam atrasos de pagamentoJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

Assim como João, outros funcionários foram convocados a comparecer ao Departamento Pessoal da Santa Casa no último dia 1º, conforme circular assinada no dia 25 de setembro pelo então provedor interino Luiz Fernando Mendes de Almeida e pelo atual provedor, o juiz aposentado e ex-presidente do Fluminense, Francisco Horta. Muitos foram transferidos de local de trabalho e outros, colocados à disposição da diretoria, com vencimentos suspensos.

Inquilinos dos apartamentos da Santa Casa pagam, em média, entre R$ 1 mil e R$ 5 mil de aluguel. Já algumas empresas chegam a pagar mais de R$ 120 mil, como uma concessionária de carros em Botafogo. Francisco Horta, de 80 anos, prometeu sanar as dívidas, além de reabrir, até janeiro, 650 leitos. A Santa Casa entrou com mandado de segurança na Justiça Trabalhista para garantir que Horta, eleito nessa terça, tome posse. Na segunda-feira, o desembargador aposentado Damir Vcribradic foi nomeado interventor na instituição, mas pediu afastamento após a eleição de Horta.

Inquilinos reclamam de aumentos

Atualmente, a Santa Casa de Misericórdia tem aproximadamente 700 funcionários — já chegou a mais de mil. Os gastos com a folha salarial giram em torno de R$ 1,5 milhão. As dificuldades financeiras teriam se agravado por conta de penhoras judiciais dos valores arrecadados com aluguéis de imóveis e garagens, que chegam a R$ 1 milhão.

Reunião elegeu o juiz aposentado Francisco Horta foi eleito para a provedoria%2C após intervenção judicialCarlo Wrede / Agência O Dia

Inquilinos dos prédios localizados no Flamengo, queixam-se que a empresa Zirtaeb Imobiliária dobrou os valores de aluguéis e condomínios de apartamentos e garagens desde que foi contratada para cuidar dos imóveis da Santa Casa, em meados deste ano.

“Meu condomínio pulou de R$ 500 para R$ 902”, protesta Maria da Costa, 69. Nas portarias dos edifícios, avisos dos novos valores das 150 vagas para carros, que variam de R$ 120 a R$ 300 por mês. Há alguns meses, a média era de R$ 90. A direção da imobiliária deve se pronunciar hoje.

Decisão do TRT sai nesta quinta no Diário Oficial

Em nota, o Tribunal Regional do Trabalho informou que a 62ª Vara do Trabalho do Rio divulgará hoje, no Diário Oficial, a decisão da juíza substituta Luciana dos Anjos Reis Ribeiro sobre o impasse em relação à ocupação do cargo de provedor da Santa Casa. “Com a renúncia de Damir Vrcibradic como interventor, a eleição realizada terça-feira para escolha de novo provedor foi mantida”, assegura um trecho do texto.

Através do Diário Oficial, Luciana anunciará se vai nomear outro interventor ou se o ex-juiz Francisco Horta poderá assumir. Em 2013, a Justiça afastou o ex-provedor Dahas Zarur. Ele e mais 23 pessoas são acusados de irregularidades e fraudes fiscais nas vendas de jazigos e imóveis de propriedade da instituição, entre 2004 e 2013.

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