Por felipe.martins
Publicado 03/11/2014 23:40 | Atualizado 03/11/2014 23:41

Rio - Na mesma proporção em que minguam as reservas da bacia do Rio Paraíba do Sul, principal fonte de abastecimento do estado, cresce a preocupação de especialistas em saúde pública com a qualidade da água que chega aos cidadãos. A Vigilância Sanitária municipal adiantou com exclusividade para O DIA que vai aumentar, já este mês, o número de pontos de coleta d’água para análise em laboratório.

O receio principal é de que, por estar mais próxima ao solo, onde se concentram agentes químicos poluentes, como agrotóxicos e metais pesados, a redução de volume de água nos reservatórios aumente as chances de contaminação. “As estações de tratamento têm certa capacidade. Mas se a água começa a chegar barrenta e suja, eles não conseguem tratar 100% e acabam distribuindo um produto de péssima qualidade, impregnado com poluentes químicos”, explicou o coordenador do Observatório Nacional de Clima e Saúde da Fiocruz, Christovam Barcellos.

A Represa do Funil%2C localizada no município de Itatiaia%2C no Sul Fluminense%2C está operando com 10% da sua capacidade%3A risco de contaminaçãoErnesto Carriço / Agência O Dia

Segundo o pesquisador, a saída é os órgãos de vigilância sanitária dos municípios intensificarem as ações de monitoramento. Na capital, o programa Vigiágua vai incluir 50 novos locais para coleta de amostras. Atualmente, cem pontos, entre colégios, hospitais, postos de saúde e prédios públicos recebem os técnicos mensalmente para verificação da qualidade da água distribuída pela Cedae.

Segundo a coordenadora de Arquitetura e Engenharia da Vigilância Sanitária Municipal, Márcia Simões, a adequação do programa teve que ser feita por causa das baixas consecutivas na Bacia do Paraíba do Sul, que agora opera a 10% de sua capacidade total.

“Nós não sabemos como essa redução pode impactar a qualidade da água. Se ela precisa passar por mais processos para ficar própria para o consumo, achamos por bem intensificar a vigilância”, ponderou. A interrupção do abastecimento também pode trazer riscos de contaminação. “Quando para de circular água pelo cano, as pequenas porosidades que estão nele podem deixar passar esgoto e detritos para dentro”, alerta a especialista, lembrando que as tubulações das redes de águas pluviais e esgoto sofrem com vazamentos e contaminações.

Poços artesianos devem ser tratados com cloro, diz especialista

A falta d’água que já fez secar as torneiras dos municípios de Barra do Piraí, São João da Barra e São Fidélis — dependentes diretos da Bacia do Rio Paraíba do Sul — pode ter uma reação em cadeia com reflexos para a saúde pública. O coordenador do Observatório Nacional de Clima e Saúde, Christovam Barcellos, é quem faz o alerta.

Segundo ele, a compra de galões de água de empresas desconhecidas, a ingestão de água não tratada (de poço artesiano) e a má higienização dos alimentos e ambientes estão entre os principais vilões em situações de escassez.

Com isso, aumentam os riscos de contrair doenças, como febre tifoide, hepatite A e C, rotavírus, e diarreias, de acordo com Barcellos. Ele diz que, para economizar água, as famílias acabam não dando tanta atenção à limpeza dos alimentos, o que pode levar às chamadas verminoses. “A giárdia (parasita intestinal) é muito comum nesses casos. E aí, não é uma pessoa que pega a doença. Todo mundo que comeu, contrai”, afirma. A limpeza dos cômodos também fica prejudicada. “É um problema sério. Se um banheiro não é lavado devidamente, por exemplo, a bactéria que contaminou um também afeta os outros membros da família. Vira um problema de saúde pública mesmo”, comenta.

Outro efeito colateral da falta d’água é a armazenagem inadequada. “Sem acesso ao recurso, as pessoas tendem a guardar água em baldes e galões abertos, o que facilita a proliferação das larvas do mosquito da dengue”, explica.

Nos casos em que a família bebe água de poço artesiano, o especialista orienta que moradores coloquem cloro nos galões. “Primeiramente, o ideal é passar essa água por um filtro. Pode ser de barro, mas o melhor é o de carvão ativado. E, depois, adicionar gotas de cloro, de acordo com a quantidade de litros, observando as recomendações da embalagem”.

Reportagem de Luiza Gomes





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