Por adriano.araujo
Publicado 09/11/2014 00:55 | Atualizado 09/11/2014 00:58

Rio - 'Vem chegando o verão, o calor no coração...’ Porém, na primavera do Rio, o que completa o verso da música imortalizada na voz de Marina Lima, para muitos, é o medo de possíveis arrastões nas praias da Zona Sul em dias ensolarados. Como a paisagem do litoral é inseparável do imaginário carioca, resta a ele inventar estratégias — das criativas às mais radicais — para garantir o sossego e um lugar ao sol. Alguns cortaram a praia nos finais de semana, definitivamente, como quem tira da dieta um alimento do qual faz questão. É o caso da psicóloga Rosita Koschar, de 59 anos, moradora da Tijuca que viveu perto das areias de Ipanema por 30 anos.

A banhista inveterada presenciou dois arrastões, e a experiência fez com que ela dispensasse os horários de maior concentração de pessoas: de meio-dia às 17h.

"Nos arrastões%2C penso logo em sair de perto da multidão. Fico com medo de ser pisoteada ou de sair tiro"%2C diz Rosita KoscharAndré Mourão / Agência O Dia

“A praia faz parte da minha vida desde os anos 70, não dá para abrir mão, então eu tenho duas saídas: ou venho a Ipanema às 7h e fico até 11h, e fico em frente a um hotel onde tem mais segurança; ou então chego no final da tarde, mas não trago nada: nem bolsa, nem celular, nem nada”, contou.

O professor de surfe Daniel de Aragão, de 36, é paulista mas já descobriu há dois anos como a banda toca no Arpoador. “Aos domingos, deu meio-dia, nós (professores) retiramos as pranchas da areia. Quando esses ladrões passam, eles levam tudo. Então, para não ter estresse, a gente simplesmente não funciona depois desse horário”, explicou Daniel.

Conhecido o modus operandi da criminalidade, a adaptação passiva não parece ser a única opção. Para lá do Posto 9, no ponto conhecido como Coqueirão, a estratégia toma contornos mais drásticos. O jornalista Djalma Lima, de 36, revela que alguns frequentadores locais estão prontos para partir para a agressão caso a nuvem de assaltantes tente fazer chover por aquelas bandas.

“Conheço gente da Zona Sul que vem para a praia todo dia e não quer ser perturbada. Por isso, tem trazido cabo de vassoura para bater nos moleques que vierem fazer arrastão”, contou. “No Coqueirão, eles não se criam”, completou um outro frequentador, sem se identificar, em tom de desafio.

Tentando um outro tipo de solução para o problema, um grupo de amigas do Méier decidiu aproveitar para conhecer praias mais reservadas.

“Final de semana não dá para vir. É só ler os jornais. Por isso nós decidimos explorar outras possibilidades: temos ido à Praia Vermelha direto, que é em área militar, e da última vez fomos conhecer a Prainha, que é mais tranquila”, confessou a Ana Beatriz Helena de Paula, de 25, que trabalha como enfermeira.

Aos domingos%2C no Arpoador%2C o professor de surfe Daniel de Aragão conta que espera confusão ao meio-diaAndré Mourão / Agência O Dia

Grupos invadem ônibus e ameaçam motoristas

A onda de pânico causada por arrastões tem um caminho até quebrar nas areias das praias da Zona Sul. O vice-presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores da Cidade do Rio (Sintraturb), Sebastião José da Silva, está acostumado a conviver com as histórias de pânico dos colegas rodoviários.

Ele conta que, ao invadir os coletivos, os grupos ameaçam agredir e até matar motoristas e cobradores para que eles deixem todos subir. “Há algumas linhas que são alvo com mais frequência. E os profissionais destes ônibus ficam mais sujeitos aos riscos e sustos. E são muitos adolescentes, uns 30, 40. Os trabalhadores ficam reféns dessas gangues, não têm o que fazer para proteger o passageiro, nem a si próprio”, lamenta Sebastião.

Segundo ele, foi justamente em situações como essa que o sindicato perdeu três de seus motoristas, mortos, em 2013. “Esse profissional fica muito exposto à sorte. Já cobramos das autoridades maior proteção no trabalho”.

?Insegurança está em alta

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), divulgados na quinta-feira passada, confirmam a sensação de insegurança entre os banhistas. O número de roubos de rua — que incluem assaltos a transeuntes, roubo de celular e assaltos a ônibus — aumentou 23,9% em setembro, comparado ao mesmo mês de 2013. Foram registrados 1.507 assaltos a mais que no ano passado. A apreensão de adolescentes também aumentou: um salto de 699, em setembro de 2013, para 871 no mês passado, revelando uma diferença percentual de 24,6%.

Segundo o coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, Ignacio Cano, o panorama montado pelas estatísticas do ISP apontam para uma realidade conhecida de sua equipe: a escalada galopante da violência desde 2012.

“De 2009 até 2012, a área de Segurança Pública tinha conseguido conter o avanço dos índices de roubo de rua através de metas policiais e premiações dentro da Polícia Militar. Mas estamos retornando aos patamares anteriores”, lamentou Ignacio.

Segundo o sociólogo, a política de segurança vigente priorizava a redução dos roubos de rua, de carros, e os homicídios. “Os responsáveis pela área, porém, acreditaram que simplesmente mantendo essas metas iriam inibir novos avanços da criminalidade, mas isso está errado”, opina. Atualmente, apenas as estatísticas de homicídios no estado estão dentro da margem conquistada entre 2009 e 2012, segundo ele.

A PM informou que aumentou o efetivo na orla em setembro. Atualmente, são 710 policiais dos bairros de Botafogo, Flamengo, Copacabana, Leblon e Ipanema, além do Batalhão de Choque, de Ações com Cães, entre outros. Uma plataforma de observação foi montada próximo ao Arpoador.

Reportagem de Luiza Gomes

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