Por thiago.antunes
Publicado 13/11/2014 01:21 | Atualizado 13/11/2014 16:32

Rio - Poucos sabem, mas o governador da Bahia, Jaques Wagner, é judeu de Madureira, assim como o cineasta Sílvio Tendler. Ambos se conheceram na sinagoga que existia no bairro. Sílvio Santos, também judeu e carioca, não é de Madureira, mas reza a lenda que começou a vida como camelô por lá. O cantor e compositor Marquinhos de Oswaldo Cruz carrega o bairro vizinho no nome, mas nasceu em Madureira. Ele conta que a maior característica da região é o respeito às diferenças.

Madureira sempre carregou a fama de ter um comércio variado e popularFernando Souza / Agência O Dia

“A grandiosidade de Madureira sempre foi esse respeito. Era um bairro que congregava todo mundo. O grande Paulo da Portela, por exemplo, chamava todo mundo para participar da escola de samba. Fosse preto, fosse branco, fosse o que fosse”. Marquinhos tem na memória muitas histórias das redondezas e conta que na antiga estação de Magno, próximo a Vaz Lobo, tinha um botequim chamado Varejo, onde todo mundo se encontrava. Ele, que nasceu ali perto, ia comprar cerveja para o seu pai no botequim, e encontrava Silas de Oliveira, Monarco e Candeia, todos batucando e cantando seus sambas.

O bairro tem duas das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, a Portela e o Império Serrano, mas Marquinhos conta que a verdadeira escola de samba de Madureira era a Unidos da Tamarineira. O Império foi fundado em 1947, no Morro da Serrinha; e a Portela foi fundada em 11 de abril de 1923 no bairro de Oswaldo Cruz, sendo a mais antiga escola de samba em atividade permanente, a única que participou de todos os desfiles de escolas de samba da cidade e campeã do primeiro concurso de escolas de samba (não oficial) em 1929.

Marquinhos de Oswaldo Cruz nasceu em Madureira%2C mas carrega o bairro vizinho no nomeFernando Souza / Agência O Dia

Já o Império Serrano começou sua trajetória de forma majestosa, consagrando-se vencedora em seu primeiro desfile, em 1948. Foi a primeira escola a trazer todos os seus componentes fantasiados, a criar o primeiro destaque, a posicionar seu primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, além de incorporar à bateria o agogô.

Madureira era do samba e da malandragem. Só ia sambar quem sabia requebrar e quem se virava em não tomar uma rasteira. As mulheres comandavam as rasteiras. Elas iam para a roda e quando o samba virava batucada, quem bobeasse, levava uma rasteira caía no chão. “Tudo acontecia no pátio de Magno, o grande encontro da pancadaria e do samba. Ninguém se metia com tia Rosália e Alzira Moleque. Elas eram as tais. Isso há 80 anos”, conta Marquinhos de Oswaldo Cruz.

Hélio Sillman é dono de loja de artigos religiosos e organizador da Festa de IemanjáAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Um bairro que é berço de clássicos

Marquinhos tem muitas lembranças do bairro, conhece muitas histórias, como a de seu Manacéia e seu Monarco, autores de dezenas de músicas que até hoje o povo canta. “A gente conhecia essas músicas desde criança, das festas nos terreiros. A gente não tinha ideia de que eles eram autores daquelas músicas”.

Na casa da Tia Doca, artistas como Paulinho da Viola e João Bosco iam ouvir os sambas que há muito encantavam o povo do bairro, como Quantas Lágrimas, de Manacéia, um clássico. Tinha uma afinação própria do cavaquinho, uma forma única de cantar, de compôr notas alongadas, uma coisa quase barroca. 

Arandir do Santos%2C o Careca%2C fundador do Império do FuturoAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Marquinhos diz que em Madureira o pessoal podia fazer macumba e não era preso. “Essa região aqui é talvez a região mais rica em termos de cultura popular. É riqueza de bens imateriais e por isso as pessoas não dão tanta importância”.

Mercadão de Madureira, onde as crenças se encontram

Em novembro de 1959, foi inaugurado o Mercadão de Madureira, com a presença do então presidente da República Juscelino Kubitschek. O empresário Horácio Afonso, filho de um dos fundadores, frequenta o local desde criança. Por conta do grande incêndio ocorrido no dia 15 de janeiro de 2000, o Mercadão foi reconstruído, mas o tamanho é o mesmo desde sua inauguração.

“O movimento é de cerca de 80 mil pessoas por dia e em épocas de festas esse movimento aumenta 50%. Há uma variedade muito grande de artigos nas lojas. De artigos religiosos a material do dia a dia”, conta Horácio. A maioria das lojas é familiar, não tem filiais, e o dono trabalha com a família. “A facilidade de chegar ao Mercadão é muito grande. O BRT vai facilitar a vida no bairro e, consequentemente, vai melhorar ainda mais o movimento por aqui”, acredita o empresário.

São 580 lojas, dois condomínios, dois pavimentos, dez galerias e duas ruas (Edgard Romero e Conselheiro Galvão). Nesses 54 anos sofreu várias mudanças. No começo era uma central de abastecimento de hortifrutigranjeiros, mas na década de 1970, os comerciantes do atacado migraram pra lá e surgiram lojas novas, aumentando o varejo e atraindo novos clientes.

O Baile Charme há 25 anos acontece embaixo do viadutoErnesto Carriço / Agência O Dia

“Com o tempo a imagem do Mercadão foi melhorando e hoje temos aqui a família inteira comprando. O carioca reconhece a importância do Mercadão para Madureira e essa importância se concretizou para toda a população quando houve o incêndio. Ficamos um ano e meio fechados”, conta Horácio.

A reabertura foi em outubro de 2001 e reinventou a história do Mercadão, como diz Hélio Sillmann, dono de uma loja de artigos religiosos e organizador da Festa de Iemanjá, que acontece há 12 anos e sai do Mercadão todo dia 29 de dezembro rumo a Copacabana.

“Foi uma iniciativa para agradecer pela reabertura após o incêndio e para fortalecer a umbanda e o candomblé devido à intolerância religiosa”, explica o comerciante, que concorda quando dizem que quem mora em Madureira não precisa sair do bairro para nada. “Tem tudo aqui e o melhor de Madureira é o povo”.

Um parque pra chamar de seu

Marquinhos de Oswaldo Cruz já morou em Niterói, em Copacabana, hoje mora em Maricá, mas nunca deixou de conviver com Madureira. Vê como evolução a questão da memória da região, pois todo mundo agora voltou a ter orgulho do bairro. Para ele, a melhor novidade é o Parque Madureira, inaugurado no dia 23 de junho de 2012. Claudio Cassetti, administrador do parque, conta que o lugar mudou a vida da região.

O Parque Madureira enche de orgulho os moradores do subúrbioAndré Luiz Mello

“Era uma área degradada e hoje tem um equipamento dessa qualidade. Não foi feito de qualquer maneira e as pessoas se sentem privilegiadas. É como se fosse a extensão da casa deles”. Quem anda por lá percebe que não há depredação. É um parque limpo, parece que acabou de ser inaugurado.

Durante a semana os frequentadores são basicamente os moradores da grande Madureira. Nos fins de semana, recebe gente de vários bairros, até mesmo da Zona Sul e de outros municípios, atraídos pela pista de skate, considerada a melhor da América Latina. Fora a Nave do Conhecimento, onde há cursos gratuitos de Informática, o Teatro Fernando Torres, com programação a preços populares, e a grande concha acústica, para shows.

“Recebemos em média 60 mil pessoas por final de semana e nunca houve confusão”, diz Cassetti. São 1.350 metros quadrados de área, tamanho que vai triplicar com as obras em andamento. O parque vai chegar até a Pavuna. Já em março será inaugurado o primeiro trecho da expansão.

Área e arredores de MadureiraArte%3A O Dia

Do chorinho ao Baile Charme

Mestre Pixinguinha frequentava Madureira com seu conjunto de choro. Ele ia para a casa da dona Ester tocar antes do samba. Foi o embrião das gafieiras. Madureira tem a função de manter essa tradição, rica pela herança africana e pela mistura das minorias. É lá que, há 25 anos, acontece todos os sábados, debaixo do viaduto Negrão de Lima, o famoso Baile Charme. Michel Jacob, o DJ Michel, morador de Osvaldo Cruz, é produtor do baile. Começou tocando em 1993, com apenas 13 anos.

“Estamos numa ascensão muito grande e o baile cresceu junto com o bairro. Vem gente do Rio todo e até de outros estados”. Bairrista, o DJ diz que tem orgulho do Parque de Madureira e do BRT, que hoje cruza toda a região. “Desenvolvimento é bom, melhorias fazem parte da vida de todos e Madureira tem que passar por isso porque nosso bairro é que nem o Charme: é ritmo, é elegância”.

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